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Plano da câmara para os SMUTC

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Tomás fez uma nova rede para os SMTUC e cortou um terço das linhas

Filho de motorista, Tomás Batista sabe navegar pelas carreiras do serviço público de autocarros, desenhou um sistema mais eficiente, deu-lhe nova imagem e até outro nome: TUC – Transportes Urbanos de Coimbra. Em Lisboa, já fez a diferença – por cá, falta apresentar o projecto.

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Fotografia: Mário Canelas, Tomás Baptista

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Uma das muitas maneiras de fazer história pode ser escrita assim: na madrugada de 1 de Dezembro, saiu do Restelo o autocarro 203 com destino a Xabregas. «Um ponto de viragem na mobilidade nocturna de Lisboa», que teve o empurrão de Tomás Batista, o estudante natural da Lousã que, há um ano, fez a proposta à Carris e hoje tem colegas a agradecer-lhe por poderem ficar pelo Pólo Universitário da Ajuda até altas horas da noite porque têm transporte público até casa. «Estas coisas deixam-me mesmo feliz: saber que há uma mudança na vida das pessoas e que trabalhei por isso. Sei que era já uma luta antiga, mas contribui. As mudanças nascem da vontade dos cidadãos e, enquanto cidadão, acho que estive à altura», reage. Coimbra é a próxima paragem: tem um projecto para reformar os SMTUC (Serviços Municipalizados dos Transportes Urbanos).

A rede alternativa para os autocarros públicos da cidade já está desenhada e vertida para um mapa interactivo, com mais de duas mil paragens, colocadas «uma a uma». Sem formação em sistemas de transportes, mas grande adepto do serviço público, entre o curso de Relações Internacionais e o associativismo académico em Lisboa, Tomás está a trabalhar na apresentação que quer fazer à Câmara Municipal de Coimbra e aos SMTUC — mas o que tem pronto já chamou a atenção de um responsável da empresa.  ­­

Além de rever as carreiras, fez um novo logótipo, criou um código de cores para diferentes zonas da cidade, desenhou novas placas para indicação das linhas nas paragens e pensou também num novo nome para os SMTUC. «Deixo cair os Serviços Municipalizados porque o foco deve estar em Transportes Urbanos. TUC. É até mais fácil de dizer», atira. Outra sugestão: todas as carreiras são identificadas apenas por números, sem letras.

«O que sinto é que há um falhanço desde a coisa mais básica – dizer que linha pára ali e com que frequência – até à mais complexa, como a extensão da rede», resume. A ideia de Tomás é «criar uma ideia de renovação, esperança e modernidade», depois de ter sinalizado vários problemas.

De 100 para 70 linhas

O projecto aproxima-se do quem tem vindo a ser defendido pelos motoristas: diminuir a oferta. «Existem mais de 100 linhas, o que é ridículo numa cidade como Coimbra. Os recursos estão muito dispersos e não há reforço onde faz falta», diz. Tomás corta a rede para 70 carreiras diurnas, em que quatro são criadas já num cenário de expansão para as freguesias de São João do Campo, São Silvestre e da Lamarosa, actualmente sem cobertura. Para o serviço nocturno, estabelece três carreiras.

Em síntese: a restruturação aumenta o serviço nos pólos de maior procura (Coimbra B, Fórum, Hospitais e Solum); suprime e funde linhas para poupar recursos, mantendo o serviço às populações; facilita o transbordo; quem anda de um lado ao outro da cidade deixa de ser obrigado a ir à Baixa ou à Beira-Rio para trocar de linha; e evita longas esperas. «O meu objectivo é não haver nenhuma linha com mais de uma hora de espera. Nos sítios mais remotos da cidade, há um autocarro que passa quatro ou cinco vezes ao dia. De que serve? Ninguém vai deixar de usar o carro por isso».

Tomás defende também que «mais vale reduzir a oferta do que ter horários que não são cumpridos» por falta de recursos. A expansão da rede dos SMUTC, avalia, «foi feita em alicerces de areia, sem meios materiais, nem humanos para concretizar essa oferta».

A greve convocada em Dezembro pelos motoristas voltou a chamar a atenção para a falta de pessoal e o desgaste da frota.

Mudanças com metrobus e sem Estação Nova

Em 2024, a CMC pretende lançar um concurso público para rever as linhas dos SMTUC tendo em conta a entrada em funcionamento do Sistema de Mobilidade do Mondego (SSM), prevista para 2025. «É uma boa notícia», mas, contrapõe Tomás, «já se vai com um atraso».

