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O COL.ECO deixa no sapatinho uma Coimbra manual, sustentável e cooperativa

Em menos de um ano, a loja colaborativa da Baixa soma duas dezenas de projectos, com produtos locais e pegada ecológica. O balanço faz-se no plural e conta-se numa montra feita a várias mãos. Há negócios que já saíram do ninho – um ficou umas portas ao lado.

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Fotografia: Mário Canelas e COL.ECO

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A metáfora dos sapatos é tentadora. Estamos numa loja onde, em tempos, muita gente provou calçado e hoje acolhe quem tenta dar novos passos, num modelo à medida. Mas este é também um espaço que convida a experimentar os sapatos dos outros (aqui fala-se no plural democrático «nós») e liberta os que são capazes de caminhar sozinhos. Ao ser tudo isto torna-se casa. Talvez por isso Rute Castela nos leve a percorrer o COL.ECO como um edifício no centro histórico que dá respostas a vários níveis e onde os projectos começam pelo tecto. É no andar de cima, em acções de formação e reuniões plenárias, que as ideias são trabalhadas como potenciais negócios para chegarem ao rés-do-chão como bens sustentáveis, prontos a encontrar a porta de saída.

No piso de baixo, o espaço de venda, os produtos e serviços vão já bem além da costura criativa e da loja de roupa em segunda mão que, em Abril, serviram de cartão-de-visita ao COL.ECO e chamariz à Baixa de Coimbra. Ao subirmos de andar cruzamo-nos com a vida que entrou neste prédio desde a nossa última visita.  

O catálogo dos projectos em incubação ou já desenvolvidos desdobra-se em fotografias soltas pela parede das escadas. Rute Castela, coordenadora, faz legendas breves: «Esta já abriu loja. A Bruna está aqui; faz micro macramé. A Catarina Camacho tem a Cozinha Sem Peneiras. A Roberta faz grumis. A Ana Célia, com um projecto de música inclusiva. A Filipa faz estas peças à mão com excedentes de madeira. A Juliana foi para a Lufapo HUB, um espaço de cerâmica e vidro que está todo modernaço. Estes estão a redefinir-se. Aqui, uma editora feminista. Há também uma tasca LGBTI. A Rita tem um projecto de autocolantes ecológicos». A lista continua: são 21 pessoas, 20 ideias, todas com uma matriz de sustentabilidade – económica e ambiental. O balanço só pode ser «bastante positivo».

COL.ECO é sigla para Colaboração na Organização Local de Economia Sustentável do Concelho de Coimbra, um balão de ensaio para microempresários e uma solução para pessoas em situação de desemprego ou subemprego que querem montar um negócio. Há ainda outra vertente, menos visível, destinada a desempregados de longa duração, que promove a integração através de competências digitais e apoiou já um grupo de cinco pessoas.

A iniciativa, com duração de um ano, é promovida pela Associação para a Promoção da Baixa de Coimbra, encaixa no programa Portugal Inovação Social, conta com fundos europeus e apoio da Câmara Municipal. «O projecto foi pensado para ser uma porta aberta, com oficinas e de redes de parcerias, tanto na área social como empresarial», indica Rute Castela. A parte colaborativa não é verbo-de-encher: «Damos um acompanhamento individual, mas fazemos muita coisa ao molho. Pensamos em conjunto.»

As reuniões gerais servem de exemplo. Na procura por um equilíbrio entre o consumo responsável e a necessidade de crescimento económico, a Black Friday no COL.ECO virou Green Friday: 10% das vendas reverteram para a associação  Mil Voz. Já a campanha de Natal é um manual de boas práticas – da reutilização do que há em casa à partilha de momentos criativos.

A metáfora dos sapatos, melhor, do sapatinho volta a ser tentadora. «Oferecer experiências é a opção mais ecológica. Temos visitas guiadas, aulas de música, oficinas de cerâmica. Na loja colaborativa, há também de tudo – manualidades; muitas coisas bonitas. São, de facto, produtos especiais, únicos e sustentáveis».

