São muitos os símbolos que compõem a memória coletiva a respeito de um dos acontecimentos mais importantes da história recente de Portugal: a Revolução dos Cravos, que depôs o regime ditatorial do Estado Novo (1933-1974). Do cancioneiro de intervenção, com a Grândola Vila Morena de Zeca Afonso como símbolo máximo, à participação decisiva dos militares de esquerda, o 25 de Abril de 1974 está no imaginário como grande gesto de heroísmo do povo português de luta pela liberdade. É por isso que, ano após ano, o cravo na camisola e a canção de Zeca Afonso encontram, de lés à lés, uma comunidade ávida por retomar esses símbolos como modo de refutar figuras como a de António Oliveira Salazar e reforçar os sentidos da democracia.
Mas para pessoas como o activista Sumaila Jaló, levar o cravo na mão não basta. É preciso expandir os sentidos da Revolução e reconhecer que o 25 de Abril está intimamente ligado à África por via das lutas anticoloniais. José Luís Pires Laranjeiras, especialista em literaturas africanas, defende que o 25 de Abril de 1974 «é consequência direta não apenas das lutas estudantis ou do operariado de Portugal, mas sobretudo da guerra de libertação nacional nas três colónias, Guiné-Bissau, Moçambique e Angola», e o professor de História Contemporânea Julião Soares Sousa concorda, por isso tínhamos de vos contar sobre a Casa dos Estudantes do Império, que teve delegação em Coimbra.
Como explica Pires Laranjeiras, «Foram as guerras pela independência em África que acabaram por espoletar o 25 de abril de 1974» e, de acordo com o professor de Julião Sousa Soares, isso significa retomar um acontecimento que antecede três décadas o ano de 1974: a criação da Casa dos Estudantes do Império (CEI), em 1944, cujo objetivo era o de congregar os estudantes africanos das então colónias portuguesas sob o espírito colonial, mas que, na prática, foi o extremo oposto.

A Casa dos Estudantes do Império se configurou como a Casa dos Estudantes Contra o Império, motivo mais que suficiente para celebrar os 80 anos da sua criação. É do chão da CEI, com sede em Lisboa e delegação em Coimbra, que germina uma das sementes das lutas anticoloniais que, mais tarde, culminará na Revolução dos Cravos.
Casa dos Estudantes contra o Império
Um mês depois da abertura da sede, em dezembro de 1944, é criada em Coimbra a principal delegação da CEI fora da capital. O Porto só teria delegação em 1959. A iniciativa teve como objetivo principal agregar e dar subsídios aos estudantes vindos das então colónias africanas de domínio português, para que pudessem formar-se na metrópole e, ao regressarem, administrarem o império africano sob os moldes coloniais.
O tiro saiu pela culatra, como diz o dito popular, e a iniciativa que deveria servir aos propósitos do Estado Novo passou a fomentar o seu justo oposto.

«De certo modo, é possível pensar que a semente do 25 de Abril estava já a ser cultivada na Casa dos Estudantes do Império.»
Julião Soares Sousa, professor de História Contemporânea
Em Coimbra, a Casa dos Estudantes do Império estabeleceu relações diretas com a Associação Académica de Coimbra, o Orfeon Académico de Coimbra e, principalmente, o Ateneu, num amálgama entre actividades culturais e políticas numa crescente oposição salazarista. Pires Laranjeiras contou-nos que, embora com menor dimensão do que a sede em Lisboa, a delegação de Coimbra reuniu toda uma geração que, mais tarde, seria decisiva em seus territórios de origem.
Agostinho Neto foi secretário da Direção da Delegação da CEI de Coimbra, em 1949, e tornou-se o primeiro presidente de Angola (1975-1979). Marcelino dos Santos um dos membros fundadores da Frente de Libertação de Moçambique e Lúcio Lara comandante das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA).

Em 1957, o Estado Novo dá os primeiros sinais de desconfiança e extingue a 1ª Comissão Administrativa, nomeada em 1952. Em 1961, a Delegação da CEI no Porto é encerrada pela PIDE. Em 1962, um ato de busca e apreensão de panfletos políticos é realizado e, no ano seguinte, o Estado Novo corta todos os subsídios destinados aos estudantes ultramarinos. A PIDE encerra definitivamente a CEI em Coimbra e em Lisboa em 1964.
Segundo Julião Sousa Soares, as causas da subversão de propósitos são variadas. Por um lado, a própria rigidez do regime é um factor relevante. Por outro, as mudanças históricas após a Segunda Guerra Mundial, a pressão internacional cada vez maior em relação às potências colonizadoras e a convivência entre os estudantes africanos e indianos geraria uma espécie de «espírito gregário» considerado por Mário Pinto de Andrade, nacionalista angolano citado por Julião Sousa Soares, como um autêntico espaço de «reafricanização dos espíritos e de intensos debates antifascistas e anticoloniais».
«A Casa dos Estudantes do Império foi, sem sombra de dúvida, uma autêntica escola de consciencialização e de formação ideológica desses jovens provenientes das colónias. Em todo o caso, não há a menor dúvida de que esta colaboração orgânica com os organismos de esquerda na luta antifascista seria importante no quadro do antifascismo, mas também marcaria de facto o embrião da luta anticolonialista.»
Julião Soares Sousa, professor de História Contemporânea
História e memória: um campo de batalha
A história da CEI faz parte não só das memórias individuais de seus membros, mas também da memória coletiva das lutas pela libertação. Terá contribuído, sobretudo, para a formação de uma identidade cultural e política entre jovens gerações de estudantes africanos.

Nestes 50 anos da Revolução dos Cravos e 60 anos da extinção da CEI, é indispensável «reafricanizar» e descentralizar essa memória que, para Yussef, guineense residente em Portugal e activista pela nova lei de nacionalidade, pode funcionar como uma forma de «mundificar a sociedade portuguesa». Conversámos com o pan-africanista e militante do Movimento Africano de Trabalhadores e Estudantes – RGB no Ateneu de Coimbra, no fim da sessão «CEI da Resistência: 80» promovida pela Secção de Escrita e Leitura (SESLA), em Março. O encontro foi motivado pela escuta de poemas daqueles que viveram ou passaram pela Casa dos Estudantes do Império e a forma como continuam a impactar a actualidade, buscando uma relação com a escrita e voz de escritores mais jovens que hoje tentam, tal como no passado, tornar a Liberdade a personagem principal da sociedade.

Na perspetiva de Sumaila Jaló, também activista, o caminho mais à esquerda passa pela reavaliação do imaginário hegemónico construído em torno do 25 de Abril no sentido de refutar uma «abordagem paternalista» e reconhecer a história e a memória como um campo de batalha que, cotidianamente, precisa ser regado com os ideais da liberdade. Yussef é peremtório: «Para muitos de nós a relação direta entre a luta anti-colonial e o 25 de Abril é uma verdade, é um fato histórico. Não é memória: é história. Mas para a sociedade portuguesa, ainda hoje, existe esse desconhecimento».
