A construção do bem comum é um dinamismo historicamente imparável. Pior ou melhor. Não tem ‘lado de fora’. A nossa (aparente) ausência do processo equivale à demissão e empobrecimento. Nosso e do que é “comum”. Neste sentido, a partir de um lugar concreto (a freguesia de São Martinho do Bispo, na sua união com Ribeira de Frades ), decidi desafiar o espaço público para um ‘começo de conversa’. Os primeiros pontos que aqui deixo, constituem essa agenda de partida, que carece de diálogo recíproco, de enriquecimento mútuo e de aprofundamento, no único horizonte que importa de verdade ao exercício ‘político’ em sentido forte: servir a pessoa (cada pessoa) e a sociedade.
Definir a identidade e criação de elementos de unidade
São Martinho vive há demasiado tempo mergulhado numa crise identitária, no que toca à definição do seu perfil sociológico e demográfico. Enquadremo-lo numa trincheira entre um urbano auto-reclamado, na realidade mais vivido por quem cá dorme anonimamente, e um rural existencial e culturalmente concretizado por quem transporta a memória viva do lugar. De todas, a atitude mais perturbante, em sentido negativo, será a daqueles que querem instantaneamente fazer do lugar o que ele (ainda) não é, como se o desenrolar passivo do tempo, a construção de estruturas – mais por iniciativa de instituições e pela força das circunstâncias e menos por projeto de um governo coordenador e proponente – fosse condição suficiente para a transformação que desejam no íntimo, mas não têm sabido operacionalizar.
Obviamente, a ruralidade nada tem de errado. O problema pode estar em recusar a aceitação deste estado social de vida, para o mascarar de uma urbanidade que não existe ou está (ainda) distante, na ‘verdadeira urbe coimbrã’. Com danos imediatos e com o hipotecar de muitas possibilidades criativas.
Mesmo sem um aturado estudo quantitativo, não se ignora e facilmente se gera consenso relativamente à ideia de que a maior mole humana da geografia social desta grande freguesia é ocupada por mulheres e homens cujos centros de interesse, no que à ‘coisa pública’ respeita, não estão aqui situados. A par deste grupo enorme, parece evidente que a renovação de quadros dirigentes, a diferentes níveis ‘políticos’ e ‘associativos’, não tem acontecido e a freguesia é – há demasiados anos – alimentada na dinamização da vida comunitária pelos mesmos rostos. Aqui e ali, talvez até capturada por esses estatutos e interesses.
Finalmente, nenhum erro subsiste no facto da cultura local de um território se expressar e viver de modo poliédrico, numa pluralidade inter-relacional. Isso até constitui uma riqueza, desde que assumida sem titubeamento e exatamente como motor dinamizador da vida social. E não numa cultura de trincheira, orgulhosamente só ou evadida da realidade, numa visão ‘paroquial’ autorreferencial, sem disso se dar conta.
Refazer o espaço público
É difícil ignorar a desorganização do espaço público em São Martinho. Décadas de um crescimento que parece marcado pelo aleatório tornaram-no fragmentado. Não existe um ‘centro’ agregador, mas também não é policêntrico. É globalmente marcado pela justaposição de espaços residenciais, de equipamentos públicos, sem que os elementos edificados dialoguem entre si e com as pessoas.
Deste modo, urge (com atrasos irremediáveis em alguns casos) refazer o possível da organização do espaço público: edificado, lugares públicos, espaços de lazer, circulação pedonal, vias de comunicação, critérios de identidade cultural e estética…
‘Encomendar’ a elaboração de um documento-projeto estruturante para 10-20 anos do espaço geográfico (e humano, ao mesmo tempo), recorrendo à Academia, à arquitetura, à engenharia, à sociologia para o repensar de um modo (mais) humanizado, corrigindo o corrigível do existente e estruturando o possível para um futuro diferente, dotaria os decisores de um instrumento estruturante, que permitiria deixar de ‘navegar à vista’ e terminar com o ‘ver acontecer’ passivo sem dar sinais de se possuir projeto e de capacidade para ‘oferecer’ critérios discernidos para a leitura da realidade.
