
This night is the only cabaret
And the doorkeeper’s never there
And we’re never, never, going back
So save your coins to the startrek.
Era este o refrão da primeira música que ouvi dos Belle Chase Hotel, o tema Kurt Weill Time, que abria a primeira gravação da banda conimbricense. A maquete foi-me entregue em mãos na Rádio Universidade de Coimbra (RUC) por dois fundadores dos Belle Chase Hotel: Antoine
Pimentel e Pedro Renato. Estávamos em Setembro de 1997, e eu procurava novas bandas para integrarem o cartaz do 2º Festival Sempre No Ar!, organizado pela RUC. Não havia possibilidades financeiras para pagar cachets às novas bandas, e impressionou-me que logo naquela primeira conversa que tive com o Antoine e o Pedro, eles deixarem bem claro que só tocariam se fossem remunerados porque tinham investido muito no projecto
A maioria das bandas ficava feliz só por poder tocar, mas os Belle Chase Hotel sabiam o que queriam. Eu aceitei o ponto de vista deles e prometi que iria ouvir aquela maquete.
Já circulavam muitos rumores sobre as virtudes da banda, mas fui completamente surpreendido com o que ouvi naqueles seis temas: Kurt Weill Time, Sunset Boulevard, The Night Will Never Care, Living Room, Strong Sex e Fossanova. Temas bem tocados, bem construídos, com arranjos muito acima da média, letras bem escritas e de humor refinado, e acima de tudo grandes canções. Depois havia a voz de JP Simões, singular e única. No fundo, a qualidade global daquelas gravações destacava-se largamente das maquetes que costumava receber. Estava encontrado um novo artista para o catálogo da Lux Records.
Todos os anos, a RUC tem uma data disponível no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) para comemorar o aniversário. Em 1996, o concerto do 10º Aniversário contou com John Zorn (mentor dos projectos Naked City e Painkiller) acompanhado por Mike Patton (então vocalista dos Faith No More, e que depois formaria projectos como Mr. Bungle, Fantômas, Tomahawk e Peeping Tom) e Ikue Mori (que fez parte dos DNA de Arto Lindsay). Em 1997, a RUC celebrou 11 anos com o espectáculo Müller No Hotel Hessischer Hof dos Mão Morta e naquela altura estávamos já a preparar o concerto do 12º aniversário no TAGV. Eu fazia parte da Administração da RUC e sugeri os Belle Chase Hotel. A fasquia colocada pelos concertos de aniversário anteriores era elevada e, por isso, este revestia-se de grande risco. Tratava-se de um grupo sem disco editado, que eu nunca tinha visto tocar ao vivo.
E, de repente, estava apontado a uma sala de espectáculos com 782 lugares de lotação. Mas tínhamos uma bela maquete e uma rádio para a divulgar de forma massiva. Não tínhamos fotografias da banda e precisávamos de um cartaz promocional apelativo. Na altura, o Centro de Estudos de Fotografia da Associação Académica de Coimbra funcionava paredes meias com a RUC, e recebemos a preciosa ajuda do Pedro Medeiros para a escolha da fotografia a usar. Vimos dezenas de catálogos e livros de fotografia até que, quando apareceu aquela imagem, a unanimidade foi imediata. Uma criação do fotógrafo alemão André Gelpke apresentava um travesti saído de um qualquer cabaré, capaz de produzir a ilusão desejada para o som burlesco da banda. O Pedro Arinto (RUC) foi o responsável pelo grafismo do cartaz, e no dia 2 de Abril de 1998, a lotação do TAGV esgotou para assistir ao concerto dos Belle Chase Hotel.

O concerto ainda me surpreendeu mais do que a maquete: musicalmente foi irrepreensível e visualmente foi ousado, com a presença do performer Ricardo Seiça. Mais tarde, uma das fotografias desse concerto tirada a Ricardo Seiça por Florbela Santos, serviria de base para a capa da edição em vinil de Fossanova. A banda já estava nos Estúdios Clic (do Gonçalo Rui) para gravar o disco de estreia para a Lux Records e, de repente, eu era o manager dos Belle Chase Hotel. Seguiram-se concertos no
palco secundário da Queima das Fitas de Coimbra, no Palco 6 da Expo 98 e na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa.
Em Agosto de 1998, os Belle Chase Hotel arrasavam no palco principal do Festival Paredes de Coura e a crítica aplaudiu, elegendo a banda como a grande revelação do evento. Poucos dias depois, recebia um telefonema do Rui Miguel Abreu (então A&R da NorteSul) a manifestar o interesse em contratar a banda para aquela editora do grupo Valentim de Carvalho. O disco Fossanova já estava todo gravado e pronto para ser editado pela Lux Records, mas a factura do estúdio era elevada. Afinal, os Belle Chase Hotel eram nove (JP Simões, Pedro Renato,
Antoine Pimentel, João Baptista, Raquel Ralha, Luís Pedro Madeira, Sérgio Costa, Filipa Cortesão e Marco Henriques) e ainda houve convidados nas cordas e metais.
