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Estados Unidos de Coimbra | Torres do Mondego

Falar de Coimbra é mais do que falar do centro urbano. E é com uma particular urgência que inauguramos a série “Estados Unidos de Coimbra” com uma entrevista sobre Torres do Mondego.

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Fotografia: Mário Canelas

Foi há menos de dois meses que Paulo Cardoso, Presidente da Junta de Freguesia de Torres do Mondego (Presidente da Junta), numa reunião da Câmara Municipal de Coimbra, alertou para a “mancha florestal contínua de eucalipto e acácia, que envolve toda a freguesia” e relembrou que “o grande vetor de entrada de fogos na cidade de Coimbra é pela freguesia [de Torres do Mondego] e pela freguesia de Ceira”.

Mais do que nomear o problema, Paulo Cardoso apontou propostas concretas de actuação para aumentar a capacidade de intervenção municipal: “desde a reposição da maior parte dos caminhos florestais, que se encontram em enorme estado de degradação e que impedem o combate eficaz por parte dos bombeiros, até à fiscalização do acesso do acesso e utilização da floresta pelos madeireiros, tendo esta freguesia sido a única a solicitar, em 2021, a implementação de um regulamento para o efeito, à semelhança do que existe noutros concelhos.”

Falar de Coimbra é mais do que falar do centro urbano, e falar dos desafios de Coimbra é (muito) mais do que falar das obras do Metrobus, de ciclovias, do estacionamento selvagem ou do custo da habitação. Nesta semana, falar de Coimbra significa falar de Torres do Mondego.

É neste contexto, e com uma particular urgência, que inauguramos a série “Estados Unidos de Coimbra”, uma viagem que nos propomos fazer através de entrevistas aos presidentes das juntas de freguesia, que servem de ponto de partida para uma radiografia viva de todo o concelho de Coimbra.

Esta conversa com Paulo Cardoso teve lugar no dia 26 de Agosto, e abrangeu temas tão diferentes como o envelhecimento da população, mobilidade e acessibilidade, o financiamento das freguesias, delegação de competências, limpeza urbana e turismo. 

Noutra entrevista realizada, ficámos a saber mais sobre o impacto do incêndio que deflagrou no dia 16 de setembro e sobre as soluções necessárias para que esta situação não se repita.

Quais os principais desafios da freguesia relativos à mobilidade?

Não temos problemas de trânsito, estamos a cinco minutos de aceder à saúde, à cultura, ao que quer que seja, e estamos aqui num sossego. A orografia faz com que os idosos não se desloquem muito, estão mais remetidos à sua casa, ao seu quintal. 
Nas Carvalhosas, houve uma derrocada a seguir à escola, e estamos há cinco anos à espera que a Câmara faça um projecto com a estrada. Agora vão lá começar as obras de saneamento, vai ser outro martírio. Continuo também a pedir que asfaltem um estradão que liga uma parte das Carvalhosas à estrada das Lagoas, são 800 metros para asfaltar, e a Câmara também não há meio de resolver isso. No caso de acontecer algum acidente grave ou alguma derrocada ainda maior do que aquela, na estrada principal, não há fuga para as pessoas das Carvalhosas.
Notamos também que, para conseguir atrair mais pessoas, temos problemas com estacionamento. Estes aglomerados antigos não tinham capacidade para terem garagens ou espaços mais alargados de estacionamento. Andamos com uma verba no nosso orçamento para a compra de terrenos para [este fim], mas não temos conseguido, tivemos algumas dificuldades com as entidades estatais. 

Qual a situação dos transportes públicos na freguesia? 

[Em tempos, houve] uma perspectiva de fazer um anel para a cidade, os autocarros paravam nas periferias e depois havia circulação no centro. Só que, na altura, o único autocarro onde isso aconteceu foi este, das Torres; a nossa carreira, a 9, ficava em São José, e todas as outras continuavam para a Baixa. Isso trazia problemas para quem ia trabalhar para a zona da Baixa, tinha que apanhar sempre dois autocarros. Conseguimos alterar um bocadinho o modo como os autocarros estão a ser geridos e os horários mas, mesmo assim, no ano passado, tivemos queixas de alguns pais porque se o autocarro se atrasa, as crianças já chegam atrasadas à escola. 

