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Estamos a plantar para recuperar flora nativa da região

A escolha do Dia da Floresta Autóctone, 23 de Novembro, para apresentar o próximo Plano Municipal de Plantações não foi por acaso. A recuperação da flora nativa da região de Coimbra, através da criação de um bosque mediterrâneo nos Loios, é uma das linhas mestras do programa de arborização, que assume como principal objectivo a reposição de árvores em todas as caldeiras vazias (mais de mil) até ao final do mandato do actual executivo camarário, numa altura em que cidade recupera do abate de 135 espécimes e acelera nas plantações de substituição.

«Estamos a plantar árvores no período adequado e da nossa floresta autóctone», destacou Francisco Queirós, vereador responsável pela área de Espaços Verdes e Jardins, ao fechar um dia em que a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) criou sementeiras de bolotas em duas escolas e plantou 250 árvores, entre salgueiros e quercíneas. Até Dezembro, garante, «muita coisa ainda vai correr» para reverter os atrasos na execução dos planos de arborização – e este é um dos argumentos do vereador para não fazer de momento um ponto de situação sobre as 2400 árvores que estavam previstas ser plantadas este ano.

Vereador Francisco Queirós, presidente da Junta de Freguesia de Santo António dos Olivais, Francisco Rodeiro, e presidente da CMC, José Manuel Silva, no Dia da Floresta Autóctone

O próximo plano municipal é já pensado a dois anos para acautelar as épocas mais propícias à plantação, do Outono à Primavera. «A burocracia é uma coisa; o ritmo da natureza, outra. Não faz sentido chegar a 31 de Dezembro e, por uma questão meramente administrativa, dizer: “Termina aqui o plano e agora começa outro”», distingue. Até 2025, a CMC conta plantar 1978 árvores, às quais se juntam 562, ao cuidado da Metro Mondego, num investimento superior a 545 mil euros.

«É o plano de plantações mais ambicioso que a Câmara já teve», salienta o presidente da CMC, José Manuel Silva.

Um bosque com a «árvore certa, no sítio certo»

Entre a Rua Miguel Torga, a Rua Alberto Oliveira e a Quinta de São Jerónimo, aponta Francisco Queirós, há uma zona verde «interessantíssima» e que, «provavelmente, passa despercebida à maioria dos conimbricenses». É lá que a CMC quer criar o Bosque dos Loios, com a reintrodução de espécies arbóreas da flora nativa, para promover a biodiversidade e resgatar a «identidade ambiental» da região. Entre as 500 plantas autóctones contam-se exemplares de carvalho-cerquinho e sobreiros, mas também arbustos como tojos, estevas e urzes, num mosaico típico da floresta local.

José Vilhena, da Divisão de Espaços Verdes e Jardins, e Francisco Queirós acompanham novas plantações após abates

«É um bosque com enquadramento fitossociológico, que é a forma de dizer “a árvore certa, no sítio certo”», resume José Vilhena, à frente da Divisão de Espaços Verdes e Jardins. «Estamos a pensar na funcionalidade do ecossistema, que envolve uma série de vegetação específica que é local, da região centro, e que vamos tentar replicar», explica. A intervenção, com um custo estimado de 70 mil euros, será feita numa zona onde «já existem árvores com interesse de conservação», mas também «grandes invasoras», que serão removidas.

A reintrodução de espécies autóctones não é tradição nos planos municipais de arborização em Portugal, que, pelo valor estético, tendem a optar mais por árvores exóticas não invasoras, como as tílias ou os plátanos. Este é um ponto em que as câmaras «podiam avançar muito mais, privilegiando as espécies nativas», defende Joaquim Sande Silva, professor e investigador de Engenharia Florestal na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Coimbra.

«Além da boa adaptação ao nosso clima e aos nossos solos, é importante pensar que as nossas espécies permitem servir de alimento a uma série de animais. Se aumentarmos o número de árvores nativas, mesmo em ambiente urbano, vai haver agentes dispersores, como aves, que levam bolotas, frutos ou sementes para outros locais, contribuindo para a regeneração de terrenos abandonados e que podem ser ocupados por carvalhos em vez de acácias», esclarece Sande Silva. A estratégia pode ser uma solução para um concelho que, alerta, está «martirizado» com espécies invasoras.

Câmara com «todas as condições» para plantar

A grande aposta da CMC continua, no entanto, a estar nos arruamentos e, desta vez, com alvos muito precisos, igualmente sinalizados pelo movimento cívico Eu Também: as caldeiras vazias – entretanto replicado em Lisboa. O grupo contou cerca de 500, mas, corrige agora a autarquia, são 1094 e o «objectivo é chegar ao fim do mandato com uma árvore em todas», refere José Manuel Silva. «Estão reunidas todas as condições para o fazer: vontade, estudo técnico e dotação financeira».

O projecto conta com uma verba de 400 mil euros para «retirar cepos antigos, refazer caldeiras (lancis, calçadas e outros pavimentos) e plantar novas árvores com calibres adequados a arruamentos», pode ler-se no plano. Algumas das caldeiras, adianta Francisco Queirós, serão tapadas por não cumprirem as novas normas técnicas: até ao final do ano, será feita uma avaliação para determinar quais podem manter a função original.

O plano de arborização tornado público, ao contrário do deste ano, não indica que espécies vão ser plantadas e em que ruas, fazendo apenas referência ao número de árvores previstas. Até aqui, a taxa de sobrevivência das novas plantações feita pela CMC em arruamentos é alta: está «na ordem dos 97 por cento», de acordo com José Vilhena. «Temos uma grande cobertura com vários circuitos de rega – dois a três, no Verão», salienta, afastando preocupações com a capacidade de resistência de árvores jovens, acabadas de sair do viveiro para a cidade.

Joaquim Sande Silva confirma que «há boas condições» para a sobrevivência – desde que a espécie utilizada seja a correcta, haja recursos e conhecimento. «No espaço urbano, as árvores têm um cuidado que não existe em ambiente florestal: podem ser cuidadas uma a uma e ultrapassar os primeiros dois anos de vida após a plantação, que é o período mais crítico». «Se a mais velha lá estava, uma mais nova consegue vingar também», destaca o investigador.

Apesar da taxa de sucesso, a substituição de «árvores com 50 anos por uma pequena planta», ressalva Sande Silva, é um «paliativo que não satisfaz», sendo «sempre difícil aferir» os riscos de queda e a urgência de abates, quando o «medo da responsabilização cresce proporcionalmente à idade das árvores».

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