Coimbra tem uma relação curiosa com o tempo. A cabra balia a vida académica do alto da torre da universidade, regendo com o seu toque de sino o calendário dos estudantes. O quarto de hora académico, estabelecido pela necessidade de diferenciar o relógio universitário do relógio da cidade, transformou-se num sempiterno pretexto para a demora nas coisas. Mas esta Coimbra que tolera 15 minutos de atraso, não é a mesma do conceito da «cidade de 15 minutos». Abandonando aquele e adoptando este, Coimbra não teria 15 minutos a perder, teria 15 minutos a ganhar.
Carlos Moreno, urbanista franco-colombiano que formulou o conceito da ville du quart d’heure (a cidade do quarto de hora), sublinha que ele se refere a proximidade, não só e apenas a mobilidade, tecendo uma ideia que lançou a revolução urbanística que está curso em Paris e cujas ondas de choque repercutem intervenções urbanas pelo mundo todo. Até em Coimbra, com vários investigadores da Universidade de Coimbra (UC) a desenvolver o conceito.
A ideia de crono-urbanismo
Para o sociólogo Paulo Peixoto, o conceito baseia-se «na ideia de que as pessoas, a 15 minutos de distância [a pé, de bicicleta ou de transportes públicos] possam ter acesso a tudo o que precisam para o dia-a-dia. Pensamos a cidade em termos de espaço, alguém se lembrou de pensar a cidade em termos de tempo». É o crono-urbanismo, assinala João Monteiro, investigador da UC em matérias de urbanismo e território e cofundador da Associação Re4bilita Coimbra, isto é, «a qualidade de vida é inversamente proporcional ao tempo que passamos das deslocações diárias».

«O conceito é uma recriação, nada revolucionário», assinala João Monteiro, referindo-se à ideia de Carlos Moreno ter amadurecido a partir de diversos conceitos anteriores, como Neighbourhood units, Microdistricts e New Urbanism, entre outros, que abordam a temática da proximidade.
Anabela Ribeiro, professora auxiliar do Departamento de Engenharia Civil da UC, que já entrevistámos, comenta: «A cidade de 15 minutos, não é mais do que a cidade antiga, com o comércio de rua, antes do aparecimento dos centros comerciais, com as actividades de uso diário perto da residência». Paulo Peixoto completa: «É uma questão de proximidade, em todos os sentidos. Proximidade física, do tempo e do espaço para chegar de um sítio a outro. É difícil garantir o lado polifuncional da cidade, que sejam espaços residenciais, [com] serviços e lazer, para favorecer interacção, pelo modo como a cidade se desenvolveu. É uma proposta de proximidade social entre as pessoas, se fazem o percurso a pé ou de bicicleta, cria-se sentido de comunidade».
Sem tempo a perder
Mas com tempo a ganhar. «Em Coimbra [existe] muito a cultura do carro e este conceito tenta combater a má mobilidade implementada nos últimos anos, com o urban sprawl (suburbanização) e suas consequências», diz João Monteiro, «porque existe sempre a dicotomia entre a mobilidade e acessibilidade, acessibilidade associada à proximidade».
Paulo Peixoto também se refere ao fenómeno da suburbanização e aos «hábitos que as pessoas foram desenvolvendo, [estão] tão dependentes do automóvel que não abdicam do seu uso, [pelo que este] conceito lida com muitas resistências culturais. A maneira como nos comportamos na vida tem muito a ver com a maneira como nos comportamos ao volante. O automóvel trouxe muito a cultura da velocidade para as cidades e marca muito aquilo que são as características civilizacionais. Quanto mais as estratégias urbanísticas são feitas para favorecer o automóvel, mais a cidade desenvolve relações económicas globais e externas, não favorecendo a economia local».

O conceito é óptimo porque se associa à descarbonização, desenvolve indicadores de saúde urbana e pública porque o andar a pé e de bicicleta é benéfico. «[Caminhar] 15 minutos é aquilo que toda a gente devia fazer todos os dias, [e seria natural] se a própria cidade tivesse uma matriz de espaço urbano [que o potenciasse]», acrescenta o sociólogo.
Direito à cidade de 15 minutos
Será Coimbra uma cidade de 15 minutos? Os entrevistados são unânimes no não, mas há zonas que o são claramente, como Celas, Solum e até o Bairro Norton de Matos.
Para o ser na globalidade, «implicaria que tudo estivesse a 15 minutos», o que, como refere Paulo Peixoto, quando «olhamos para a malha urbana de Coimbra, a maioria das pessoas não vive numa cidade de 15 minutos. Porque há zonas que se desenvolvem como periferias residenciais, onde será difícil ter uma rede de transportes adequada para que as pessoas pensem como em 15 minutos chegam ao emprego ou deixam os filhos na escola».

