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Luna Fest: dois amigos exigem o impossível e o resultado é sangue, suor e rock’n’roll

Com audácia festivaleira e espírito empreendedor, mas também solidário e comunitário, Victor Torpedo e Tito Santana fazem aterrar na Praça da Canção uma série de artistas como Devo e John Cale - e com eles muitos fãs nacionais e internacionais.

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Fotografia: Mário Canelas

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«Aqui, no Pinga Amor, era habitual gozarem comigo quando dizia que um dos meus sonhos era ter um gangue do rock e juntar os artistas todos daqui com outras comunidades fora de Coimbra e do país. Quando disse isso ao Vitinho foi o contrário. Ele respondeu: E porque não?». O Vitinho em questão é a alcunha afectuosa com que usam Tito Santana e todos os clientes daquele que é actualmente um dos bares mais dinâmicos da cidade quando se referem a Victor Torpedo, figura emblemática do rock nacional.

Entre paredes forradas a fotografias de artistas de Coimbra, foi no «curto, mas intenso» espaço da Rua António Vasconcelos que conversámos sobre a parceria entre o músico e o empresário. Assente numa amizade de longa data, estão a organizar o primeiro Luna Fest, projecto que Victor e Tito têm vindo a germinar há anos e que, de 16 a 20 de Agosto, põe Coimbra no mapa dos festivais de verão nacionais. Não só pela presença de nomes emblemáticos do rock como John Cale e os Devo, que se estreiam ao vivo em Portugal, mas sobretudo pelo desejo de escapar das amarras comerciais que muitas vezes comprometem ou atrofiam a veia programática deste tipo de eventos.

«Quem anda no circuito sabe que, para teres um nome grande cá, tens de levar com 10 bandas do promotor. Em termos de lineup, a ideia é que o cartaz apresente bandas que ainda se provoquem umas às outras, mas se sintam bem a partilhar palco com artistas que estão na mesma filosofia, não é só para encher.» Curadoria que permeia todo um alinhamento ambicioso ao reunir nomes lendários a outros de culto (como os The Yummy Fur de Glasgow) ou recentes (como os catalães La Élite), prometendo não se esgotar no rock.

Ambição que se espoletou quando a dupla concluiu que não se tinha de conformar aos moldes convencionais. «Temos o bar, temos a cerveja, temos os conhecimentos, somos artistas à nossa maneira, portanto vamos fazer um festival à nossa maneira», revela-nos Santana ao sublinhar: «Em 24 horas tomamos pra aí 10 decisões. Ao fim de uma semana dissemos em voz alta: “Isto está mesmo a acontecer!”, mas tudo numa lógica de, quando falávamos com as pessoas ou as instituições, muitas acharem que estávamos a gozar.»

Os desafios

Uma desconfiança inicial que os apelidou de doidos, utópicos ou até mesmo lunáticos (baptizando dessa forma o festival), mas não os desencorajou. «Isto não é um projecto megalómano, mas percebemos que pode ser interpretado como tal. Num mês conseguimos arranjar os contactos, mas tivemos imensos entraves até lá chegar porque esta é aquela cidade que quer fazer, mas não faz. E quem faz, mais depressa leva com uma farpa nas costas do que uma palmadinha de parabéns.» Uma frustração bem familiar na história do rock conimbricense.

«Quando se romantiza Coimbra como a capital do rock, é fácil esquecer que, embora bandas como Tédio Boys ou É Mas Foice tenham germinado aqui, foram também menosprezadas na altura.» Desdém que apenas terminou aquando do seu louvor internacional, o que parece ser o caso do público do Luna Fest: «Até agora, metade da nossa bilheteira é estrangeira. A maior incidência é espanhola, depois inglesa e surpreendentemente norte-americana», informa-nos Santana, apontando vendas também em Luxemburgo, Bélgica ou França.

A diversidade internacional explica-se pelo ecleticismo do cartaz (que realça projectos de culto com novos discos, como Martin Dupont ou A Certain Ratio) e acaba por ser a primeira grande vitória do evento, na medida em que concretiza o intento de internacionalizar o festival: «Muitos inicialmente assumiram que iria ser apenas um festival de bandas locais, mas não é bem assim. Isto é um festival de Coimbra, mas, além disso, é um festival para Coimbra», remata Torpedo, sublinhando que essa ideia adveio da transfiguração cultural de Memphis como meca do rock na década de 50.

«Vai ser um mega festival, mas ao mesmo tempo super simples. O recinto abre às 18h e encerra às 4h, com um palco para as pessoas verem cinco ou seis bandas de rock por dia, seguido de DJ set. Também teremos uma zona de restauração única em termos de festivais, como se fossemos a uma feira popular com sardinha assada, grelhados e pratos vegetarianos.»

