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Contem

Onde dançam

Relembrem

Roda o Centro

A Coimbra que (ainda) dança

Cada vez mais parecemos afogar-nos nas pressas de um quotidiano que corre, sem esperar. Uns passam os dias sentados, a trabalhar; outros passam-nos a correr, sem parar. No fim, muitos se esquecem de mexer o corpo, deixá-lo respirar e dançar. Mas haverá ainda, por Coimbra, quem o faça e se deixe levar? Fomos descobrir.

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Fotografia: Inês Braga, El Divino e arquivo pessoal.

Contem

Onde dançam

Relembrem

Roda o Centro

É quarta-feira e, se estivesse sol, ainda entraria pelas janelas do El Divino para iluminar a pista que se move ao som da banda chamada para tocar naquela tarde de chuva. Ali, entre as 15h e as 19h30, o tempo corre de outra maneira, toda matinée de quarta-feira. Na pista, cheia, dezenas de pares, em passo lento, corpos próximos e olhos fechados. Quando a música pausa para respirar, formam-se, em torno das mesas e do balcão, grupos ansiosos por conversar. «É aqui que os cotas vêm divertir-se, já viu?», atira um deles. De repente, a banda volta a atacar e, como que puxados por um impulso coletivo, todos regressam ao centro da sala, novamente para dançar. «Tal como os jovens, os mais velhos também precisam de descontrair», comenta Rui, um dos habituais da casa. Ali, a maioria tem mais de 60 anos, alguns passam dos 80, poucos têm abaixo dos 40. E todos se deslocaram, apesar da chuva, para socializar, aliviar a alma — e dançar.

Mas, então, quem são estas pessoas que não deixam o mundo correr sem antes lembrar de o parar, para oferecer o corpo à música e deixá-lo dançar?

Dançar para continuar a viver, mexer e conviver

De sorriso aberto, postura direita e passos seguros, é difícil não reparar em Isabel Dinis, que, naquela tarde, dança de tudo com quem a convida. «Sou viúva há 20 anos e há 20 anos que danço», confessa. «Para mim, é uma forma de terapia. Obriga-me a sair de casa e permite-me esvaziar a cabeça.» Afinal, diz: «Não tenho culpa de ter ficado cá, mas posso decidir se aproveito, ou não, o tempo que me resta.» Dança, então, todas as quartas-feiras no El Divino e todos os domingos no Broadway Coimbra. Dança para não se deixar perder. Para continuar a viver, mexer e conviver. E conta: «Nunca estou sozinha. Vou sempre com quatro ou cinco amigas. Sempre.»

Ao contrário da ideia de que a idade substitui a mobilidade, Isabel descreve uma geração que se mexe mais agora do que no passado. «Hoje, a minha faixa etária dança muito mais do que dantes», assegura. «Os jovens é que dançam menos — é um dançar diferente, de copo na mão. Mas nós dançamos que nos fartamos», prossegue, antes de concluir: «Com a dança, tudo se transforma — somos mais gentis, amáveis e educados. Por isso, se todos dançássemos, o mundo, todo ele, seria melhor.»

Dançar para sentir (e esquecer) a intensidade de ser estudante

À noite — e a poucos quilómetros dali — a Coimbra das matinées que dança ao fim da tarde dá lugar à Coimbra dos estudantes, que o fazem madrugada dentro. E Sofia Freitas, 21 anos, conhece bem a coreografia: «Passo muitas das minhas noites no bar da AAC», conta.

Para a estudante deslocada, dançar é um misto de viver a intensidade de ser estudante e de a esquecer por umas horas. «Em Coimbra, somos uma grande maioria de estudantes. E todos queremos aproveitar ao máximo estes — poucos — anos de juventude que temos com os nossos amigos.» Por isso, dança. Para se divertir com os amigos. Para libertar a cabeça do peso dos exames. Porque a faz sentir-se leve, por umas horas. Acima de tudo, dança porque lhe permite conviver — «e com todos, até desconhecidos, de uma forma que talvez não fosse possível noutro contexto».

Dançar para, simplesmente, pertencer e ser

Algures pelo mesmo mapa de bares estudantis, encontramos quem não só procura diversão, como também lugar de pertença e libertação. É o caso de João — 20 anos, estudante e membro da comunidade LGBT+. «Quando entrei na faculdade, já havia espaços LGBT+ friendly, mas era tudo muito underground», recorda. «Já se realizava a festa Fora do Armário, da Path Coimbra, mas não era muito aderida. Desde que abriu o Pharmácia Club, na Praça da República, conviver com a comunidade LGBT+ tornou-se muito mais comum e seguro», conta.

Entre o Bar AAC, o Rugby Bar, o Pharmácia e o 24, João Gonçalves dança. Dança para ser. Para pertencer. «Para mim, é uma forma de expressão. De liberdade. De transparecermos aos outros, lá fora, um pouco do que somos realmente cá dentro e com o nosso círculo mais íntimo de amizades.»
Mas não é só isso. Para João, dançar «é também deitar fora o estresse da semana e esquecer os problemas, por momentos, para nos lembrarmos um pouco mais de nós, sem eles».

