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Há uma loja com sorrisos e Ilustração ao Vento no Quebra Costas

Entramos no n.º 38 das escadas do Quebra Costas e Márcia Santos fala ao telefone de pincel na mão, com um desenho inacabado diante do rosto. Nota-se que é um cliente. Quando termina a chamada, vira costas à coroa do Principezinho que estava a fazer e oferece-nos o maior sorriso e toda a atenção, que […]

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Entramos no n.º 38 das escadas do Quebra Costas e Márcia Santos fala ao telefone de pincel na mão, com um desenho inacabado diante do rosto. Nota-se que é um cliente. Quando termina a chamada, vira costas à coroa do Principezinho que estava a fazer e oferece-nos o maior sorriso e toda a atenção, que volta a ser interrompida minutos depois por uma turista que pede para se sentar no sofá. Percebemos que é uma repetente, já lá tinha estado no dia anterior. Vim buscar o presente para a minha neta, diz.

Geralmente é assim. Entra muita gente no ateliê Ilustração ao Vento, e quase todos procuram presentes e nem sempre são para crianças. Inicialmente pensei que este projecto ia ser para crianças, porque os desenhos são infantis ou do universo infantil, mas muita gente (adulta) compra para ela e isso é tão giro, nunca pensei que gostassem tanto, explica Márcia Santos. A ilustradora não tem mãos a medir entre a produção de peças encomendadas e reposição para venda.

Meninas com os cabelos ao vento, meninos alusivos ao Principezinho, de Saint-Exupéry, – porque o meu pai me lia sempre essa história quando era pequena -, castelos, pássaros, plantas. Inicialmente fazia a tudo a lápis de cor e tintas de aguarela, mais recentemente começou a usar a esferográfica e o cartão. Correu muito bem, as pessoas gostam muito, então comecei a misturar tudo e agora predomina a esferográfica, talvez por ser muito simples, diz Márcia. Também tem peças deliciosas a três dimensões, em que as personagens ganham relevo, sempre em papel, autênticos quadros 3D, 100% originais.

A imaginação, essa, nunca acaba. Basta meter o papel à frente e de um risco pode nascer, literalmente, qualquer coisa. Só mesmo nos dias maus é que recorre à Internet ou pega nos livros infantis da filha para se inspirar. Penso: vou fazer uma árvore com uma casa lá em cima e vive lá um gigante, ou algo do género, mas não tenho de ter necessariamente uma história por trás. 

Ao contrário do que possam pensar, Márcia confessa que não gostava de desenhar quando era pequena. Acabou por estudar Ilustração Infantil por influência de um professor, a técnica simples deu nas vistas e continua a dar cartas até hoje. A autora tem livros publicados à venda nos Mosteiros de Santa Clara-a-Velha e Santa Clara-a-Nova, por exemplo, edições institucionais, e fez outros trabalhos encomendados por municípios.

É a primeira vez que Márcia Santos trabalha naquilo que a apaixona a tempo inteiro e por conta própria mas a história não é bem um conto de fadas. O impulso, foi uma catástrofe. A minha casa ardeu no Natal, a situação laboral complicou-se e eu pensei: é agora, é agora que vou seguir o meu sonho, porque eu queria ser ilustradora e mandava sempre muitos emails mas ninguém me respondia, as editoras estão cheias de ilustrados e pelo que me disseram os escritores já escolhem os ilustradores, conta. Então pensei: porque não abrir um ateliê? E porque não no Quebra Costas? A ideia do espaço é a mesma das ilustrações – a pessoa entrar e sentir-se aconchegada, voltar a ser criança. 

A cliente, com quem conversámos, comprova: primeiro foi a doçura, a coisa ao vento, aquela coisa infantil, depois também me chamou a atenção porque estou à procura de um presente para a minha neta. Os preços variam entre os 20 e os 40€, com ou sem moldura. Duas coisas são asseguradas: originalidade e amor. 

É o que eu gosto de fazer, sinto-me extremamente feliz ao fazer este trabalho e queria partilhar a minha felicidade com as pessoas. Acho que estou a conseguir, as pessoas dizem-me que o meu trabalho as deixa felizes e os clientes que entram sisudos saem com um sorriso na cara. A Ilustração ao Vento está aberta toda a semana, das 10h às 18h.

Texto e fotos: Filipa Queiroz

* Artigo actualizado a 10 de Março de 2021

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