O mesmo percurso que, há poucos meses, mostrava um corredor de copa malva, agora exibe a memória visível de um espaço verde retirado: vazios onde as árvores cresciam, troncos pela metade, e o asfalto exposto ao sol.

Este vídeo nasce da continuação de um trabalho anterior, a que chamámos «Jacarandás de Coimbra: a resistência é lilás» por ser ali que a comunidade se juntou em torno dos jacarandás e tipuanas, e lembrando ainda os plátanos abatidos, pedindo que a árvore não fosse vista como mero obstáculo, mas como parte do património urbano e da qualidade de vida.

Agora, a mesa?redonda mudou: o que se discute não é como integrar Metrobus e árvores, mas como conviver com a ausência delas.

Durante um protesto à porta da Câmara de Coimbra, o fotógrafo Mário Jaleco colocou a questão de forma contundente: «As árvores são seres vivos, como nós, e não mobília. Não somos donos disto, isto é tudo nosso e nós somos delas.» Para ele, o abate de árvores «a mais» é um sinal de desrespeito por um sistema vivo que sustenta o ar que respiramos, e não um problema de escolha binária entre «metropolitano ou árvore».

O movimento que se formou à volta desta rua denuncia a falta de diálogo com a autarquia, recordando que houve pedidos repetidos de audição, de explicações técnicas e de alternativas concretas, que, em muitos casos, encontraram silêncio até ao momento em que o abate foi anunciado.

Ao mesmo tempo, a Câmara Municipal de Coimbra argumenta que a intervenção é necessária para a construção da via dedicada ao Metrobus, com a promessa de reposição de espécies arbóreas no futuro.

Entre estas duas posições, o que a imagem mostra é claro: a rua que era lilás, agora é saudade.

O que este vídeo nos pede é, sobretudo, olhar de novo para a cidade, e perguntar: que tipo de espaço público queremos deixar para quem vem depois de nós, e até que ponto estamos dispostos a aceitar que a natureza se torne descartável?

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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