A ameaça do extremismo político não é nova, mas tem vindo a crescer mais e mais ao longo dos últimos anos, tanto em Portugal como lá fora. Por cá, temos o partido Chega, que conseguiu 7,18% dos votos nas últimas legislativas e conta com 12 deputados na Assembleia da República, e lá fora temos ou tivemos casos de líderes como Donald Trump, nos Estados Unidos da América (EUA), Jair Bolsonaro, no Brasil, Viktor Orbán, na Hungria, ou, mais recentemente, Giorgia Meloni, em Itália.
O ataque ao Capitólio dos EUA, em 2021, ou o ataque às sedes dos Três Poderes do Brasil, em 2023, tornaram o tema ainda mais relevante, bem como o seu combate. O OppAttune – Countering Oppositional Political Extremism through Attuned Dialogue: Track, Attune, Limit é um projeto que procura estudar o extremismo e desenhar uma estratégia para estimular o diálogo político e social não violento, desenvolvido por um consórcio que junta 17 instituições, oriundas de 15 países, incluindo Portugal e a Universidade de Coimbra (UC), coordenado pela Panteion University na Grécia e co-coordenada cientificamente pela The Open University e pela Glasgow Calendonian University, no Reino Unido. Arrancou a 1 de abril e prolonga-se até março de 2026, financiado pela Comissão Europeia através do programa Horizonte Europa, no âmbito da call Reshaping Democracies.

«O Opp Attune tem três objetivos: Track, Attune, Limit. Rastrear a evolução das narrativas políticas extremistas e procurar os motores que são psicológicos, sociais, políticos e antropológicos do extremismo. Sintonizar, ou seja, construir a capacidade para diálogo público através de uma modelação que vai ser feita de como as narrativas políticas extremistas impactam o diálogo social e político. Limitar, o objetivo final do projeto, através da construção de um modelo que visa desenvolver uma série de estratégias e de eventos junto da sociedade, com o intuito de dar conhecimento das narrativas extremistas e o potencial que o extremismo e o pensamento de oposição têm para tornar-se em práticas políticas violentas que perturbam o funcionamento democrático», começa por explicar-nos Joana Ricarte, investigadora da UC e coordenadora do projeto em Portugal.
«A maior parte da literatura que olha para o extremismo procura agir sobre o extremo. Este projeto parte do pressuposto que todos temos potencial para nos extremarmos. Como todos temos esse potencial, o que precisamos para manter a resiliência democrática é da aquisição de competências que nos permitam compreender o pensamento de oposição, que é necessário e faz parte da base da democracia, e que o problema do pensamento de oposição é apenas quando se torna violento, ou seja, quando vai para o extremo. Este projeto não vai olhar para o espectro minoritário – cada vez com mais projeção, mas felizmente minoritário – do extremismo. Vai olhar para quem não está nesse espetro, para o potencial dessas pessoas irem parar a esse espetro e para como podemos fornecer uma série de ferramentas que permitam aos cidadãos, aos políticos, aos media, aos jovens, aos influencers, aos policymakers ou à comunidade de investigação lidar com o pensamento de oposição», elucida.

Coimbra é colíder do work package responsável pela implementação e pelas atividades de implementação do projeto, que incluem uma Academia de Inverno. «A nível de proximidade com a população, com políticos, com partidos, etc., vamos ter vários eventos, incluindo a academia de inverno, atividades de teatro de rua, fóruns com cidadãos e várias outras coisas (…) É uma ambição do projeto conseguir trazer para Coimbra uma série de pessoas que estão envolvidas ao nível mais alto de construção de políticas europeias para participar no movimento de disseminação do resultado do projeto na Winter Academy, em 2025».
Em março de 2026, altura em que o projeto chegará ao fim, este «modelo de sintonização» vai materializar-se através da criação da ferramenta I-Attune, «uma ferramenta que vai permitir às pessoas fazerem um autoteste para perceberam quanto as suas posições tendem ao extremismo, de forma a que possam buscar a sintonização. A ferramenta, já partindo do que vai ser a investigação, também vai fornecer uma série de estratégias para que as pessoas consigam combater esses aspetos de extremismo que são identificados no autoteste», explica a especialista em Ciência Política e Relações Internacionais.
O caso português
O caso português, de acordo com Joana Ricarte, faz parte de «um movimento transnacional de extrema direita que tem ganho muita força, que se articula através das redes e do ambiente digital e que tem agido de uma forma organizada», porém, a investigadora garante que «Portugal tem o seu contexto próprio» e distingue, por exemplo, os perfis de André Ventura e Jair Bolsonaro.
«O perfil político do André Ventura não é o perfil de um oportunista clássico como Jair Bolsonaro. É um oportunista mais racional, diria. É um investigador, uma pessoa que fez a sua tese de doutoramento na área de direito sobre democracias, foi um dos melhores alunos da Universidade de Lisboa na área de direito e é uma pessoa que me parece que tem um cálculo político muito mais virado para o marketing político do que o caso do Jair Bolsonaro, que é muito reativo. Nesse sentido, é uma pessoa muito perigosa, que sabe muito bem o que está a fazer. Portugal, nesse contexto, capitaliza o pensamento estratégico de uma pessoa racional. Isso é relevante para o exemplo português», continua.

