«Vejo o espaço da janela do Colégio Rainha Santa todos os dias e, quando fica de noite, só consigo pensar ‘Que lugar mágico!’». «O Semente é uma das instituições mais dedicadas ao pensamento em Coimbra». «Isto é muito mais do que só estar aqui a desenhar o que é certo ou o que é errado». «Não têm uma agenda institucional, o que vos permite ter uma liberdade criativa muito grande».
Estas são algumas frases que fazem parte da história do Semente Atelier, projeto fundado por Inês Moura e Clara Moura, duas mulheres de 41 e 71 anos ligadas pela paixão às artes, à educação e por laços familiares. O espaço abriu portas a 5 de setembro de 2024, alicerçado nos pilares das artes, das expressões, das linguagens e da criatividade. Ao fim de pouco mais de um ano, Inês e Clara caracterizam o espaço pela sua constante transformação.

Um sonho que saiu da gaveta
Mãe e filha contam que a vontade de criar um projeto desta índole já é antiga. Em 2003, mudaram-se para uma casa na Abrunheira, onde nasceu a vontade de realizar residências artísticas. Desejo que não se concretizou devido à falta de espaço na sua moradia privada e pela distância ao centro de Coimbra. No entanto, a vontade de criar um lugar de pertença nunca esmoreceu, motivada também pela história familiar marcada pela emigração para França e para o Brasil. Clara voltou a Portugal no ano da Revolução dos Cravos: «Era um tempo de muita esperança em que toda a gente trabalhava no sentido de construir um Portugal melhor». Esse sentimento que a moveu durante toda a vida foi um pequeno gatilho para criar este projeto.
Por sua vez, Inês, quando regressou após 12 anos em São Paulo, sentiu falta de um espaço de acolhimento que convidasse à reflexão e à criação. «A nossa cidade está muito viva [a nível cultural], mas as pessoas, por algum motivo, sentem que não pertencem». É neste vazio que nasce o Semente Atelier, num cruzamento entre as artes visuais e a educação, como um lugar de encontro de gerações, culturas e públicos diversos. «Criar o Semente foi criar uma cidade na qual queria pertencer», declara. O Semente Atelier oferece Workshops de Criação, Mentoria, A Educação como Semente, Partilhas, Rodas de Conversa, Paradoxos ou Talvez Não, além do Atelier de Criatividade, direcionado aos mais novos. Embora esteja integrado no espaço do Seminário Maior, a programação é independente e autónoma.
As atividades ocorrem ao final da tarde, para não disputarem horário com outras instituições culturais. Na visão de Inês, a sobreposição de programação das instituições culturais prejudica a formação do público.
Intergeracionalidade, interculturalidade e interdisciplinaridade
No verão de 2023, quando descobriram que a sala em que se encontra o Semente Atelier ia ficar vazia, propuseram ao Padre Nuno Santos, reitor do Seminário Maior de Coimbra, utilizarem o espaço para a conceção deste projeto. Inês conta que o Padre Nuno Santos fez uma viagem a Itália, na qual compreendeu que a arte é um lugar de encontro e agregação, pelo que a ideia foi acolhida de braços abertos.

O processo de construção do Semente Atelier que idealizavam demorou um ano, pois a antiga garagem servia como arrecadação de mobiliário degradado, onde também funcionava o atelier pessoal de Lu Lessa Ventarola. No início, poucas pessoas conheciam este cosmos intergeracional, intercultural e interdisciplinar, tropeçavam nele acidentalmente quando visitavam o baloiço do Seminário Maior, algo que ainda acontece.
Inês acredita que o processo de crescimento e de construção de uma rede comunitária de confiança, com o cuidado e a lentidão que só algumas receitas pedem, tem-se pautado por resiliência. «Sozinhas não iríamos a lado nenhum. Nós precisamos, de facto, dos outros», acrescenta Clara.
«Isto consome muito, é preciso pagar uma renda, perceber que evento é necessário fazer, perceber que público ainda não chegámos, como é que se faz para que os que já vieram continuem a vir, tenho ainda uma carreira como artista paralela ao atelier». Inês Moura
A gestão do espaço tem os seus desafios, por ser um investimento financeiro pessoal num aparelho cultural que não se resume à comercialidade. Nesse sentido, estão abertas a ouvir as ideias das pessoas, mas admitem poder não estar capacitadas a dar resposta, porque ainda não alcançaram sustentabilidade financeira.
Apesar dos desafios, no passado mês de maio, realizaram um relatório de avaliação de impacto, no qual concluíram que, oito meses após a abertura de portas, tinham acolhido mais de 700 pessoas, além de mais de 80 eventos.
Para o futuro, ambicionam um público maior nos workshops, obter a atribuição de subsídios ou bolsas e manter uma linha curatorial própria e autêntica. «Gosto muito de saber que recebemos pessoas que ninguém conhece, ou pessoas muito conhecidas que vão ser ouvidas por pessoas que não as conhecem», diz Inês, com um sorriso no rosto.
A ligação entre a arte, a espiritualidade e a religião
«Nem todas as sementes vingam, podemos lançar muitas à terra, mas é o cuidado que está para lá desse gesto inicial que as faz germinar muitas coisas diferentes». É assim que Inês pinta o significado do nome Semente Atelier, uma casa do fazer e do pensar. Explica ainda que «semente» e «seminário» possuem a mesma origem etimológica, significando a última «viveiro de plantas».
A localização no campus do Seminário Maior passou pela proximidade e familiaridade. Estão num sítio privilegiado, no centro da cidade, com estacionamento e rodeado de escolas. Por outro lado, o pai de Inês foi seminarista e enquanto artista, Inês considera que a arte, espiritualidade e religião têm uma ligação profunda e ancestral. Já Clara menciona que o espaço convida à contemplação, à serenidade e ao encontro, o que se alinha com o que ambicionam desenvolver.
Quando questionadas sobre o significado de desenvolverem um projeto conjunto enquanto mãe e filha, Clara descreve uma colaboração repleta de aprendizagem, de diálogo e de descoberta mútua. Por sua vez, Inês sente-se privilegiada por ter pais que nasceram numa época para si quase incompreensível e que absorveram conhecimento que lhe transmitiram.