Tito Santana, gerente do Pinga Amor

Ao elencarmos exemplos de festivais de verão como Paredes de Coura ou Vilar de Mouros, para os mentores do Luna Fest é fácil perceber que Coimbra tem uma vantagem única no nosso país de albergar um festival de música urbano inigualável. «Dentro da própria cidade, temos uma vista lindíssima e serviços de toda a ordem. Hotelaria, restauração, deslocação, é tudo muito perto e muito concentrado», refere Tito. Embora o seu sonho inicial preconizasse uma dinâmica pelas ruas da Alta e da Baixa (que ainda acontecerá, com a colaboração do Jazz ao Centro e Caminhos do Cinema Português), centrar o evento na Praça da Canção acabou por ser a solução ideal.

«Por questões de segurança é mais vantajoso. A Queima das Fitas é um modelo muito bem trabalhado, ao contrário do que as pessoas pensam. Pode-se duvidar das bandas, mas nunca se ouviu o som ir abaixo.» Aliado a esta lógica de bom gosto está a determinação em marcar o festival pela qualidade e pela harmonização de vários estilos. Victor vai mais além no cariz histórico, recordando que «a Queima das Fitas de Coimbra foi o modelo para todos os festivais deste país, mas o pessoal parece esquecer-se disso».

As sinergias

Salientando a rara sinergia da Câmara Municipal e Universidade de Coimbra «a trabalhar em conjunto para o mesmo objectivo quando, muitas vezes, andam de costas voltadas», realça-se uma comunhão que os organizadores têm praticado com os seus colaboradores e esperam que trespasse para o público na Praça da Canção, assim como para as próprias estruturas da cidade. Num espírito de retribuição à comunidade, implementam-se acções como a oferta de bilhetes para as repúblicas do Rapó-Taxo e Fantasmas, onde a receita arrecadada através da venda nesses locais reverte para o resgate financeiro dos imóveis.

Iniciativa de igual calibre é o arraial a ser realizado pela Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra (APCC) que também irá beneficiar de uma atribuição de receita semelhante à das repúblicas acima listadas. «É muito giro ouvir-se falar como os 5ª Punkada foram especiais durante uma semana, mas a Associação continua a ter limitações e problemas o ano todo. Se o evento é uma mescla de arte, também tem de ser de alguma forma solidário», aponta-nos Santana, antes de Torpedo nos indicar outra operação feita em parceria com o Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST).

«Outra maneira de teres um bilhete à borla? Vai dar sangue!». Além de meritório, o acto de dar sangue pode dar entrada automática e gratuita no Luna Fest. A organização vai oferecer bilhetes gerais a quem, em dias designados pelo Festival, for dar sangue e publicar uma fotografia nas redes sociais a fazê-lo, identificando o Luna Fest e o IPST. «Não vamos fazer estas activações todos os dias, mas é importante todas as semanas haver uma iniciativa destas porque é essencialíssimo dar sangue. Aqueles que falam que o rock corre-lhes nas veias têm aqui uma oportunidade de o provarem.»

Perguntamos a Santana quais os riscos matemáticos inerentes a toda esta empreitada. «O risco financeiro é total, mas é muito calculado. Estamos a ter apoios maravilhosos que nunca esperámos ter como do Fórum, da Junta de Freguesia de Santa Clara ou da Previdência Portuguesa.» Embora admitam que o auxílio financeiro do município deixe a desejar, os organizadores dizem que o apoio logístico da autarquia é imprescindível: «A conjetura foi o que também nos levou a fazer o festival, porque criaram-se condições tão boas e, por isso, tivemos que dar o braço a torcer e avançar». Torpedo remata que a «sorte nisto tudo» é terem começado «muito cedo, seis meses antes de a Câmara dizer alguma coisa.»

«Qualquer projecto que eu quisesse fazer só poderia ser nesses moldes, arrojado. Porque se não for, não vais mudar nada. Pode não haver mais, mas, pelo menos, tentámos. Isso ninguém nos tira. Já se isto funcionar este ano, há que ter a consciência de que é um festival para o resto das nossas vidas na cidade.»

Vítor Torpedo, músico

É caso para dizer que a sorte protege os audazes. Além da logística e planeamento, a edição inaugural do Luna Fest revela-se já um sucesso em termos de coragem citadina, não só enquanto primeiro passo que deve ser dado, mas também pelo vigor cultural que pretende oferecer a toda a região. «A ideia aqui é fazer um evento para a zona centro, não é só para Coimbra. A gente quer centralizar para descentralizar e como Coimbra está mesmo no meio, tem todas as capacidades para isso.»

«Quando nos perguntam “porquê em Coimbra?”, “porque não?” é a resposta que devemos dar.»

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