E há previsão que esse horário venha a ser ajustado já para este ano letivo?

Não recebi ainda resposta. É daquelas coisas de pescadinha da rabo na boca: aqui nas Torres sempre tivemos essa noção, de que os horários dos autocarros não eram os mais adequados para quem tem que trabalhar naquelas horas mais complicadas e, como os horários não eram suficientes, as pessoas continuaram [a utilizar o] carro e temos os autocarros quase vazios.

Acha que o Metrobus pode vir a alterar os hábitos das pessoas?

Há vários modelos de cidades, de organização das cidades. Aqui em Coimbra, só conseguiremos fazer com que os transportes públicos tenham muita adesão se impedirmos que os carros cheguem à zona da Baixa e ao centro da cidade. Se os carros não forem lá, os transportes públicos serão a resposta. Se as pessoas se habituarem a isto, se calhar já não precisam tanto do carro e começamos a diminuir um bocadinho a pressão de carros a entrar dentro da cidade. Temos que criar primeiro o hábito das pessoas. E se as pessoas tiverem transportes de qualidade e horários condizentes, acho que podemos começar a gerir a cidade de outra maneira, a ter uma cidade mais amigável.

Como é a mobilidade dos peões na freguesia?

Tenho uma luta grande com os técnicos camarários porque entendem que, nas aldeias, se devem fazer valetas espraiadas e não passeios. “Ah, é porque vocês, nas aldeias, não têm largura suficiente para fazer um passeio, para passar uma cadeira de rodas.” Pois não temos, é a realidade com que temos que lidar, mas os passeios protegem as pessoas, nem que fossem mais estreitos porque, com a elevação, os carros não atropelam tão facilmente uma pessoa. Já houve vários atropelamentos, os carros passam a grande velocidade na estrada. E as valetas são para a água. Então, de inverno, as pessoas vão andar com os pés na água, nas valetas?
Eu já pedi várias vezes também à Câmara para meter passadeiras. E depois há estas incongruências: “ah, não podemos fazer passadeiras porque as passadeiras implicam que tem que haver passeios dos dois lados.” Então, mas vocês não me deixam construir passeios! 

A Junta de Freguesia investe no turismo? 

Quando chegámos, em 2013, tentámos perceber como é que poderíamos desenvolver o espaço e a única coisa que temos aqui para dar e vender é a natureza.
Na altura, aconteciam aqui duas provas que eram marcantes. Uma ainda se mantém, que é o Mondego SkyRace Ultra Trail, uma prova que está no campeonato de skyrunning nacional e tem uma certificação internacional do percurso. E tínhamos cá uma prova tipo tropa, por equipas, com muitos atletas, que era o Wild Challenge. Acontecia na Mata de Vale de Canas e no rio, era espectacular, as pessoas adoravam. Havia a prova de rastejar no chão, e [os atletas] vinham todos sujos e as senhoras lavavam-nos com mangueiras. Havia um espírito de convívio muito giro porque a prova passava por dentro das populações. A Roda Dianteira, no Dianteiro, está a fazer os Trilhos das Azenhas, e também ajudamos. Esta é uma prova já repartida com a Junta de Freguesia de Eiras e São Paulo de Frades, apoiada por ambas as Juntas.

Com o desporto na natureza [queríamos] trazer mais gente. Se conseguíssemos ter aqui alojamento, se calhar já podíamos oferecer um pacote turístico interessante: temos as descidas de canoa de Penacova, a Mata de Vale de Canas com trilhos pedonais já certificados, temos trilhos de BTT.  Não desmerecendo as outras freguesias, que todas têm os seus encantos, nenhuma tem esta paisagem, este dramatismo destes vales encaixados.

E conta com verbas da taxa turística?

Não. Uma coisa que eu achei curiosa foi serem dadas verbas só a quatro freguesias, quando, aqui, tenho a Praia Fluvial, tenho a Mata de Vale de Canas, e não vejo taxa turística.