Incrementar o conhecimento como fator dinamizador da comunidade
O Instituto Politécnico de Coimbra é (tem de ser) um parceiro essencial das Freguesias e neste tópico, por maioria de razão. Que sentido faz ter a sede de uma prestigiada instituição de ensino superior, com diversas escolas de referência, e isso não redundar em incremento cultural e científico, que acrescente valor às pessoas e à vida comunitária deste espaço onde as mesmas estão situadas? Assim, importa criar lugares e tempos de diálogo consequente para ‘transferência de conhecimento’ do ensino superior instalado na freguesia para o espaço territorial da mesma. Da Escola de Enfermagem e Escola de Tecnologias da Saúde para as Instituições do setor social; da Escola de Contabilidade, Administração e Negócios para o tecido empresarial e para o comércio (por exemplo, com a criação da associação de comerciantes e empresários locais); da Escola Agrária, para os agricultores (por exemplo, com a criação da associação de agricultores locais). De relevar é também a presença da INOPOL (Academia de Empreendedorismo do IPC) no nosso espaço territorial. E isso terá de convocar reflexão e criatividade. Finalmente, a este nível, uma instituição com o relevo científico e prático da Fundação Bissaya Barreto tem de ser convocada para desenhar, estruturalmente e a longo prazo, a ‘coisa pública’ local, com rasgo, criatividade e consistência exequíveis.
Elenco dos estudantes do ensino superior a estudar na freguesia.
Povoada por quatro Escolas de Ensino Superior, São Martinho é local de habitação de estudantes de todo o país e do estrangeiro, que aqui realizam a sua formação. A riqueza desta diversidade não pode permanecer no anonimato do mercado de arrendamento ou do parco comércio local.
Primordialmente, importa ter este diagnóstico tão exaustivo quanto possível e estabelecer canais de comunicação formais, com as direções das Escolas e as Associações de Estudantes, nomeadamente. De seguida, algum exercício criativo deve resultar em questões como a estruturação justa, equitativa e de médio-longo prazo do edificado e do mercado de arrendamento; a criação de plataformas digitais e físicas que constituam verdadeiros canais de comunicação entre esta comunidade e a população ‘autóctone’, no que respeita à vivência e à dinamização do espaço público. Imagino, por exemplo, como poderá crescer o tecido associativo (com impressionante perda de fulgor nos últimos vinte anos) se ‘contar’ com a criatividade destes jovens, nomeadamente dos mais deslocados e que, tendencialmente, passam mais tempo sem regressar aos seus locais de origem… Adianto outra possibilidade, que passaria pela geminação ou outra ponte institucional com os locais de origem destes estudantes (nacionais e estrangeiros), no tocante a dimensões várias e o mais transversais possível da ‘coisa pública’…
A ‘comunicação’ com Coimbra.
Retomando o tema da identidade, parece muito claro que a comunicação com Coimbra carece de novos e diferentes incrementos. E isto é vital e identitário para uma freguesia que se diz urbana. Sobretudo a zona da beira-rio e do Choupal constituem um espaço bastante desaproveitado no que toca ao desporto e lazer (por exemplo) e no que (já) representam de ligação rodoviária à cidade. Num redesenho do território global da freguesia, este traçado tem de ser repensado e redimensionado às circunstâncias atuais. E de oferecer à comunidade novas e diferentes oportunidades de fruição e comunicação com o todo da cidade.
O que aqui fica são traços gerais e primeiros, que podem ser convocadores da reflexão da sociedade civil. Na perspetiva de que as escolhas públicas não se circunscrevam à simpatia circunstancial, ao arremesso de crítica estéril, à difusão folclórica e histriónica de banalidades. Podemos conversar sobre o que interessa e estruturar o nosso futuro coletivo. Ou hipotecá-lo, entretidos em diversões, enredados em retrocessos ignorantes ou obcecados por táticas de poder e proveito próprio. Pessoalmente, estou disponível para a reflexão que aqui se convoca. E crente de que muitos outros estarão.

Luis Francisco vive em São Martinho, é licenciado em Filosofia e dá aulas na Mealhada. Foi padre católico, pároco em diversas paróquias, assistente espiritual no hospital universitário de Coimbra e também diretor de um jornal, agricultor, armazenista, comercial imobiliário, formador de adultos e jovens. Pelo meio, lê e escreve, faz silêncio e pensa, corre e joga. Gostava de ser viajante e escritor. Acredita que, um dia, algures, o será.

