Estamos a meio da tarde, ainda em tempo de férias, de costas para antiga fábrica de cerâmica Lufapo e de olhos na linha ferroviária do Norte, os grandes símbolos da história do Loreto, o mais antigo bairro económico de Coimbra. A cancela está aberta, não há sons de comboios, nem de trabalhadores; apenas duas grandes amigas que caminham pelos carris, distraídas da possibilidade de atropelamento. Chamam-se Rita e Luana, estão a chegar a pé da Praça da República, vivem no Centro de Acolhimento do Loreto, que recebe crianças e jovens em perigo, e este é um dos vários desvios que fazem para se aproximarem do centro da cidade.
«É seguro? Não. Mas se não fosse assim tínhamos de dar uma grande volta, subir o Lidl todo; nunca mais [chegaríamos a casa]. Assim, daqui a cinco, dez minutos, estamos lá», explica-nos Luana, convencida de que, quando o metrobus chegar, «vai ser incrível». A linha do Sistema de Mobilidade do Mondego (SSM) não vai, no entanto, entrar pelo bairro – fica à porta da chamada zona norte, por Coimbra B, já em obras para receber a futura estrutura de interface de apoio aos passageiros da CP e da Metro Mondego, que antecipa a grande transformação que está a ser pensada para Estação Velha.

O projeto, desenhado pelo arquitecto Joan Busquets, prevê a construção de uma estação intermodal (com táxis, bicicletas, autocarros, automóveis e metrobus), três edifícios, entre 50 a 60 metros de altura e capacidade ara funcionarem como hotéis, duas novas pontes com potencial impacto na Mata Nacional do Choupal, uma nova solução para o IC2 e a integração com a Linha de Alta Velocidade, que vai ligar o Porto a Lisboa em pouco mais de uma hora.
Rita virava «as pessoas para os espaços que habitam»
De todas as ideias e planos, Rita destaca o objectivo imediato: «As pessoas precisam de um meio rápido para se deslocaram. A construção é boa». Mas quando lhe dizemos que o projecto está em discussão pública e é já neste sábado que levamos as ideias da comunidade para a sessão onde se vai co-desenhar um plano de renovação para a zona, através de uma nova ferramenta de design participativo, começa a preencher os espaços em branco com outro desenho. «Já que estão a construir, deviam aproveitar para fazer passeios seguros [ao longo da linha ferroviária até à Estação Nova, na Portagem]. Com o trânsito e os atrasos dos autocarros, as pessoas acabam por andar muito a pé», sugere.
Num «bairro sossegado e de gente boa», acrescenta Luana, o que faz mais falta «é um parque, com mesas e baloiços». O Choupal, aqui ao lado, não é opção: «está muito gasto» e «precisa de ser reformulado». «Bom era ter um parque que fosse tanto para crianças como para adultos; desse para brincar, fazer exercícios, piqueniques. Um sítio para apreciar os comboios também era fixe. Gosto. Lembra-me tempos antigos», contrapõe Rita. Aos 15 anos, a estudante procura áreas públicas que devolvam «a atenção das pessoas para os espaços que habitam».
«Os meus netos, coitaditos, onde vou com eles?»
A tarde avança para o final de mais um dia de trabalho, com muita chuva, ventos fortes, ruas vazias e janelas corridas, na imagem pode ilustrar as descrições mais comuns da zona norte: um dormitório, a um quilómetro da Baixa. Caminhamos em direcção ao Bairro da Relvinha, de café em café. Como na canção de Jorge Palma, à volta das mesas, a vida parece correr sempre igual, descontrai-se um pouco e o «epá» continua a dar estilo a desabafos partilhados entre vizinhos, que assim alimentam boas relações e contrariam a ideia de marginalidade associada também à zona norte. «Há este convívio porque ainda existem estas pessoas. Quando morrerem, acaba-se tudo», antecipa Helena Godinho. Reformada, mudou-se há coisa de cincos anos de São Martinho do Bispo para Eiras «pela opção de um quarto, com casa de banho e acesso a cozinha por 255€», mas conhece a Relvinha ao ponto de ter «saudades» dos «bailaricos a seguir ao 25 de Abril», organizados por Jorge Vilas. «Era pobre, mas havia alegria», compara.

