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RECORDEM

O The Living Room é a nova sala de estar da cidade

Cafés e restaurantes felizes com crianças dentro

Para algumas famílias, a Páscoa voltou a mostrar que sentar toda a gente numa mesa fora de casa, sem choro nem birras continua a ser um desafio. Destacamos espaços em Coimbra que vão além do menu infantil e dos lápis de cor para oferecer refeições tranquilas a miúdos e graúdos – em qualquer altura do ano.

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Fotografia: Mário Canelas

RECORDEM

O The Living Room é a nova sala de estar da cidade

Declaração de interesses: a autora deste artigo é mãe, gosta de café e de demoradas refeições fora de casa, em família e com amigos. A editora deste artigo também. E acreditamos que muitas das pessoas que nos lêem partilham dos mesmos gostos e princípios, mas também sentem falta em Coimbra de espaços que sirvam adultos e crianças em iguais doses de entretimento, sem que alguém acabe convencido de que estaria melhor e menos aborrecido noutro lado. Antes que nos corrijam: sabemos que são vários os restaurantes e cafés com esplanadas junto a parques verdes, de fast food (comida rápida) ou que acompanham bons pratos e bom serviço com desenhos, lápis de cor e até colo. Mas neste artigo destacamos os que foram mais longe na resposta aos apetites de quem recebem e encaixaram no modelo de negócio uma boa área dedicada aos mais novos, perto da vista (e do coração) dos mais velhos.

Vamos começar pelos bens essenciais. Entre os direitos da parentalidade que ficam muitas vezes por exercer há um pouco falado, ainda que seja muito reclamado à boca pequena (nos casos mais críticos, várias vezes ao dia): a possibilidade de beber um café que não ficou a arrefecer na mesa porque passou a segundo plano. Em Coimbra, sabemos de um sítio onde somos convidados a entrar na sala de estar de uma família onde espaço e ambiente conspiraram a favor de um lanche acabado de servir. Chama-se The Living Room, um café comunitário e inclusivo que conhecemos desde que abriu, com casa de banho adaptada, triciclos, jogos, livros, bolas, casas de bonecas, uma cozinha em ponto pequeno e vista para um generoso quintal. Dentro e fora, as crianças podem estar entretidas com autonomia e segurança enquanto pais e mães conseguem sentar-se à mesa absolvidos da culpa tão portuguesa de deixar os filhos a brincar sozinhos.

Ana Catarina e Inês no The Living Room

É aqui que encontramos Ana Catarina, num destes dias raros em que o sol deu descanso à chuva, a viver «um pequeno luxo». «A Cristi e o Michael [Gerecke, donos do Living Room] trouxeram um conceito que nós, portugueses, não temos. Ir com miúdos pequenos para um café não é agradável. Este é um sítio descontraído. Não há barulho. O tempo parece que faz uma pausa. E ela brinca», diz. Ela é Inês, de 7 anos. Estão num «momento mãe e filha», a celebrar o «muito bom» no teste de matemática: a mãe demora-se num café cremoso «ao ar livre»; a filha hesita na difícil escolha entre mais uma mordida no bagel de chocolate ou nova escalada pela teia de aranha, a dois passos da mesa. Parece, no entanto, ter já decidido que não irá embora sem «fazer contas de vezes, de mais e de menos no quadro» de ardósia, que fica lá dentro.

Um lanche com conversa em dia

Os parques infantis são um destino comum nas cidades para quem consegue gozar de um intervalo em família na rota trabalho, escola, casa, mas, por norma, não são inclusivos, nem convidam a uma interacção entre adultos e crianças. Os lugares invertem-se: são os mais crescidos que têm de arranjar forma de se ajustarem a um espaço que não foi desenhado para eles e assumir com paciência o papel de observador. «Ou temos sítios para adultos ou temos sítios para crianças. São poucos os lugares que têm esta perspectiva de pensar o mesmo espaço para ambos», confirma Andreia Leitão Marques, ao identificar uma «lacuna muito grande» que deve ser lida como uma «oportunidade de negócio».

