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Já se sente o efeito da «aposta» da Feedzai na Universidade de Coimbra

Um painel sensorial e interactivo gigante e um laboratório literalmente incrível são alguns dos frutos de quase dois anos, 300 mil euros e muita inspiração investidos no projecto First Foundation, no Departamento de Engenharia Informática da Faculdade de Ciências e Tecnologia.

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Fotografia: Mário Canelas

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Em 1878, o pai de Wilbur e Orville Wright ter-lhes-à trazido de uma viagem uma espécie de helicóptero, com 30 centímetros de comprimento, baseado numa invenção do pioneiro da aviação francês Alphonse Pénaud. Era de papel, bambu e cortiça com uma tira de borracha. Os irmãos brincaram com ele até se partir, mas depois construíram um novo eles mesmos. Anos mais tarde, os inventores e pioneiros da aviação, que desenvolveram a primeira máquina voadora mais pesada do que o ar e fizeram o primeiro voo controlado em 1903, relataram que foram as experiências com o brinquedo dado pelo pai que lhes despertaram o interesse para voar. O resto é História e começou numa pequena loja e oficina de bicicletas. 

É Paulo Marques que nos lembra dos irmãos Wright enquanto conversamos no Departamento de Engenharia Informática (DEI) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Foi aqui que estudou, leccionou e, há dois anos, quis dar de volta juntamente com os antigos colegas e actuais sócios, através do projecto First Foundation. Este é o segundo ano em que a Feedzai, empresa que fundou com Nuno Sebastião e Pedro Bizarro em 2008, investe 150 mil euros por ano no DEI, durante três anos, para inspirar alunos e professores a saírem da zona de conforto e promoverem o olhar para o futuro. Não é apenas mais uma bolsa. É mais do que isso e o fundador da tecnológica unicórnio nacional, que nasceu em Coimbra e hoje vale mais de mil milhões de euros, explica porquê.

Motivação e impacto

Uma das propostas feitas ao abrigo do First Foundation vê-se logo à entrada do DEI. Não passa despercebida. Chama-se FeedNPlay e é uma instalação interactiva que dá ao departamento uma nova forma de comunicar e interagir com a comunidade. Passa de tudo no longo conjunto de cinco grandes LCD montados na parede do corredor mais populoso do departamento. Animações, textos, fotografias, tipografia em movimento, obras de arte ao vivo e interactivas, instalações e experiências multimédia. «É uma montra de diversos projectos, criados por alunos ou investigadores, até de fora do departamento», explica Tiago Martins. «Às vezes acabamos uma aula, vimos aqui com os alunos e dizemos: “Olha, quero que o teu projecto venha para aqui e para isso acontecer só tens de fazer isto, isto e isto”. De repente o próprio aluno acaba por interagir com um dispositivo que não é assim tão fácil de encontrar no mercado, tem uma resolução brutal, um formato altamente panorâmico e isso cria desafios», continua. O potencial é grande, ainda por cima replicável noutros lugares.

Com 32 anos, 15 no DEI, Tiago foi um dos primeiros alunos do curso de Design e Multimédia. Depois fez mestrado, doutoramento em Ciências e Tecnologia da Informação e passou para o outro lado da barricada – é professor desde 2014. Um percurso semelhante ao de João Cunha com quem concebeu o FeedNPlay e que diz que: «Esta primeira fase é para perceber o que é que se pode fazer com isto, para a frente o objectivo é estender um pouco mais». Tiago acrescenta que o mais bonito é que «já deixou de ser um corredor onde as pessoas só passam; agora param e sorriem. Até o senhor dos correios já apanhei, no outro dia, a andar para trás e para a frente em frente» interagindo com os ecrãs que têm câmaras e sensores associados. João lembrou a experiência que fizeram com os animais de estimação, quando pediram que todos enviassem fotos dos seus. Uma ideia «tão simples» mas com muito potencial de engajamento, não fosse esse um dos principais objectivos do First Foundation: a motivação.