A Junta promove formatos de participação pública? Existe um orçamento participativo na freguesia? 

Temos alguma dificuldade em fazer divulgação das coisas. Temos vitrines espalhadas, vamos lá afixar cartazes, temos o nosso site e as redes sociais, mas as pessoas não aderem. Como a resposta a outros eventos públicos não tem sido muito significativa, decidimos que não avançávamos [com um orçamento participativo]. O que temos vindo a fazer é pensar o projeto [de requalificação do largo da Junta], pô-lo à discussão pública e ver também daí qual é o resultado, e se daí podemos aferir que, se calhar, é interessante se passamos mais coisas à discussão pública.

O programa eleitoral do actual executivo prometia a triplicação do orçamento global das freguesias, de forma a que este atinja 10% do orçamento da Câmara. Está a acontecer?

Não. Eu também trabalho na Câmara e consigo ver os dois lados. Entendo que esse objetivo seria muito interessante para nós, Juntas [de Freguesia], mas era preciso que a nível político e de mentalidades, as pessoas não se centrassem só na cidade. Fazer infraestruturas para mais longe, levar eletricidade, levar água, custa caro. Mas em zonas onde até já há infraestruturas, ou que as infraestruturas estão perto, fazer um prolongamento dessas infraestruturas não é assim tão caro e, se calhar, conseguimos trazer mais gente para as aldeias. Uma cidade, se tiver as aldeias em condições, se tiver um bom balanceamento de transportes, tem maior qualidade do que se estiver tudo concentrado na cidade.

Mas entende que este objectivo é irrealista?

É irrealista se não se mudarem mentalidades. A capilaridade do nosso sistema administrativo faz com que quem está mais próximo gira melhor os dinheiros. Portanto, consegue executar melhor, com menos dinheiro, e consegue fazer mais e melhor com menos dinheiro. Para mim, é um erro enorme as Câmaras não se servirem do seu braço armado, e o alavancarem com mais verbas.

Como correu o processo de delegação de competências? 

Eu faço parte dos órgãos da ANAFRE distrital, temos lutado muito por esta descentralização de competências. Costumo dizer que as Câmaras estão a repetir o erro que se fez neste país, da macrocefalia de Lisboa, porque continuam a pensar só na cidade e na Câmara. Aqui, [em Torres do Mondego], aquilo que está na lei está a ser transferido. O processo foi transformar os acordos de execução (para a limpeza das vias, espaços verdes, etc.) num auto de transferências e conseguimos negociar um valor muito interessante. Outro benefício da descentralização é que, com o auto de transferências, o dinheiro vem diretamente da DGAL [Direção-Geral das Autarquias Locais], e conseguimos gerir agora muito melhor, com o dinheiro a vir mensalmente. Antes, só recebíamos de 3 em 3 meses, andávamos com o dinheiro adiantado para executar os trabalhos. 
Acho que a limpeza urbana e de contratação da recolha do lixo poderiam ser coisas que também podiam ser transferidas. Quem está mais próximo consegue gerir e fazer melhor com menos dinheiro. 

Há queixas em relação à limpeza urbana?

O Casal da Misarela ou Vale de Canas são zonas extensas, e as pessoas que estão no cimo não vêm cá abaixo fazer reciclagem. Temos debatido muito com a Câmara para se reverem os rácios de colocação de ecopontos porque, nestas populações envelhecidas e com dificuldades de mobilidade, temos que aproximar os ecopontos das pessoas.
A limpeza vai sendo um tema, principalmente na Praia Fluvial e na Mata de Vale de Canas, que são os sítios onde há mais concentração de pessoas. Esta não é a nossa competência, mas já reportámos. Se fôssemos nós, se calhar faríamos logo isto de outra maneira. A ERSUC tem andado a distribuir ecopontos na zona norte e zona urbana de Coimbra, e aqui quase ainda não temos ecopontos individuais. Acho estranho que uns estejam a ser contemplados e os outros não.

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