Investigadores como Anabela Ribeiro e João Monteiro trabalham este conceito para responder a várias perguntas. Para João Monteiro, a pergunta é se «a cidade de 15 minutos é viável e o que é possível para transformar [Coimbra] em tal». Para contrariar a suburbanização, pode-se compactar a cidade preenchendo vazios urbanos, o infill, ou então densificar, construindo prédios. No cenário de compactação, a equipa de João identificou dezenas de vazios urbanos possíveis de preencher com habitação e respeitando a legislação. Neste cenário teórico, Coimbra ficaria muito reduzida e compacta, e tudo estaria a 15 minutos, excepto trabalho, sendo possível abrigar 40 mil habitantes nesses vazios urbanos, o equivalente a toda a população do município de Coimbra que vive fora da área urbana.
Na proximidade está o ganho
Na discussão do conceito é também importante perceber onde começa a propaganda. Para Anabela Ribeiro, «nem os próprios políticos sabem do que estão a falar, é como a implementação das ciclovias, que têm sido feitas sem critério. A instrumentalização política é um problema. As pessoas interpretam um conceito para os políticos obrigarem as pessoas andar a pé pela descarbonização. A minha preocupação é a potencialidade [do conceito] gerar equívocos».

Anabela Ribeiro comenta a unidade de vizinhança, a comunidade de bairro, que «não é mais do que desenho urbano, a concentração de actividade, criar unidades de vizinhança». Com o carro «atravessa-se a cidade toda, [os cidadãos] não têm noção do que há à volta. Se formos de bicicleta ou a pé», comenta João Monteiro, «conhece o território com a sua própria casa, aprende a conhecer a cidade lentamente. E, ao fazê-lo, desenvolve o comércio local, fortalece o sentido de pertença e as comunidades, vivemos genuinamente as nossas cidades».
A cidade invisível
Para Paulo Peixoto, «A cidade de 15 minutos é uma ideia benigna, mas para quem tem recursos. Espera-se que tenhamos tudo a 15 minutos, mas a centralidade tem relacionado a si um efeito de exclusão das classes mais desfavorecidas, da cidade invisível que alimenta os bastidores».

O trabalho é o grande desafio, sobretudo no reduzir o movimento pendular, porque nem sempre as oportunidades de trabalho são as mais próximas. Isto assinala a mobilidade urbana entre o ser opção ou obrigação. Em Coimbra seria de potenciar centralidades equidistantes, em que os habitantes tenham acesso a tudo de forma equitativa. A cidade propõe a polifuncionalidade e também a mistura social, «mais difícil de trabalhar do que a mistura funcional», comenta Paulo Peixoto. Celas e Solum são espaços de 15 minutos para «quem mora lá, mas para quem vem de fora, não são 15, são 50 minutos ou mais. Temos maior facilidade de ver da perspectiva de quem está integrado do que quem não está integrado».
Centralidades possíveis
Se bem que o conceito não deva ser visto como uma receita, algo realizável da sua plenitude, é uma boa ideia. Algumas novas centralidades residenciais, como a Quinta da Portela, não respondem ao conceito, não são cidade de 15 minutos, porque carecem de muitos serviços e não têm a polifuncionalidade que deviam ter. É nestes bairros que prevalece o uso automóvel.
Ainda assim, aparte as diferenças entre zonas da cidade, assinala Paulo Peixoto, «Coimbra tem condições para melhorar muito esta questão das centralidades e para trabalhar estas perspectivas da cidade de 15 minutos, isso não duvido, [até] na perspectiva do desenvolvimento desta rede de transportes novos em Coimbra, ou até da própria concentração de serviços, é possível e é desejável que isso se faça».

Para a vereadora Ana Bastos, a «aplicação do conceito obriga a repensar o espaço público», dificultando a sua aplicabilidade. Assim, refere, «a acção da CMC tem-se centrado ao nível do planeamento de zonas em desenvolvimento urbanístico», mas cita diversas acções que incluem, «de forma, mais ou menos formal, o conceito da cidade de 15 minutos»: a revisão do Plano Director Municipal (PDM), em elaboração, o Plano de Pormenor da Estação Intermodal de Coimbra, o estudo urbanístico da Solum [ver lateral], o percurso pedonal de ligação do Seminário Maior à Rua do Brasil e o estudo em elaboração para a criação de uma Zona Residencial e de Coexistência (ZRC) no Bairro Norton de Matos.
Com todo o trabalho a ser explorado sobre esta temática na UC, João Monteiro deixa o repto: «Planear é saber aplicar a solução possível com todos os constrangimentos do nosso espaço urbano. Nunca teremos uma solução para toda a gente, vamos prejudicar sempre alguém. Temos muito conhecimento a ser produzido aqui. Se a UC e a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) se unissem, podiam-se construir coisas muito úteis. Não é possível a CMC ir ao pormenor, não há tempo. Mas a UC pode ir».