Tiago Cruz e Tiago Martins, vencedores do Prémio Feedzai de Excelência no Ensino

«O FeedNPlay não foi escolhido num catálogo. Exigiu pensamento, algum risco, principalmente envolvendo dinheiro, investimento», conta Tiago quando o painel mostra a prestação de contas da equipa. Ele que também venceu recentemente o Prémio Feedzai de Excelência no Ensino, um prémio de 15 mil euros atribuído anualmente ao professor ou professora que propõe e executa a mais profunda mudança curricular e métodos de ensino num curso universitário, reconhecido pelos alunos e pares.

«Estamos numa sala de aula mas vamos tentar dar-lhe uma roupagem de laboratório, vamos fazer com que os alunos sintam necessidade de entender o estado da arte num determinado tema ou área, identificarem uma oportunidade e desenvolverem uma solução. Fazendo isto estão a fazer ciência. Foi isso que levou ao prémio de excelência», explica o docente que garante que ensinar e ter uma relação directa e horizontal com os alunos «é um antídoto à estagnação» e que «já sente algum impacto [do First Foundation] em alunos que querem seguir investigação ou fazer dissertações de mestrado mais disruptivas».

Perguntámos se tinha de ficar tudo nas salas e corredores do departamento. «Não e Coimbra está a ficar cada vez melhor, também pelo que se está a desenvolver aqui no departamento. Faz falta mostrar. Este apoio da Feedzai era o que faltava e já estamos a avançar a uma velocidade muito grande na direcção de conseguir estimular cada vez mais a cidade», responde João Cunha. «É uma questão importante», remata Tiago, «como é que o que fazemos no laboratório, para além de escrever o artigo ou apresentar entre pares, é possível aplicar na cidade?»

As quatro perguntas

Sem rodeios, Paulo Marques recorda: «Lembro-me de estudar microprocessadores e o meu professor dizer: “Ah, mas o meu objectivo não é pôr-vos a montar microprocessadores”. Isso para mim foi chocante. Se o livro era o mesmo, se eles no MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts] ou [na Universidade de] Stanford os fazem, por que é que aqui não podemos fazer? Por vezes as coisas começam já tortas e não devido a uma questão de recursos, mas a uma forma de pensa». Ao lado, Edmundo Monteiro, antigo professor de Paulo e actual director do DEI, concorda com Paulo que também diz que uma das coisas mais problemáticas em Portugal em geral, e na universidade de Coimbra em particular, é o conformismo. «Há sempre uma desculpa para não ser possível. A primeira reacção é um não.»

Antes de fundar a Feedzai e ser CTO da empresa, Paulo Marques foi docente não só na Universidade de Coimbra como na Carnegie Mellon University e trabalhou em inúmeros projetos com entidades como a Agência Espacial Europeia, a Microsoft, a Critical Software e a Siemens. Foi também um dos sócios fundadores da Wit Software e é investidor em vários projetos e empresas como a start up Neuraspace, sediada em Coimbra. «Embora as coisas sejam muito difíceis no terreno, porque os recursos são limitados, da minha experiência o que acontece é: se houver efectivamente vontade e se as pessoas lutarem, de uma forma ou de outra os recursos financeiros aparecem, há formas de o conseguir. O nosso grande entrave em geral é este problema de mentalidade», continua o Paulo e chuta os exemplos de Elon Musk e dos irmãos Wright, afirmando que «a crença é: é possível fazer coisas diferentes se mudarmos o sistema operativo das pessoas.» 

Edmundo Monteiro e Paulo Marques

«O Paulo e os sócios queriam criar esse tipo de estímulos e de impacto aqui no departamento», conta Edmundo Monteiro. O DEI aceitou a «aposta» de 450 000€ – entregues propositadamente de forma gradual, não fosse o propósito mudar mentalidades – em que a única coisa que os interessados têm de fazer para participar é responder a quatro perguntas para poderem gastá-los: 

1. Como é que este projecto ou iniciativa projecta as pessoas no futuro?
2. Como é que promove standards mais elevados de excelência?
3. Como é que tira as pessoas da sua zona de conforto? 

