Se por um lado, é inquestionável a necessidade de melhores serviços de ferrovia para a cidade e para o país; por outro, (1) deveria ser igualmente claro que critérios e modelos sustentam o planeamento das infraestruturas, e (2) quais os impactos previstos no tempo, ao nível demográfico, socioeconómico, ecológico, ambiental. E a esta altura de evidências sobre a influência do planeamento urbano para a saúde humana e ambiental, deveríamos ir mais além do que um compromisso de redução das emissões de gases de efeitos de estufa para atingir metas climáticas.
Enfrentamos três grandes desafios à escala planetária: alterações climáticas, poluição e perda de biodiversidade. Esta é pois uma boa oportunidade para que a construção de novas infraestruturas e edifícios contribuam efetivamente para a implementação de uma mobilidade amiga do ambiente, incluindo a mobilidade multimodal urbana, bem como sinergias entre eficiência energética, saúde humana, sustentabilidade ecológica, neutralidade climática. E isto relativamente ao ambiente
urbano, periurbano e rural.
Qual o plano de pormenor da estação intermodal de Coimbra da perspectiva da biodiversidade, transição ecológica, sustentabilidade ambiental? Que não se confunda o verde jardinado de corredores verdes, infraestruturas verdes, parque verde urbano, com transição ecológica assente numa articulação com a biodiversidade local e ciclos de vida na natureza.
Em que medida a infraestrutura da estação intermodal acompanha o comportamento do rio Mondego e suas comunidades ribeirinhas? Que contributos acrescenta a estação intermodal à agricultura e sistema produtivo do baixo Mondego? De que modo a nova centralidade urbana contribui para melhor
qualidade de vida das pessoas que vivem na cidade e no município? Que estratégia foi ou será seguida para promover eficiência energética, ou até mesmo a autossuficiência energética destas novas infraestruturas? Que a ansiedade de recuperar tempo ou o entusiasmo pelo moderno de agora não se sobreponha à oportunidade para pensar, discutir, implementar, mais amplo para esta e as próximas gerações e em verdadeira harmonia com a natureza.
Não será preciso reinventar a roda para projetar a cidade para um futuro mais próximo de ciclos de vida na natureza. Olhar para a regressão ecológica à volta da cidade, nos campos que deixaram de ser cultivados entre quatro e seis décadas revelam aquilo que cresce naturalmente, com manutenção reduzida em termos de recursos hídricos e jardinagem. Não me refiro a espécies exóticas, naturalmente.
Curiosamente, muitas vezes o verde jardinado corresponde a verdes do mundo, verdes bonitos e de crescimento rápido…
Outro assunto relevante: critérios e rastreabilidade do cultivo das espécies utilizadas nas infraestruturas verdes urbanas e parque verde urbano. Mas poder-se-á atuar de modo intencional desde uma perspectiva da biodiversidade e transição ecológica. Em 2020 foi publicada a lista vermelha da flora vascular de Portugal continental, que revela o declínio de várias espécies no baixo Mondego, o
que representa um bom guia e incentivo para uma transição ecológica ou planos integrados de restauro ecológico. Alguns grupos de animais conhecem-se melhor enquanto endemismos e flutuações, como aves e peixes. São conhecidas as colónias de milhafre-preto, como uma das maiores da Europa. Fazem parte de ementas locais os peixes migradores, como a lampreia, o sável e a savelha, embora com flutuações devido à interferência das barragens e alteração de habitats.
Outros grupos de organismos carecem ainda de diagnóstico exaustivo, como é o caso dos fungos;
fundamentais para a manutenção dos ciclos de nutrientes, saúde dos bosques, alimento. Também este poderá ser um bom momento para maior envolvimento dos munícipes e, conjuntamente, com o apoio de especialistas, contribuirmos para construir bases dados e de diagnóstico, e conhecimento, que possam servir de suporte a decisões. Poderão ser alguns exemplos de medidas para uma transição ecológica e sustentabilidade ambiental, a recuperação, ou restauro, de linhas e ciclos de água urbanos, modelos de agricultura urbana ou de sistemas alimentares urbanos.
O mesmo se aplica à ação climática. Expor o contributo das escolhas sobre infraestruturas e edifícios enquanto esforço do município no contexto de ação climática, é um indicador de cidadania importante e um estímulo para outros exemplos e acelerar a transição energética. É relevante que cada munícipe, independentemente do local onde viva, possa ter informação sobre o impacto do novo modelo de transporte para reduzir custos energéticos, atingir metas climáticas,
melhorar qualidade de vida, do ponto de vista financeiro, acessibilidade, saúde. Também se tem falado pouco daquilo que é a oportunidade de implementar novas infraestruturas para reequacionar as necessidades dos lugares e das comunidades.
Anabela Marisa Azul é bióloga, investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular, Universidade Coimbra
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