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Abrimos a porta da loja Troika, na Rua do Brasil, e Marina Kolesnichenko levanta-se das escadas onde tem o telemóvel permanentemente ligado à corrente e à família e amigos na Ucrânia.

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Fotografia: Filipa Queiroz, Câmara Municipal de Coimbra

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No momento em que escrevemos este artigo, Sergii Nykyforov, porta-voz do presidente ucraniano Volodimir Zelenskii, garante que a Rússia e a Ucrânia estão e discutir o dia e o local para um encontro. Era a esperança de Marina Kolesnichenko quando conversámos ao balcão do Troika, um mini-mercado de produtos originários de países como a Rússia, Polónia, Ucrânia e Roménia, na Rua do Brasil. A jovem ucraniana de 34 anos, a viver há 8 meses em Coimbra, conta-nos com um sorriso sincero mas tenso que há «uma comunidade russa, ucraniana e bielorrussa na cidade» unida pela língua russa e agora também pela angústia.

Independente desde a dissolução da União Soviética, em 1991, a Ucrânia é o lar de 42 milhões de pessoas, quase 80% ucranianos étnicos, com minorias de russos, bielorrussos e romenos. Depois de meses de tensões crescentes e tropas em massa nas fronteiras, o país foi invadido pela Rússia e a Europa treme perante possíveis repercussões desta guerra que pode moldar o nosso futuro. Há quem veja uma mera luta geopolítica, há quem não se consiga alhear à ameaça de um desastre humano maciço, com milhões de refugiados no pior cenário. Alguns ucranianos já estão em fuga, para o estrangeiro ou para o oeste do país, embora outros se comprometam a lutar.


«Eu sou de Odessa mas os meus pais vivem perto de Kiev. Acho que tendo chegado a Kiev, o exército russo vai parar. Acho que Putin quer Kiev, quer o nosso Governo, mas eles vão conversar e nós vamos continuar a ser independentes, a ter o nosso povo, que é um povo amistoso; vamos manter a nossa nacionalidade», diz Marina Kolesnichenko. Entre comidas, bebidas, matrioskas e mesmo bandeiras nacionais e outros objectos para venda, a lojista explica que seguiu o marido até Coimbra apenas pela experiência de viver algum tempo num país diferente e «longe de imaginar que uma coisa destas podia acontecer». «Estamos todos muito surpreendidos», confessa.

O reconhecimento por Vladimir Putin de Donetsk e Luhansk na Ucrânia oriental como Estados independentes, e a ordem de enviar «forças de manutenção da paz», foi o culminar de acontecimentos que começaram em 2014, quando a Rússia fomentou a insurreição separatista que criou as duas autoproclamadas repúblicas e anexou a Crimeia através de um referendo, cuja votação não foi monitorizada por terceiros e cujos resultados são contestados por vários países. Nessa altura, foi assinado o Protocolo de Minsk, um acordo assinado por representantes da Ucrânia, da Rússia, da República Popular de Donetsk e da República Popular de Lugansk para pôr fim à guerra no leste da Ucrânia, sob os auspícios da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). O acordo implementou um cessar-fogo imediato, mas fracassou.


Putin acusa a Ucrânia de «genocídio» e retrata o país como uma invenção russa sem direito histórico de existir. Adverte que se Kiev não puser fim à violência de que Moscovo o acusa, «a responsabilidade pela possível continuação do derramamento de sangue ficará inteiramente na consciência do regime que governa o território da Ucrânia». «Um grande problema na Rússia é a desinformação», atira Marina Kolesnichenko. «Muitas notícias não são verdadeiras. Aqui eu ouço as duas e é terrível. Só confio nas notícias ucranianas porque a minha família confirma que é verdade e as russas não.» Segundo Putin, a melhor forma de resolver a actual crise é Kiev abandonar objectivo de se juntar à NATO, a aliança de países da Europa e da América do Norte, e declarar a sua neutralidade. O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Dmytro Kuleba, fala em manter a porta aberta para a diplomacia, apesar de tudo.

A 4 mil km de casa, Marina Kolesnichenko afirma que apesar de não perceber a língua sente o apoio e solidariedade do povo português através da comunicação social. «É uma situação terrível. O Governo russo não está a ser bom. Há muita gente que entra aqui na loja a chorar. Estamos muito aflitos. Passo o dia a ver as notícias porque quero saber o que se passa, tenho lá a minha família, os meus amigos. Antes de si, entrou aqui uma rapariga russa que me perguntou de onde é que eu era e disse que nos devíamos reunir aqui em Coimbra, como em Lisboa e no Porto», conta. A ideia estará, por agora, ainda no ar, mas a jovem mostra-nos que há uma página da comunidade bastante activa no Facebook. «Tem muitas pessoas russas e ucranianas e pensam como eu», comenta Marina, que acredita que «a guerra vai acabar rapidamente, é uma questão de tempo.les vão parar e tentar falar uns com os outros».


A Câmara Municipal de Coimbra declarou publicamente que «está a acompanhar com grande preocupação os acontecimentos na Ucrânia, na sequência do ataque militar levado a cabo pela Rússia, numa clara violação dos princípios que regulam a coexistência pacífica entre as nações». Para manifestar solidariedade com a população ucraniana, hasteou a bandeira do país nos Paços do Concelho, na Praça 8 de Maio.

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