Então, se hoje dança menos do que gostaria — «tento, pelo menos, uma a duas vezes por mês» —, é por falta de tempo, não de vontade. É, aliás, um padrão que vê, mais do que gostaria, multiplicar-se à volta dele. «Sinto que as pessoas se tornam tão sobrecarregadas com a vida profissional e pessoal, que se esquecem de a aproveitar um pouco mais», observa.

O que é certo é que, vindo de Lisboa, João nota o que Coimbra tem de diferente: «Aqui, não me preocupo se estou com um outfit mais feminino ou masculino, se vou ser assediado ou assaltado. Sinto-me mais seguro. Já cheguei até a ir a pé para casa sem medo.» Por isso, remata: «Estamos, sem dúvida, na melhor cidade portuguesa para sermos, sem medos, como somos. Então, dancemos, porque a vida é breve e é para ser vivida bem. Dancemos, porque amanhã podemos já nem estar aqui para o fazer.»

Dançar para cuidar e continuar a amar

Se, para uns, dançar é fuga e expressão, para Laura Braga e Carolina Pina é casa e ligação. «A primeira vez que dançámos juntas assinalou o dia em que percebemos que a nossa história não estava destinada a assentar apenas numa amizade», recordam.

Hoje, quatro anos depois, sair para dançar é quase um ritual de cuidado dentro da relação. «Temos ambas vidas muito agitadas, entre trabalho, estágios e faculdade, pelo que, por vezes, arranjar tempo para sair de casa e ser casal não é tarefa fácil. Mas, a partir do momento em que o fazemos e nos deixamos leva», contam, «parece que tudo o resto se descomplica.» Admitem que não são «as melhores dançarinas», mas não é disso que se trata. O que importa é o espaço que abrem uma para a outra quando o fazem.

Tal como João, o casal acredita que dançamos menos do que devíamos: «Vivemos num mundo onde a ânsia pelo sucesso e por um futuro promissor determina o nosso dia-a-dia. E, sim, tudo isso é importante, mas é também fundamental saber parar, colocar os planos de parte e viver o ‘agora’ de forma espontânea e libertadora.»

Se toda a gente dançasse mais e com quem quisesse? «A boa disposição seria o prato do dia e provavelmente viveríamos num mundo com menos ódio, julgamento e discriminação», respondem.
Por isso, o conselho que deixam é simples: «Dancem um pouco — bem ou mal — e verão o vosso quotidiano, talvez até a relação, ganhar outro tom, cor e ritmo.»

Dançar quando não dá para falar

Se Laura e Carolina dançam para se amar, Mir Khadka, 24 anos, fá-lo para se integrar e comunicar. Recém-chegado a Coimbra, do Nepal, Mir já dançou em pequenos cafés, pubs escondidos da Alta e bares conhecidos da Praça da República. Não fala português, pelo que foi a forma que encontrou para se integrar com esta que diz ser uma língua universal.

«As pessoas podem não falar ou entender muito bem as línguas umas das outras, mas toda a gente ouve música. E ficariam surpreendidos com a quantidade de pontos em comum que isso traz ao de cima», revela. «Desde que cheguei, em setembro, que a dança me ajudou a conhecer pessoas e a aprofundar amizades com os colegas do meu novo mestrado.» Além disso, explica: «Dançar permite-me conectar-me com as diferentes partes — físicas, mentais e emocionais — que me compõem, e expressá-las faz-me sentir mais leve — mais vivo.»

Por isso, conclui: «Acredito que a dança possa fazer o mesmo pelos outros. Então, dancem: se todos o fizéssemos — se todos sentíssemos as endorfinas e sensações do ‘deixar-se levar’ — o mundo seria, sem dúvida, um lugar muito melhor, com menos ódio, intolerância, misoginia e homofobia.»

E nós, Coimbra, vamos dançar?

Talvez devêssemos, como parecem crer muitos destes testemunhos, dançar mais. Talvez estejamos demasiado sentados, demasiado cansados, demasiado preocupados ou apressados. Mas, se olharmos com atenção, continua a existir por Coimbra quem se deixe levar — sem que o resto da cidade sequer note que, ali, naquele canto, se está a dançar.

A pergunta, agora, volta a recair sobre nós: do que estamos à espera para fazer o mesmo?
«Coimbra até pode ser antiga, mas ainda transborda de energia, por isso duvido que recusasse ir dar um passo de dança de vez em quando», resumia João.

E, porque acreditamos que a dança melhora o humor, a saúde mental e o simples prazer de viver, deixamos o convite: Contem-nos — também dançam? Onde e como? Queremos mapear os passos de quem em Coimbra não deixa de se mover — e, juntos, dançar esta cidade.

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