«Quando se ouve falar de bebés que morreram porque não houve um hospital perto, é assustador», confidencia-nos Sofia Loureiro. Residente na Suíça há 10 anos, mantém vivo o seu desejo de engravidar e tem sido seguida pela obstetrícia nacional, mas a preocupação com os relatos das situações que diz que se assemelham a «uma bola de neve, em que metem os problemas todos em cima das pessoas sem se preocupar em falar muito à frente» tem fundamento.
Além do acompanhamento médico, Sofia tem contado com o apoio do No Teu Ventre, um centro dedicado a ajudar as pessoas a lidar com os variados obstáculos e situações derivadas da infertilidade e perda gestacional. Não se lembra de como descobriu a iniciativa, apenas que foi através de uma pesquisa sobre as questões relativas à infertilidade nas redes sociais. Sentiu espaço para partilhar a sua situação. «Para mim seria mais fácil poder falar daquilo que alguém não só estudou, mas passou pelo mesmo.»

Oficializada a 14 de Fevereiro deste ano, o No Teu Ventre começou por ser uma página de Instagram criada há cerca de dois anos, mas alicerça-se numa amizade que já dura há sete. Ana Coimbra e Joana Machado conheceram-se pela partilha de experiências relativas ao processo de fertilização in vitro. «Nunca mais deixei de falar com a Joana desde então, não só porque temos filhas que nasceram com uma semana de diferença, mas também porque tivemos esse acompanhar uma da outra na gravidez», revela Ana.
«Foi muito importante para as pessoas conhecerem outras histórias, até para ver as coisas de um ponto de vista diferente sobre a infertilidade», salienta, explicando que a realidade actual é a de que seis em cada 10 mulheres que não conseguem ter filhos. Um diagnóstico sempre complicado de receber e cuja causalidade nunca é certeira, porque se deve a um sem número de razões e factores. A idade é geralmente apontada como factor primordial mas há outros.
Embora «a partir dos 35 anos a fertilidade na mulher sofra um decréscimo muito acentuado», Ana realça que o problema não se restringe ao género feminino: «a infertilidade no homem e na mulher é exactamente na mesma percentagem, mais ou menos 33% para cada um e 33% para casos do casal, em que o homem e a mulher têm problemas conjuntos». Refere ainda uma percentagem de casos em que uma causa nunca chega a ser diagnosticada, a chamada infertilidade sem causa aparente (ISCA).
«Nem sempre vamos conseguir uma gravidez natural, mas vamos potenciar as hipóteses de sucesso num tratamento de procriação medicamente assistida e, por vezes, conseguimos reverter ou melhorar o suficiente para se conseguir uma concepção natural.»
Ana Coimbra, terapeuta
É perante este vasto leque indiciário que a No Teu Ventre procura ser uma lupa minuciosa, pois «a infertilidade é vista como “uma doença-que-não-é”, quando é uma condição repleta de questões que raramente são abordadas, como bloqueios emocionais e carências nutricionais». Neste ponto, Joana Machado referiu-nos que «a iniciativa surgiu com as nossas conversas para colmatar um pouco uma falha que nós encontrámos também durante o nosso processo, ou seja, aquele trabalho complementar à ciência convencional».
Essa lacuna foi evidente para Joana ao aperceber-se que a visão nutricional foi uma vertente que nunca lhe foi sugerido ou abordado durante o seu tratamento. «Sempre vi a nutrição como algo que potencia e ajuda na prevenção e tratamento de doenças e não só na contagem de calorias», revela-nos a nutricionista que, até 2018, trabalhou na área do emagrecimento. Ao concluir que essa era uma nutrição através da qual não conseguia efectivamente ajudar os pacientes que procuravam, muda-se para o ramo da nutrição funcional.