4. Como é que cria círculos de realimentação positiva?

«No fundo o que queremos ver é um brilhozinho nos olhos das pessoas», explica Paulo Marques, que acredita que «se é para fazer, é para fazer bem e que é importante a comparação com os melhores. «No início da Feedzai, muitas vezes perguntavam-nos por que é que não íamos para Angola ou Moçambique, por ser relativamente fácil conseguir projectos e dinheiro lá, mas sempre nos recusamos a fazer isso porque para montar uma empresa líder a nível mundial tínhamos de lutar nos mercados mais exigente e mais competitivos, a par com os melhores, independentemente de não haver um retorno económico imediato.» 

Projectos vencedores

Há propostas criadas de raiz e outras que já existiam e foram integradas e potenciadas através do projecto de parceria Feedzai/UC. É o caso da hackathon Shift APPens, com a nona edição prevista para Abril, uma competição cujo objectivo principal é criar uma aplicação em 48 horas, que promove não apenas o trabalho colaborativo e construção de comunidade, como o encontro entre a nova geração de estudantes e profissionais da área tecnológica com profissionais já estabelecidos no mercado.

De resto, integram o First Foundation o projecto Soundscape4DEI – Tornar o invisível audível, que consiste em utilizar a audição para mergulhar quer o visitante quer a comunidade DEI na intensa actividade que está a ser desenvolvida, associando sons naturais, como água, fogo, ar e terra a actividades específicas; o Talento DEI, que identifica e motiva estudantes talentosos do ensino secundário a nível nacional para explorar as tecnologias da informação como uma opção possível para a sua carreira futura e criar consciência da excelência e das oportunidades que a DEI pode proporcionar.

O Theatre@DEI – Prender os Relâmpagos e Amarrar os Deuses é uma peça de teatro original que mostra ao grande público uma área de investigação que dança entre a utopia e o futuro: o desenvolvimento de algoritmos de previsão de electroencefalograma e a forma de os explicar aos médicos. Resulta de uma colaboração entre o Centro de Informática e Sistemas da Universidade de Coimbra e a companhia de teatro Marionet, envolvendo também pacientes e clínicos do Centro de Monitorização da Epilepsia do Centro Hospitalar e Universitário da Universidade de Coimbra. O TOPDEI – Formação para programação competitiva propõe um conjunto de actividades que permite preparar uma série de estudantes para uma programação competitiva de forma regular, intensiva e sustentada. Também foi criado o VRLAB – Laboratório de Realidade Virtual e o Amazing LAB – Ver maravilhoso em cada estudante

Espaço, liberdade e autonomia

Paulo Marques diz que, quando dá aulas, costuma dizer aos alunos: «Imaginem que fazem o curso, até tiram boas notas, mas chegam ao fim e a única coisa que têm para mostrar são as notas? Há tanta coisa que uma pessoa pode fazer, estágios no estrangeiro, projectos de investigação, desenvolver capacidades. O que vocês têm de ter no final do curso é uma história para contar. Quer seja à família, a futuros empregadores ou numa entrevista para um programa doutoral. É isso que torna as nossas vidas mais ricas.»

Tiago Cruz partilha a forma de ensinar. Também ganhou o Prémio Feedzai de Excelência no Ensino este ano, que não é apenas uma recompensa pelo trabalho feito mas uma distinção pelo contágio e estímulo de um determinado modo de ensinar. «Quando financiamos as bolsas de talento, que estão a mudar radicalmente o panorama dos estudantes do departamento, estamos a conseguir trazer alunos muito mais qualificados para o departamento. O que dissemos foi: por cada bolsa que colocamos os grupos de investigação têm de contribuir com uma bolsa e isto torna as coisas maiores do que a soma das partes, fazendo isto sucessivamente é uma bola de neve. É o que permite alavancar os vários ecossistemas», explica Paulo Marques, que vê o First Foundation como um «catalizador de mudança no departamento e na universidade».

