Escrever ou falar sobre Coimbra é, para mim, elaborar num paradoxo: gosto de Coimbra, mas detesto uma boa parte do que nela acontece.
Coimbra é um lugar mágico, exuberante, arrebatador. Mas não me consigo sentir bem com a sua maneira de ser tantas vezes paroquial, provinciana, pequena. Coimbra teima em não ser ambiciosa e muito menos exigente.
Lembro-me recorrentemente de um episódio que aconteceu comigo há mais de duas décadas. Alguém que admiro dizia-me: «Gonçalo, quando quero falar do quão cinzento e apagado se pode o Porto tornar, mando a malta visitar Coimbra». Retorqui, espontâneo: «Não, viremos essa página, Coimbra bateu no fundo e tudo será agora diferente». Já não me lembro por que acreditava eu nisso, mas lembro-me bem da imediata e sonora gargalhada que recebi do meu interlocutor: «Gonçalo, sabe… Coimbra não tem fundo.»
Coimbra não tem fundo é uma ruminante maldição que não me larga. Será que a magia da minha cidade é apenas uma construção do meu imaginário? Uma remanescência da minha juventude quando tantos dos seus recantos foram inspiradores portos-de-abrigo? Por que não me consigo sentir bem com ela?
Muitos à minha volta, sabendo o que penso, acham que é minha obrigação candidatar-me à Câmara. Não acho! Isso, aliás, nunca acontecerá. Já, em tempos, estive disponível para o fazer (num contexto muito particular) e tal não se repetirá. Nunca assumirei um qualquer cargo político, aqui o escrevo, uma vez mais.
A mudança em Coimbra tem de acontecer bottom-up. A sua força está nas pessoas vibrantes, ambiciosas, jovens que nela existem. Pessoas com uma energia fresca, contagiante, mobilizadora e transformadora – mesmo vivendo contextos difíceis. A força de Coimbra aparecerá com esplendor quando as deixarmos ser os protagonistas.
Não significa, claro, que não importem as qualidades de quem nos lidera. Mas nada importa mais do que a inteligência colectiva, que, entre nós, não parece ser a melhor – desde logo porque temos uma enorme dificuldade em trabalhar uns com os outros. Por outro lado, somos nós, todos nós, que temos de ser capazes de atrair, desafiar, exigir, escrutinar, os melhores para nos liderarem.
Há dois factores que justificam esse défice de inteligência colectiva. Um deles o nível de conforto, elevado, com que muitos dos nossos concidadãos vivem. Esse conforto não é, claro, uma má noticia. A má noticia é que ele depende de factores voláteis, efémeros, como a relevância e capacidade competitiva das grandes organizações públicas que hoje alimentam a nossa economia. O contexto competitivo onde operam tais organizações está a mudar rapidamente. A arrogância e falta de ambição que o conforto facilita, e a acentuada perda demográfica especialmente grave entre os mais novos, destruirão o nosso futuro se não forem invertidas.
O outro factor será ainda mais importante: a hierarquização deferencial em que Coimbra vive. Os títulos, os egos, a endogamia. A nossa enorme dificuldade em renovar, refrescar, dar espaço aos mais novos, e a novas lideranças. Hierarquização, deferência, endogamia que é promovida pela nossa Universidade. No evento INOVAÇÃO@UC 2022, onde falei deste desafio, recebi do nosso reitor este desapontante comentário: «Sim, a endogamia é um problema, mas ela é impossível de combater na UC». Bom… parece-me óbvio que a cultura que subjaz à endogamia está a destruir Coimbra. Desistir de a combater, é desistir da nossa cidade.
O problema da endogamia está no défice de diversidade, pluralidade e na cultura de deferência que promove – aprende-se a não questionar quem manda, e, depois, a não duvidar, não exigir, não escrutinar.
Um exemplo de défice de exigência serão as obras que transformaram Coimbra num imenso e sujo estaleiro. A melhoria das nossas infraestruturas implica com certeza sacrifícios de todos, mas não pode transformar os cidadãos numa espécie de carne para canhão, absolutamente irrelevantes na cabeça de quem planeia e decide a cidade.
A facilidade com que se fecham ruas e praças, e a dificuldade em as reabrir; o ritmo lentíssimo das obras e a forma como nos obrigam a encolher e a fazer gincanas; a disfuncionalidade dos nossos transportes públicos; a ausência de medidas simples, como colocar polícia na rua nas zonas de confusão, ou reprogramar semáforos – os mais estúpidos do mundo, diga-se, em cidades da nossa dimensão. Não são estes exemplos claros de falta de exigência da nossa comunidade?
Mas a hierarquização, a deferência, o seguidismo acrítico, retiram-nos também iniciativa, criatividade, ambição. Habituamo-nos a receber e a executar ordens quando, para sermos bem-sucedidos neste mundo em mudança rápida, precisamos mais do que nunca de espírito criativo, de iniciativa, ousadia, irreverência, agilidade… Precisamos dos mais novos. Temos de lhe dar espaço, confiança, estímulos. Precisamos muito deles.
Acabem com a endogamia na UC. Proíbam-na!
Promovam a transparência e uma cultura de mérito, autonomia e responsabilidade nos cargos de liderança – erradiquem os cartões partidários e afins!
Sonhem, ousem, arrisquem. Não se contentem com a média. Ambicionem.
Um exemplo, para terminar, do que quero dizer com ambição.
Porque não tiramos partido do incrível trabalho que a Bienal Anozero tem feito para criar um extraordinário campus criativo no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova e sua envolvente? Porque não ousamos fazer emergir, catapultado pelo habitat vibrante e imaginativo que a arte contemporânea pode criar, um campus capaz de atrair as indústrias mais criativas e ousadas do planeta, que procuram incessantemente novas formas para maximizar o potencial criativo e disruptivo das suas organizações?
Será, sim, uma ideia bem mais difícil de concretizar do que a de instalar um hotel de cinco estrelas naquele espaço. Mas será, seguramente, uma ideia infinitamente mais poderosa para o nosso futuro. Uma ideia menos pífia!
Muitos dirão que é fácil falar, difícil mesmo é fazer – num contexto em que os recursos são escassos. É verdade. Por isso importa uma visão muito clara e inspiradora do que queremos para Coimbra e onde queremos mesmo colocar os nossos parcos recursos.
Ainda assim, a comunidade Coolectiva terá dezenas de boas ideias fáceis de concretizar que podem ajudar a fazer de Coimbra um sítio melhor. Aqui deixo o desafio para que elas apareçam – seria também uma boa forma de confirmarem esta minha reflexão.
Gonçalo Quadros, cidadão, co-fundador da Critical Software e da Coimbra Coolectiva
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