Trata-se de um ramo da nutrição que olha para a pessoa como um todo e não pensa apenas no objectivo da pessoa, uma abordagem que encontra eco no cerne (focado na saúde física e mental) da No Teu Ventre. «Através de pesquisas conseguimos aqui perceber o grande impacto que estas áreas têm e que os casais que passam por isto precisam», sublinha Joana. «É desgastante», replica Ana, ao salientar que tal esgotamento pode ser financeiro ou, mais comummente, emocional.
«Há pessoas que já não conseguem lidar com isto, ou por a relação estar fragilizada ou porque os tratamentos são fisicamente muito agressivos. Depois há aqueles que andam a lutar com unhas e dentes, mas, socialmente, não se passa nada e está tudo bem.» Terapeuta integrativa há mais de 10 anos, entende que a infertilidade deve ser abordada como uma doença grave, onde a solução passa pela reavaliação integral e integrativa: «O ponto fundamental não é se vamos ter um bebe, é olharmos para nós.»

Embora anote que «não é um processo linear nem há certos nem errados, pois todas as pessoas vão vivenciar este grande abanão na vida de forma diferente e o nosso papel é apenas dotá-las de ferramentas para o caminho ser mais leve e tentar reverter as situações», assinala dialécticas distintas: «nos homens é mais difícil assumir e falar disto, até porque há muito aquele estigma machista de que a infertilidade tem a ver com a potência sexual, o que não tem nada a ver.»
Já Joana realça «outro estigma, o da investigação, de quando o casal não está a conseguir engravidar começar sempre primeiro pela mulher e o homem ser o último foco». Para abater estes preconceitos sociais, a No Teu Ventre disponibiliza serviços de aconselhamento psicológico inclusivo (tanto para homens como para mulheres), no ideal da tríade integrativa que preconizam, composta pelo bem-estar corporal, mental e espiritual. Fazem-no através do Reiki, técnica japonesa baseada na pseudociência. Embora admita que seja complexo chegar a quem é céptico, Ana esclarece que «não tem nada a ver com esoterismo e é relativamente simples», e clarifica: «Nunca forçamos ninguém a experimentar, apenas achamos que é a ferramenta de mais fácil acesso e mais pura para trabalhar estas questões de desenvolvimento pessoal».
«A nutrição funcional instiga a pessoa como um todo, estando atenta a todos os sintomas, independentemente de se ter ou não um diagnóstico. Tenta sempre perceber qual é a raiz do problema para tentar resolver de uma forma mais assertiva. e não apenas tratar o sintoma.»
Joana Machado, nutricionista
Apontam-nos que a resistência da parte médica para abrir um bocado o flanco a ferramentas de medicina alternativa como o Reiki ou a acupunctura é um dos maiores problemas da medicina nacional. Sobretudo nas questões de fertilidade, onde os procedimentos são limitados em termos financeiros e resumem-se a uma cadeia de exames numa esquemática de tentativa e erro, acabando por chegar a um limite exaustivo quer a nível médico quer a nível pessoal.
«As pessoas têm a cabeça embrulhada num novelo e deixam tudo nas mãos dos médicos e isto é o mesmo que correr uma maratona sem fazer preparação. Por vezes querem encontrar em nós algo que não encontram na equipa médica, mas nós não somos substitutos dos médicos, somos uma mão para ajudar neste processo.» Apesar dessa mão manifestar-se maioritariamente no online, entende que o presencial faz toda a diferença num caminho que se prova sempre como muito solitário.

Assim, além de um Retiro para a Infertilidade e Perda Gestacional e Neonatal (que se repete em 2024, em data a anunciar), a No Teu Ventre conta com uma parceria estabelecida com a Clínica Médica do Porto e está a fechar protocolos com locais em Coimbra e Lisboa para eventual disponibilização de espaços e serviços no âmbito da saúde da mulher.
Posturas de dinamização presencial que vão ao encontro da empatia íntegra que muitos dos seus pacientes – como Sofia – precisam e partilham entre si: «Não é bem o falar-se em português, é o falarmos a mesma língua em relação à saúde e àquilo que estamos a passar». Conexão que o momento em que publicamos este artigo ganha também nova dimensão com o lançamento d’O Ninho, um curso online destinado a mulheres que querem ter uma gravidez saudável e que fornece inúmeras ferramentas e conhecimento sobre os cuidados físicos e emocionais a ter na pré-concepção.
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