Mas não só. Tiago Cruz vai sair entretanto para uma oficina com alunos do 1º ano no Jardim-Escola João de Deus. «Estão a ser o meu balão de ensaio para um programa informal de Tecnologias da Informação para crianças e confesso que eu próprio estou a aprender. Não é o meu público natural, mas tem entusiasmo! Não há filtro, se eles não gostam eu sou o primeiro a saber. É desafiante mas também é compensador. Se eles não quiserem parar eu fico feliz, a semente fica plantada.»

Tiago Cruz no Amazing Lab do Departamento de Engenharia Informática da Universidade de Coimbra

Só este ano, mais de 400 alunos já participaram nas oficinas do Amazing Lab, tem um espaço físico no primeiro andar do DEI. Um «espaço de criatividade» com o objectivo de receber quem tiver ideias e quiser pô-las em prática, sem que a falta de recursos seja uma desculpa. «Isto está pensado para receber visitantes e servir o público aqui do departamento, que é bastante diversificado», explica Tiago Cruz. Vemos impressoras 3D ao lado de máquinas de corte de laser, serrotes e óculos de realidade virtual que, segundo o docente, dão aos interessados «autonomia para fazerem os seus projectos próprios, não só para as disciplinas». Tiago aponta para um autómato, que está ali porque «alguém quis aprender mais sobre o assunto e dá para brincar com aquilo e perceber como funciona» e voltamos a pensar nos irmãos Wright. 

Outra particularidade é que, para os alunos do DEI, há kits individuais que podem levar para casa durante um semestre inteiro. «A regra é simples: não tenham medo de experimentar. A última coisa que queremos é ver um kit destes por abrir. Funciona muito bem. Se eu não tentar fazer, eu não vou aprender. É algo que queremos contrariar: o imobilismo.» Também defensor de que formar não é apenas dar canudos, Tiago assegura que ligar a parte física com a parte de programação dá frutos importantes porque permite que as matérias colem de uma forma natural e não necessariamente por alguém ter mandado fazer.

«A ideia é quando falharem voltarem a tentar, em vez de desistirem», comenta Paulo Marques, que admite que ver estes resultados «é espectacular», afinal com um «investimento relativamente pequeno consegue-se tocar umas boas centenas de pessoas e eventualmente mudar vidas». Com experiência profissional em países como a Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos da América, o empresário partilha que «em todo o lado os engenheiros portugueses são tidos em muito boa conta. E uma pessoa pensa: “Então por que é que não existem mais empresas e mais criação de valor em geral em Portugal?” Eu acho que tem a ver com esta questão de acreditar que podemos fazer algo no mundo. Formatamos os miúdos desde muito cedo para escutarem e regurgitar isso num teste que a seguir esquecem. Uma pessoa tem de dar os fundamentais mas, acima de tudo, tem de passar a toda essa gente a confiança de que eles conseguem efectivamente criar coisas.» 

«Contentamo-nos em resolver problemas», atira Tiago Cruz. «Falta aquele extra que é: “Eu consegui como resolver um problema, será que não pode haver mais alguém a beneficiar disto? Desautorizamos as crianças no que diz respeito a resolverem os problemas. Elas estão autorizadas a resolver os problemas que nós achamos que elas devem resolver e de uma certa forma. Temos o hábito de desconectar os conteúdos das soluções. E mais, mostrar às meninas que a engenharia não é uma coisa de meninos. Eu tenho essa agenda secreta. Há imenso potencial que se desperdiça por causa do preconceito.» 

Cerca de um terço do DEI está envolvido no First Foundation. Em cerca de 60 docentes, 50 são homens mas entre os 1600 alunos de três licenciaturas, cinco mestrados e dois doutoramentos uma grande fatia já é feminina, de acordo com o director do departamento. Sobretudo graças aos cursos de Design e Multimédia e Ciência de Dados. «Já não existe a ideia do informático nerd e ajuda o facto de ser uma profissão com pleno emprego, ganhar-se relativamente bem e haver casos de sucesso de mulheres que constroem carreiras notáveis.» Já para não falar do facto de só se conseguir desenvolver software cruzando competências com áreas como o design, gestão de produto e até psicologia. Paulo resume: «Hoje em dia a informática não é o bit e o bite, é a representação de todo o mundo num pequeno ecossistema.»

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