«A qualidade de vida está cada vez pior. É trânsito para todo o lado. Uma pessoa não chega a horas a lado nenhum. Os autocarros, não é segredo, estão a cair aos bocados e avariam. Não chegava isso que ainda vieram as obras», lamenta, sem dar grande margem a mais perguntas sobre o projecto para Coimbra B. «A gente não sabe como aquilo vai ficar para poder dizer se vai ficar melhor ou pior», descarta. O que Helena sabe é que «faz falta um espaço para convívio», ainda que, como lembra José Cunha, estejam «a fazer alguma coisa para renovar» o Centro Social e Cultural do Bairro.
«Os meus netos, coitaditos, quando cá vêm, onde vou com eles? Ao parque [da junta de freguesia] de Eiras? Não consigo. Ficamos em casa ou trago-os para o café», retoma Helena, ao insistir na necessidade de um «espaço para crianças mais decente, onde os velhinhos possam também ter alguma actividade, para que «não acabem os afectos entre as pessoas».
Francisco «gostava de ver união»; Paulo, um passe dos SMUTC
O Choupal, lá em baixo, não é opção. «Como é que vamos agora para lá? Pela Adémia ou vamos à cidade e cortamos pelo McDonalds?», lança, num exemplo prático do impacto das obras do SSM no acesso à principal mancha verde de Coimbra.
Francisco José, 64 anos, regressa aos anos da «camaradagem impecável» do «que ainda hoje dizem que é o bairro da lata» para lembrar «a malta» que há soluções: «Gostava de ver união entre todos para ver se esta zona melhorava». Francisco «gostava de ver isto bem, com mais convívio e segurança à noite». «Podíamos ter um parquezinho de merendas», reforça Helena. «Há um», corrige José. «Está ao abandono», lembra Francisco.
Paulo Lopes, o mais jovem a juntar-se à mesa, quer participar da conversa. «Passo os dias em casa. Tenho autismo», começa por dizer. Para animar a rotina, vem ter ao café ou vai até ao Pingo Doce; sempre que pode, embarca num autocarro. «Vou tirar o passe a ver se dou mais uns passeios. É o que gosto mais. No outro dia, fui dar uma volta no 50T, fui até Vilela, com um amigo», conta. «Eu sei isto não dá. Mas gostava mesmo que houvesse mais autocarros dos SMTUC ao fim-de-semana. As pessoas que moram na Pedrulha também não têm muitos», aponta. «Aqui, à semana, temos autocarros a cada 15 minutos. O que há aqui a mais, há lá a menos», observa Helena. Vamos acompanha-la até ao Bairro do Brinca, numa conversa que passa também a vista pela requalificação da Estrada de Eiras. «Aquilo sim, está a ficar uma rua bonita, com passeios, flores, tudo arranjadinho», compara.
Zezinho colocava balancés no Bairro do Brinca
A vida no Bairro do Brinca, apresenta-nos Zezinho, é feita «de pessoas simples» e «das situações comuns do dia-a-dia», passado também em cafés, à falta de outros espaços de convívio depois do trabalho. O projecto para a Estação de Coimbra-B não faz parte das conversas: «Não acho piada aquilo. Coimbra demorou muito a avançar com este tipo de obras, já depois do Porto. Só vejo pessoas à espera dos autocarros, tudo a chegar atrasado, discussões com os patrões, muita confusão».

Zezinho raramente sai do bairro para ir «lá a baixo», tem dois filhos e uma enorme vontade de ver nascer «um espaço ao ar livre para as pessoas estarem com a família». «Uns balancés, um churrasco, um passatempo. São coisas que não fazem. O fazem são lotes que são só para aquelas pessoas», sublinha. O Choupal não é opção: «É um sítio muito bonito. Traz muita paz. Gosto de passear ali sem destino. Mas está mal aproveitado». A alternativa são «as piscinas da Pedrulha», mas o parque «não tem os balancés que os miúdos gostam». «A minha Índia tem 10; o meu Zezinho, 6. Gosto de pegar neles e sair de casa. Precisam de espaço para estar à vontade. Um pai gosta de ver os filhos correr; não os quer calar com o telemóvel», partilha.
«Eu também gosto que as crianças se divirtam e em condições. Mas as condições estão muito caras e o prioritário é dar conforto primeiro», atira Paulo Santos, de outra mesa do café, mas atento à conversa e ao mercado imobiliário. «[O projecto para Coimbra B] não vai ajudar. As rendas já estão exorbitantes e são precisamente os transportes que valorizam as zonas. Há T0 a 700 euros. Aí é que se deviam focar», defende. «Coimbra há muitos anos que não é nem industrial, nem comercial. Vive das universidades. Isto é um dormitório. Temos supermercados, farmácias, bombas de gasolina, mas faltam grandes coisas – falta um aconchegar», desenvolve um outro vizinho, que se aproximou do gravador, mas saiu da mesa antes de lhe conseguirmos perguntar pelo nome e dizer que somos da Coimbra Coolectiva.

«Estão a fazer isto para arranjar uma solução?», devolve-nos Paulo Santos, já com a resposta pronta: «Não vão conseguir». «É bom ouvir. É bom ouvir», remata Zezinho.








