Chegámos pelas 21h30 aos estúdios da BlueHouse, em Coimbra, mas não batemos logo à porta. Ficámos a espiar pelo vidro transparente JP Simões ao centro e à volta Pedro Renato (guitarra), Antoine Pimentel (bateria), Luís Pedro Madeira (teclados, acordeão), Raquel Ralha (voz) e ainda Miguel Duarte (baixo) e Sérgio Costa (guitarra). Os Belle Chase Hotel começaram a ensaiar, sem JP, um par de semanas antes do aguardado concerto no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV).
Não era uma sala de estar «iluminada pelos mexericos e pelos alegres copos de vinho», nem havia «idosos com lenços de cetim e casacos de tweed», mas havia cabelos brancos, rugas e sorrisos cúmplices. Fossanova nasceu há 25 anos. Com nome de abadia italiana, o disco de estreia dos Belle Chase Hotel estourou nas rádios portuguesas no final dos anos 90, a começar pela Rádio Universidade de Coimbra, na altura presidida por Rui Ferreira que já nos contou ao pormenor como foi, e o fundador da banda, Antoine Pimentel, confirma: «Estávamos, por um lado, imbuídos de uma confiança muito naife, quase. Por outro, acho que tínhamos razões para estarmos confiantes.»
Prestes a dar o terceiro concerto desde a primeira reunião em 2017, e com músicas novas na manga, a banda espera lançar um novo disco brevemente. «No ano passado, o Pedro e o JP estiveram juntos em Sintra uma semana a compor, agora falta gravar», adiantou Rui Ferreira, manager da banda (e de outras como Wraygunn, The Legendary Tigerman, Sean Riley And The Slowriders, D3O, Tiguana Bibles e Mancines), proprietário da editora Lux Records e da discoteca Lucky Lux.
«Foi o JP que quis desta vez», continua. E tudo começou com uma troca de mensagens. «Há um grande poder emocional agora na troca de mensagens. Tenho uma amiga que costumava dizer que SMS é pornografia, porque está tudo na nossa cabeça, na verdade. E as palavras soam de uma maneira muito pessoal. Começámos assim, a trocar mensagens, e aqui estamos todos. Foi uma coisa simples. Foi no Tinder dos músicos», conta JP, que, além da carreira a solo, passou pelos Pop Dell’Arte e Quinteto Tati.
«We’ll be sailling at the crack of dawn / singing that first old song», cantam. Dos originais, faltam Filipa Cortesão (violino) e Marco Henriques (saxofone). «A Raquel, muito provavelmente, será o último concerto que faz, mas foi uma decisão dela», avança o manager. A cantora e instrumentista preferiu não falar com a Coimbra Coolectiva.
«Acho que voltamos sempre porque mais do que o grupo de pessoas, até porque as pessoas já mudaram, voltamos por causa das canções», diz Luís Pedro Madeira, que já nos tinha confessado as saudades. «Estas canções foram construídas por todos e, de alguma maneira, têm todas aqui e ali um bocadinho de cada um de nós. São muito boas canções. Como só tenho autoria de uma delas estou à vontade para dizer isto. Quando temos feito estes encontros anuais de velhos reformados musicais eu venho sempre muito contente porque há canções aqui que gosto mesmo muito de tocar», continua o autor de bandas sonoras de filmes, professor e autor do projecto de música infantil Taleguinho, entre outros projectos.
Blues, rock, lounge, swing, tango…e JP Simões. É este o caldo de sucesso musical dos Belle Chase Hotel nas palavras de Rui Ferreira. Um som capaz de agradar «dos 8 aos 80 anos» porque «nunca foi demasiado moderno para que as pessoas mais velhas não gostassem, e também não é demasiado velho para que os novos não gostem. Foi sempre juntar o antigo, trazendo algo de novo.» Com mais de 100 concertos registados, o manager diz que o grupo quer «a reedição de Fossanova, com a capa original, e de La Toilette des Etoiles — que nunca teve. E CD também, que não há no mercado. Nunca foram reeditados depois de 1999.»
Fossanova foi editado pela Nortesul e produzido pela Lux Records. La Toilette des Etoiles (2000) foi registado nos Estúdios de Paço de Arcos da Valentim de Carvalho, com produção de Joe Gore.
«A nossa música é uma corrida de emoções, de ironias, de mil e um escaparates estilísticos e acho que agora a ironia vai recair sobre o que nós fazíamos antes. Há sempre um lado de não levar as coisas muito a sério — porque elas são, de facto, muito sérias», diz JP Simões. Num concerto com casa lotada, o frontman da banda com nome de «espelunca» num filme de Jim Jarmush não desiludiu. O momento foi captado pela lente de Tiago Cerveira, que acompanhou a banda no palco e nos bastidores.
O palco do TAGV é casa e «a identidade dos Belle Chase será sempre inevitavelmente daqui, mas não», diz Antoine Pimentel. «Os Belle Chase até aconteciam muito como uma forma de fugir de Coimbra, dessa identidade de Coimbra. A ideia era essa vertigem, esse fantasma adolescente de não ser de cá, de ser estrangeiro, de as canções serem em inglês. Toda a linguagem, toda a estética, era completamente importada, desde o Brasil até aos blues. Não fizemos nenhum fado de Coimbra, até ver.»
JP Simões diz que num novo disco a banda até pode soar parecida, porque «não passou todos estes anos a maturar estéticas; foram anos de algum afastamento deste trabalho em particular». Agora: «Vamos jogar estas receitas todas para o alguidar do tempo e ver o que acontece.» Antoine confessa que essa é a parte que lhe interessa. «Se fosse para continuar a bater sempre na mesma tecla não tinha interesse nenhum. Só tem piada com a uma perspectiva de futuro, no sentido de novidades, de progresso, de coisas novas a acontecerem.» O cabaret, no entanto, continua. «Estão montes de referências que sempre tivemos na altura e continuamos a ter, mas talvez neste disco possam estar um pouco mais estilizadas, mais camufladas», revela Pedro Renato.
«Perguntaram-nos se tinha apodrecido bem o Fossanova e nós dissemos: “Sim, é um álbum que apodreceu bem, sim senhor, estamos satisfeitos”», atirou JP Simões, no palco do TAGV no Sábado, dia 13. Além do humor, o conversador do costume também não privou o público de uns passos de dança.

Sabemos ao que vamos — histórias trágicas, confissões etílicas, devaneios existenciais e hambúrgueres — mas perguntámos a JP Simões e Pedro Renato se o centenário dos 50 anos do 25 de Abril, celebrado este ano, pode inspirar o novo disco. Responderam que, uma vez, passaram «uma bela tarde» com o Otelo Saraiva de Carvalho. «Dissemos: “Otelo, se estiver a preparar mais uma revolução diga-nos que nós fazemos a banda sonora. E ele: Eh pá, porreiro, pá», conta JP Simões.
Mas faziam mesmo? «Não sei, não confiava muito no Otelo. Se ele preparasse alguma, não sei se poríamos a nossa música ao serviço de mais uma trapalhada com FP25 ou coisa assim, não é o nosso género. Nós fazemos de conta que somos ariscos, mas somos uns meninos de coro, portamo-nos bem, não fazemos mal a ninguém. Verdade seja dita. Mas, se isto virar, a gente vai com esfregonas e parte isto tudo.»
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