Andreia está confortavelmente sentada numa cadeira para crianças que serve de apoio à sala de brinquedos do The Living Room, enquanto serve um chá para duas. «Não há muitos sítios como este, inclusivos e com espaço exterior, onde se pode estar de forma relaxada, sem termos de lanchar à pressa». Aqui ganhou «uma horinha para conversar» – com a filha, Leonor, de 4 anos; mas também com Cristi e Michael, e mais quem se aproxime. Leonor diverte-se com «a casa dos coelhinhos», gosta deste café porque «é giro, tem piza e bolachas de chocolate» e novos amigos: já está a brincar com a Inês.

«Está fixe», comenta Cristi, depois de lançar um olhar relâmpago pela sala. «Gosto muito de ver a comunidade que está a ser criada aqui. Temos também muitos estudantes, que já interagem e até sabem os nomes das crianças», acrescenta.

O horário de funcionamento (fecha às 18h30 e aos fins-de-semana) motiva, porém, reclamações frequentes, com Cristi a reconhecer que a organização de serões temáticos (há noites de jogos, jantares de bairro e sessões de leitura) ainda não chega para compensar. Conclusão: «Precisamos de mais sítios como este – até para tirar a pressão que sentimos sobre nós», desabafa.  

Brincadeira como prato principal

«Servir bem passa por atender a vários públicos, dos mais novos aos mais velhos, com qualidade e abrange tudo: oferta, atendimento e conforto. É nesse sentido que queremos que a restauração em Coimbra cresça», reforça Luís Moura, sócio-gerente do restaurante Dux –Vinhos e Petiscos, que há quatro anos reabriu umas portas ao lado, na Rua General Humberto Delgado, com uma sala destinada a crianças.

«Precisamos de mais sítios como este – até para tirar a pressão que sentimos sobre nós.»

Cristi Gerecke, dona do The Living Room

«A ideia nasceu do que se faz bem noutros lugares, como na América do Norte ou do Sul, onde é comum haver estes espaços; alguns quase que parecem infantários», compara. Mas a inspiração vem também da família: Luís é pai (o filho mais velho tem 14 anos; a mais nova, 7); conhece a «dificuldade de manter crianças entretidas num restaurante, sem recorrer ao telemóvel ou ao tablet», tal como a «necessidade de ter um espaço de onde se possa usufruir uma boa refeição sem aborrecimentos».

A sala é pequena, mas diferenciadora: está inserida no espaço para refeições, com paredes de vidro para ser visível a partir das mesas, e está pensada para agradar a várias idades. Há brinquedos didáticos, com cores, sons e desafios para as mãos mais pequeninas, o sempre popular quadro de giz, livros, cozinhas e casinhas, mas também jogos e uma consola. «Cumpre as expectativas: satisfaz os pais porque sabem que as crianças estão entretidas com segurança e as próprias crianças pedem para vir cá porque têm um espaço para brincar», avalia Luís.

«Ir com miúdos pequenos para um café não é agradável. Este é um sítio descontraído. Não há barulho. O tempo parece que faz uma pausa. E ela brinca»

Ana Cristina, cliente do The Living Room

Entre os objectivos estava também a vontade de mostrar que um restaurante que tem vinhos e petiscos como prato principal é um lugar capaz de acolher todas as idades. «A refeição é para ser partilhada em família. O nosso conceito sempre foi este. As crianças são precisas à mesa, mas os adultos também precisam de tempo para eles e aqui podem ter esse momento», sublinha. Para chegar aos garfos mais tradicionais dos ainda mais velhos, para quem «petisco não é refeição», foi o menu que abriu espaço a opções mais seguras na dieta portuguesa, como o bacalhau lascado ou o polvo à lagareiro, sem cortar na batata frita com maionese de alho e salsa ou no pica-pau de atum. O melhor de dois (ou mais) mundos é possível.

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