Em Portugal, o OppAttune vai ser implementado em Coimbra, Évora, Portalegre, Guarda, Viseu, Faro e Vila Real, zonas em que houve um crescimento exponencial do Chega. «Eram cidades que eram, essencialmente, bastiões do comunismo e que tiveram uma virada. Pode argumentar-se, por outra linha, que não foi bem uma virada, que se sai de um extremo para outro extremo, mas a bem ou a mal o PC é um partido estabelecido, que faz parte do sistema democrático. Por isso, embora seja um partido de extrema esquerda, não é um partido de extremo como um Chega».
As tentativas de equivalência entre o PCP e o Chega, aliás, não fazem qualquer sentido para Joana Ricarte. «Quando pensamos no espetro político de uma perspetiva linear, em que há extremos, é óbvio que o partido mais à esquerda do espetro político português é o Partido Comunista. É um partido revolucionário por definição e, sendo revolucionário, pretende uma alteração profunda das estruturas políticas e sociais e, por isso, é um partido que, nesse sentido, está num extremo. Do outro lado, o que está mais à direita, que busca também uma alteração profunda das relações sociais e políticas e que, por isso, não deixa de ser uma de alguma forma um partido revolucionário, é o Chega. Agora, não há aqui qualquer tipo de comparação possível entre o Chega e o Partido Comunista», começa por clarificar.
«O Partido Comunista é o partido mais antigo da democracia portuguesa, que parte de uma perspetiva de um comunismo e marxismo históricos, mas que tem evoluído ao longo do tempo. Tem meio dúzia de coisas anacrónicas, mas é um partido que evoluiu profundamente na sua adaptação ao sistema democrático. Nesse sentido, é completamente diferente do Chega. Até porque o Partido Comunista, pelo menos desde o 25 de abril, nunca disse que o objetivo era alterar as relações democráticas ou deitar abaixo qualquer tipo de base democrática do Estado português, enquanto o Chega é explícito nisso. O Chega é explícito no governar para o que se considera que são as tais das maiorias, as minorias que se adequem. Enfim… O “nós e os outros”, um discurso muito sectário, que não é o discurso do PC», acrescenta.
Como lidar com o discurso extremista
Seja num jantar de família, numa reunião de amigos ou numa outra situação, já todos tivemos de lidar com alguém que defende ideias extremistas. A situação nem sempre é fácil e termina, muitas vezes, em discussão. No entanto, a coordenadora do projeto na Universidade de Coimbra explica que não é esse o caminho.
«É muito importante que as pessoas percebam que o posicionamento agressivo contra posicionamentos opostos gera defensibilidade. Uma forma de lidar com isso é procurar desconstruir os argumentos, mesmo os mais absurdos. Eu compreendo que seja difícil. Quando saímos do âmbito da realidade, não é fácil trazer as pessoas de volta para a realidade de uma forma que não seja estupidificadora, mas é muito importante que assim seja. Existem muito estudos sobre isto, sobre como as pessoas tendem a extremar-se ainda mais e até a buscar confirmações, as profecias autorrealizáveis – self-fulfilling prophecies -, que fazem parte de um extremar ainda maior», destaca.

«Quando aparece um elemento extremado na sua família, aquele primo distante que aparece com uma teoria da conspiração, e todos respondem que aquilo é estúpido e não é coerente com a realidade ou que ele precisa de se tratar, quanto mais ele escuta isso, mais ele vai pensar “eles não estão a ver” ou “preciso de os resgatar”. Então, uma das coisas que é muito importante é o debate parta do pressuposto que não devemos gerar consensos e que o oposto do extremismo não é o consenso e a eliminação da diferença. Isso é uma das coisas que está na base deste projeto. O objetivo da sintonização não está na eliminação da diferença e no convencimento absoluto, está na desconstrução de ideias e pressupostos através da informação, como é óbvio, mas também da compreensão de perspetivas diferentes sem que isso tenha de gerar uma perspetiva completamente oposta para a defesa de valores», acrescenta.
«Se eu fosse deixar alguma sugestão, é utilizar bem as palavras, procurar desconstruir as informações e considerar que as pessoas que se extremaram não são pessoas perdidas ou com incapacidades intelectuais, são só pessoas que se sentiram marginalizadas pelo sistema e abandonadas pela política e que vão buscar outras respostas, que são fáceis e muitas vezes são mágicas, que explicam a desordem do Mundo como se houvesse uma qualquer ordem ali por trás. Isso é reconstruível, não é preciso ser através de hipérboles, do exagero e da agressividade que se desconstrói, há outras formas de o fazer», termina.