A autarquia, defende, já devia estar a par do plano em detalhe da Metro Mondego (localização exacta das paragens, por exemplo) e a fazer ajustes. Mais: há também alterações por fazer «numa óptica de melhorar a distribuição de recursos» e acompanhar as mudanças na vida urbana. A proposta de Tomás procura responder a estes três factores.

O projecto parte de um cenário em que o metrobus já está em funcionamento e foi pensado numa «lógica metropolitana». A muito procurada carreira 29, que faz a ligação entre a Estação Nova e os Hospitais, é das que cai por «deixar de fazer sentido»: o SMM faz o mesmo percurso.

A proposta estabelece também um «corredor de alta frequência» entre os Hospitais e Coimbra B, com autocarros a passarem a cada cinco minutos, já que o metrobus não faz uma ligação directa entre os dois pontos: implica sempre a passagem pela baixa. É ainda criada uma linha a vir da zona de Arzila para a cidade, já a antecipar o fim da ligação por comboio, com o fecho da Estação Nova, previsto para 2024. Para estes eixos, alterou também as paragens na via rápida porque «as actuais não cumprem o mínimo de segurança».

«As mudanças nascem da vontade dos cidadãos e, enquanto cidadão, acho que estive à altura»

Tomás Batista, estudante de Relações Internacionais

Para desenhar a rede, Tomás deu uso à experiência, à observação e aos relatos do pai, motorista dos SMUTC – foi com ele que andou, por exemplo, pela linha 16, que vai da Manutenção, no centro da cidade, até Carapinheira da Serra, passando pelo Tovim. A frequência actual é de 30 minutos, com «autocarros constantemente atrasados», a fazer um «trajecto muito perigoso», «alguns com mais de 30 anos».

Na proposta, Tomás aumenta também a frequência das linhas 14 e 14T (Portagem-São Martinho) que «andam sobrelotadas», quando ao lado sai a 13P (Beira-Rio/Piscinas de São Martinho), «pouco usada». Solução? «Meti a 13P a passar por uma zona mais densa: vai por aquele vale da Zona da Escola Agrária até aos Covões, passa por São Martinho do Bispo, segue para a cidade e volta. É uma linha circular, com um autocarro mais pequeno e uma frequência menor, mas que já faz sentido existir porque passa a servir um corredor que actualmente não é servido».

Tudo começou num tweet

Além da influência do pai, coleccionador de ferromodelismo, Tomás Batista abriu o olho para os transportes públicos em 2010, quando assistiu ao fecho do ramal da Lousã e percebeu o impacto que a substituição dos comboios por autocarros teve nas comunidades à volta de Serpins e Coimbra. «Vi colegas de escola a saírem da Lousã porque os pais não conseguiam suportar a despesa e todo o cansaço que era ir e vir todos os dias, uma hora de autocarro para cada lado», recorda.

Tomás não é de ficar de braços cruzados. A tendência «sempre» foi identificar o problema e «ir ao poder político» com uma solução. «O meu pai conta muito esta história. Tinha 14 anos, a minha rua foi requalificada e, na inauguração, cheguei ao pé do presidente da Câmara e disse-lhe que a lomba podia estar melhor e que a rotunda podia levar uma decoração diferente». As rotundas à entrada da Lousã acabaram por ser requalificadas e, também por sugestão de Tomás, instalaram paragens de autocarro cobertas junto a uma escola.

Um par de anos depois, o entusiasmo pelos transportes públicos cruzou-se com a pandemia de COVID-19 e o alcance do Twitter. Durante o confinamento, começou a olhar para mapas de metropolitano e a «imaginar como podiam ser coisas» e, em 2021, fez o primeiro tweet com uma proposta para o metro de Lisboa. «Em poucas horas, explodiu: as pessoas começaram a meter gosto, a partilhar e a incentivar-me». As reacções levaram-no a aprimorar o projecto e a fazer também uma proposta para a rede da madrugada da Carris, com a empresa a acolher duas das sugestões.

Foi também no Twitter, onde já tem uma comunidade de seguidores, que partilhou as ideias para Coimbra e levou a votação propostas de logótipos para os SMUTC: ganhou a imagem que estiliza o actual símbolo (o brasão da cidade) num círculo a duas cores, amarelo e púrpura. «A ideia é mostrar que os TUC tanto estão presentes na ida como na volta», explica.

Por ser um «meio mais pequeno» e pela proximidade que tem já aos SMUTC, Tomás acredita que, em Coimbra, vai conseguir «fazer mais mudanças» do que em Lisboa.

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