Parecia-me uma oportunidade caída do céu. A NorteSul era na altura dirigida por Manuel Falcão (o primeiro director do jornal Blitz) e tinha também como A&R o Pedro Tenreiro, por isso, saber que estava rodeado de pessoas que gostavam e percebiam de música, facilitou o acordo entre a Lux Records e a Valentim de Carvalho para a edição de Fossanova. O single de apresentação do disco era uma das canções da maquete, Sunset Boulevard, um hino pop corrosivo que teve direito a videoclipe dirigido por António Ferreira (o realizador de Esquece Tudo O Que Te Disse, Embargo e Pedro e Inês).
O álbum tinha edição prevista para 16 de Novembro, com concerto de apresentação no Ritz Club em Lisboa, no dia seguinte. O CD chegou às lojas na data anunciada, mas foi detectado um erro no áudio e teve que ser recolhida toda a edição. A nova prensagem chegaria em forma de presente natalício no dia 21 de Dezembro, ainda a tempo de entrar para o Top + (a tabela dos discos mais vendidos em Portugal) da última semana do ano. A crítica rejubilou, e Fossanova dominou as habituais listas dos melhores discos do ano. O ano de 1999 começou com um espectáculo no Coliseu dos Recreios em Lisboa, onde os Belle Chase Hotel asseguraram a primeira parte para o concerto dos Mão Morta.

Seguiu-se uma digressão longa e preenchida de 63 concertos que culminou com a actuação na Aula Magna
em Lisboa no dia 21 de Novembro. Pelo meio houve passagens pelo Teatro Rivoli (Porto), Teatro Aveirense (Aveiro), Festival Zeca Afonso (Coimbra), Praça Sony (Lisboa), Festival Outros Rituais (Porto), Hard Club (Vila Nova de Gaia), Festival Sudoeste (Zambujeira do Mar), Festa do Avante e uma imensidão de festas académicas.
O sucesso alcançado com Sunset Boulevard teve continuidade nos singles Emotion & Style e Fossanova, este último com direito a um belíssimo teledisco realizado pelo fotógrafo Pedro Cláudio.
Para o final de 1999, a NorteSul preparou uma reedição do CD Fossanova com a inclusão de um disco de bónus onde estavam versões para Goldfinger (Shirley Bassey) e Telephone Call From Istambul (Tom Waits), e remisturas dos temas Living Room e Fossanova. Goldfinger seria mesmo o último single promocional para o álbum de estreia dos Belle Chase Hotel. Já que iria haver uma reedição em CD, tentei convencer os responsáveis da editora a fazerem uma edição em vinil de Fossanova. O vinil era um tema tabu naquela altura e nas grandes editoras ninguém arriscava edições neste formato. Em Portugal, entre 1995 e 1999, não houve nenhum álbum de um artista nacional editado em vinil (os Moonspell tiveram três álbuns editados neste período, mas de edição alemã através da Century Media). Já que a NorteSul se recusava a editar o álbum em vinil, propus que fosse a Lux Records a fazê-lo.
No fundo era inverter o processo, a Lux tinha cedido a edição em CD à NorteSul e agora a NorteSul cedia a edição em vinil à Lux Records. Há muito tempo que o vinil de Fossanova
estava a ser magicado na minha cabeça. A capa alternativa usada para o vinil já estava preparada desde que o disco teve edição em 1998; inicialmente havia duas propostas para a capa do álbum em CD e a alternativa acabou por ser preterida em favor da versão com os três
manequins (grafismo da PK de Luís Lázaro e André Carrilho). Agora só tínhamos que a adaptar ao formato doze polegadas.
O grafismo alternativo foi idealizado por Pedro Renato e concretizado pelo Pedro Arinto (RUC). Aproveitei para apresentar um novo alinhamento de Fossanova para a edição em vinil, com a inclusão de algumas raridades: as versões para rádio dos singles Emotion & Style e Fossanova, as versões de Telephone Call From Istanbul e Goldfinger cantadas por Raquel Ralha e três temas retirados da primeira maquete (Kurt Weill Time, Strong Sex e The Night Will Never Care). A 13 de Novembro de 1999 seriam editadas, em simultâneo, as reedições em CD duplo e vinil duplo do álbum Fossanova. O concerto de apresentação foi na Aula Magna, em Lisboa, com a primeira parte a ser assegurada por Ruby Ann & The Boppin’ Boozers.
A Lux Records fazia história ao tornar-se a primeira editora portuguesa a proporcionar o regresso dos álbuns às edições em vinil.
Por Rui Ferreira, dedicado à memória de João Baptista,
o extraordinário baixista dos Belle Chase Hotel




