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Relato de uma enfermeira: “Somos a tropa de elite mas sem protecção”

As grávidas não podem ter visitas nem os pais podem acompanhar os partos e estar presentes, vêem os bebés dois ou três dias depois de eles nascerem, conta Luísa Marinho, enfermeira especialista em Saúde Materna e Obstétrica na Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra. Tudo aquilo com que elas sonharam não acontece, elas estão sozinhas e […]

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As grávidas não podem ter visitas nem os pais podem acompanhar os partos e estar presentes, vêem os bebés dois ou três dias depois de eles nascerem, conta Luísa Marinho, enfermeira especialista em Saúde Materna e Obstétrica na Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra. Tudo aquilo com que elas sonharam não acontece, elas estão sozinhas e nós temos trabalho redobrado. Tentamos filmar e tirar fotografias, mesmo do trabalho de parto, para enviar aos pais. Ontem fiz isso a uma mas não posso fazer a todas, somos só duas na sala de partos e se estiver cheia é impossível, mas eu fico com sentimentos de culpa.  

Quando não consegue tirar antes, Luísa aproveita o momento em que o recém-nascido é pesado para o fotografar e mandar o registo para o pai, para lhe dar algum alento. No outro dia fiz tudo e só depois é que me lembrei da fotografia e toca a despir o bebé e tirar a fotografia e vesti-lo outra vez mas é mais querido, é um mimo, conta a profissional há mais de 30 anos no serviço. Um mimo em tempos de guerra e uma guerra contra o desconhecido. Um mimo de alguém que antes de mais também é mãe e de duas enfermeiras, igualmente na linha da frente, em plena pandemia do novo Coronavírus. Segundo declarações do secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, no início da semana, cerca de 8% das pessoas infectadas são profissionais de saúde. Desses, 82 são médicos e 37 são enfermeirosEmocionalmente é muito pesado, desabafa Luísa MarinhoAté agora não houve qualquer caso de uma grávida positiva aqui, que nós saibamos, mas andamos muito atrapalhados com o tempo e o nosso maior medo que é não termos materiais de protecção suficientes. 

Luísa explica-nos que as grávidas recebem uma máscara mal dão entrada nas instalações e também ela e as colegas usam uma o tempo todo, só que já não podem mudar constantemente. Porque não há e isso deixa-nos extremamente desconfortáveis. A enfermeira diz que três colegas estão neste momento em casa com febre, à espera de fazer o teste, e defende que os profissionais de saúde deviam ser, de facto, prioritários nesse acesso. Se nós não nos protegemos não podemos proteger, somos a tropa de elite mas sem protecção, todos tivemos contacto com elas.

Os profissionais de saúde estão entre os principais grupos de risco de infeção COVID-19, principalmente pelo papel no contacto com os cidadãos que apresentam sintomas de infecção. No site da Direcção-Geral de Saúde há um guia que podem descarregar com materiais disponíveis, nomeadamente recomendações ao público, fluxogramas de uma actuação perante um caso suspeito, entre outros em actualização.

A bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, já veio a público criticar a falta de máscaras, viseiras e outro tipo de material de protecção. Andamos a comprar película aderente, o álcool é todo contado, usamos quatro pares de luvas – não temos sensibilidade, imagine apanhar uma veia com 4 pares de luvas calçadas -, compramos fatos às nossas custas porque os outros não chegaram, vieram alguns mas são escassos, diz Luísa Marinho. Os fatos são de apicultor, fluido-resistentes. A enfermeira explica que se o fardamento e desinfecção são muito complicados, o desiquipar é ainda pior.

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Para tirar as máscaras é preciso fazer apneia, por exemplo. De resto, a higiene que já era muita foi reforçada, tanto que lhe doem as mãos de tanto as lavar. Uma colega tem as mãos em sangue, revela. Já não tem impressões digitais, não pode fazer o controlo biométrico. O clima é de ebulição e medo, descreve a profissional que é viúva e, no fim do expediente, volta para o apartamento onde vive sozinha e evita ligar a televisão. Já não consigo ver notícias. Tenho 61 anos e duas filhas enfermeiras que também estão na linha da frente, se me calha a mim sou das que marcho, atira. O que tento fazer é não pensar muito, ponho música e ouço mas mais tarde ou mais cedo a realidade bate.

Cada morte anunciada nos telejornais é como uma punhalada. Cada tossidela no serviço gera o pânico. Mas nós, profissionais, não temos o resguardo das outras pessoa: dizem para tomarmos paracetamol e irmos trabalhar. Acho que não nos querem testar para não terem a certeza de que estamos infectados e podermos trabalhar. Dizemos-lhe que a comunidade está com eles no pensamento. Há um ano, quando precisámos de apoio para termos melhores condições de vida, ninguém nos ajudou. Fomos enxovalhados em praça pública. Tivemos uma manifestação com 40 mil enfermeiros de que quase não se ouviu falar, o primeiro-ministro chamou-nos de selvagens, foram levantados falsos testemunhos e agora batem-nos palmas. Os que foram obrigados a ir-se embora agora fazem-nos falta. A bastonária da Ordem dos Enfermeiros afirmou, no início da semana, que há profissionais que estão a ser obrigados a descontar os dias de quarentena nos dias de férias ou no banco de horas extra. 

Texto: Filipa Queiroz
Fotos: Banco de imagens

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