Memória com futuro

O programa de incubação inclui acções de formação assentes em três pilares: gestão colaborativa, que pensa os bens num modelo de parcerias e de economia circular; comunicação; marketing e estratégia comercial. Juliana Marcondes, a tal ceramista com uma oficina na Lufapo, traduz estas bases como «pontos de realidade». «A gente vem com uma ideia e fica mirabolando outras. É a grande contribuição da COL.ECO: elas dão-nos dados sobre o que é possível, real. », diz.

Juliana Marcondes também bebeu da experiência «muito fixe» de fazer vendas em regime colaborativo, saiu do desemprego e confirma que «é bem mais fácil» trabalhar num colectivo. Fez já uma parceria com as peças em madeira de Filipa Formigo da Ap’Arte e está a magicar outra com Wesley Souza, artesão de aromas e cosméticos naturais.

«Tudo começou na pandemia. Fiquei desempregado. No Natal do ano passado, fiz uns sabonetes e ofereci. O feedback foi muito positivo e eu disse: ‘É por aqui», recua Wesley Souza, enquanto mostra uma linha colorida a 15 cheiros, produzida em casa e feita à base de plantas. O caminho teve recuos e passou por muitas aprendizagens até dar a uma empresa, a La Boutique.

O projecto de Teresa Tellechea está «numa fase embrionária», mas acumula anos de passos em volta de cartazes de rua, colados uns sobre os outros. «Sempre tive vontade de fazer alguma coisa com aquilo; trazê-los para a pintura. Parece um palimpsesto, uma camada de informações e de vivências, como se aquele conjunto de papéis fosse uma cápsula do tempo», descreve.

Do COL.ECO, a arquitecta destaca o valor do colectivo, também ele económico, embora possa assumir outras formas. «O facto de vir cá tantas vezes cria uma espécie de laço afectivo com a Baixa, com esta carga histórica, humana e social. São percursos que fazemos a pé e isso aproxima-nos», destaca.

O apelo da Baixa também toca Bruna Moreira. «Vinha aqui às compras, com os meus avós, para o Natal. Este espaço tem dinamizado o regresso da vida citadina», constata. O COL.ECO deu também fôlego ao Fazemos Nós, um projecto de artesanato familiar, iniciado em 2015, depois de uma «viagem pelo mundo de mochila às contas». «Conheci artesãos com quem aprofundei a técnica do macramé, que já conhecia da minha avó. A minha mãe trabalha o couro. Juntámo-nos e estamos a criar uma linha com as duas vertentes», adianta.

O salto aparece associado a uma nova estratégia de comunicação: «Temos perspectivas bastante positivas e de crescimento».

Ângela Roque «sempre quis abrir loja na Baixa» e foi o que fez há um mês, umas portas ao lado do COL.ECO, onde amadureceu a ideia, despertada pelo desemprego, de montar uma mercearia para «trazer à cidade os produtos da serra». Ganhou «bagagem». «Quando cheguei aqui, estava vazio. Fizemos de tudo: restaurámos cadeiras, tirámos tinta, pintámos. Foi fantástico. Uma escola. Aqui partilham-se experiências, parcerias e contactos. Sozinhos não temos a mesma força. Ter o apoio de toda a gente fez crescer a minha vontade de ficar na baixa, contra todos os estigmas».

Rebobinar é a proposta de Pierre Marrie e Eduardo Albuquerque, um projecto de divulgação histórica, que, entre outros resgates de memória colectiva, pela Liga dos Combatentes ou o Centro de Documentação 25 de Abril, fez já uma visita guiada sobre o poeta-operário Adelino Veiga, que baptiza a morada do COL.ECO. «Havia um foco que diz muito a Coimbra, mas a personalidade que lhe dá o nome caiu no esquecimento, apesar de ter sido muito acarinhado. É um pouco um sintoma do que esta rua se tornou. Por isso o nosso projecto nos diz tanto: vê a história, a memória, como algo que valoriza as instituições locais, produzindo conteúdos para chegar a novos públicos», sintetiza.

Se há ideia a repetir do passado é a convicção de que a mudança é possível.

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