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Parkour em Coimbra

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Divulgadores do parkour na cidade

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Parkour: saltos que vencem o medo e dão liberdade

Há uma comunidade de dezenas de praticantes da actividade física em Coimbra. Crianças, adolescentes e adultos descobrem os próprios limites aliando o cuidado com a saúde e o corpo à superação de barreiras da mente.

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Fotografia: Christinne Eloy

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Se alguém perguntar o que há em comum entre o filme francês Distrito 13, o blockbuster 007 – Casino Royale, a performance de Madonna em Jump e a campanha pela preservação ambiental One Giant Leap, a resposta é: todos trazem a marca inconfundível do parkour. Desde meados dos anos 2000 os movimentos e saltos aparentemente impossíveis, antes reservados aos duplos (stuntman), têm conquistado cada vez mais adeptos desse esporte-arte mundo afora. Mas não é preciso ir longe ou limitar-se ao ecrã para conhecer a prática. Em Coimbra, há praticantes que têm descoberto nesta atividade um grande impulso para manter corpo e mente sãos.

Saltos em grandes alturas, sobre edifícios e com altíssimo risco são em geral imagens que vem à mente quando pensamos em parkour. E, sim, eles são uma forte marca deste esporte. Porém, no pavilhão da Associação Académica de Coimbra (AAC) e no Estádio Municipal, onde as turmas da cidade fazem aulas, os alunos aprenderam que antes dos pés ensaiarem bons saltos é a cabeça que precisa superar os mais altos obstáculos. «Eu tinha um bocadinho de medo de fazer os saltos, mas aprendi uma frase num livro assim: “não deixe que o medo te torne cruel”. Aí descobri que o medo é uma coisa que tem que se enfrentar», diz com orgulho Rodrigo, de 11 anos, entre uma manobra e outra.

Mais novo em idade e mais antigo na turma do que o colega de treino, Vasco, de 10 anos, conta que andava na ginástica – onde chegou a receber uma medalha de primeiro lugar numa competição – quando viu um tutorial de parkour. Tinha sete anos e quis entrar na turma. «No início eu não entrei porque o limite de idade era oito, então tive de esperar», conta o atleta, que integra a equipa há quase dois anos. «Sinto-me feliz, é muito divertido. No início tive um bocadinho de medo a fazer os saltos, mas agora está bem mais fácil, porque antigamente, como é no alto, eu achava que estava muito mais longe do que eu já faço no chão. Mas agora que eu já fiz várias vezes, perdi o medo porque sei que é exatamente igual». Quando perguntámos se os pais ficam preocupados com os treinos, Vasco responde: «Não. Eles sabem que eu tenho potencial para fazer parkour».

Ultrapassar o medo dá uma felicidade enorme

É Bernardo Marques quem dá aulas a Rodrigo, Vasco e cerca de outras 30 pessoas em Coimbra, com idades que vão dos seis à idade adulta. Ele próprio começou incentivado pelo irmão, praticante de parkour há sete ou oito anos. O irmão tornou-se menos activo e Bernardo decidiu se dedicar mais à atividade. Hoje ele é um dos poucos atletas de Portugal certificados pela rede internacional de treinadores ADAPT (Art du Déplacement And Parkour Teaching), formação necessária para qualquer instrutor desta actividade desportiva. À frente das turmas que treinam no Estádio Cidade de Coimbra, Bernardo confirma a importância do esporte para o autoconhecimento e a superação de barreiras mentais.

«Este é um desporto muito mais mental do que físico. Nós todos temos de ultrapassar a barreira mental no parkour. Ultrapassar sempre os saltos, que muitas vezes nós conseguimos fisicamente, mas mentalmente não dá. Depois trazemos isso para o nosso quotidiano. Nós também temos muitas barreiras a serem ultrapassadas e trazer essa mentalidade do parkour para o nosso dia a dia é fantástico. “Ok, eu tenho que fazer este salto, mas estou com medo. Se calhar vou começar por passinhos mais pequenos, coisinhas mais tranquilas, que não causem tanto medo, até conseguir chegar ao teu objetivo”. O ter medo também é muito bom. Não podemos só ir, mandarmos à toa, mas há aquele momento em que percebemos ‘eu consigo’. E quando vais, ultrapassa o medo, é uma felicidade enorme. É incrível», diz Bernardo.

Medo e superação são sensações que parecem estar sempre juntas na prática do parkour. A primeira marca pela palavra dita – a segunda pela atitude, no não-dito das entrelinhas. «Inicialmente posso sentir algum medo, talvez precise de encurtar as distâncias para fazer o salto, mas como tenho treino, parece que há uma voz interior que diz: “tu consegues, tens treino para isto”. Depois, se a voz interior for forte, eu faço – e corre muito bem», descreve João, de 11 anos, há quase dois no parkour. E ao ultrapassar o desafio, como é que o João se sente? «Sinto-me fixe, bom, parece que um patamar foi alcançado. O coração bate um pouco mais depressa, mas fica-se feliz porque conseguiste fazer o que era o teu objetivo.»

«Troquei o ginásio pelo parkour e é muito mais divertido»

As formas como os atletas chegaram ao parkour, nas turmas de Bernardo Marques, são curiosas. «Eu fazia ginástica e a professora viu que eu, em vez de fazer ginástica, andava a saltar e a fazer coisas… e ela sugeriu à minha mãe vir para aqui. Sinto adrenalina e gosto. Quero continuar a treinar», conta Ruben, de 14 anos. João, 11 anos, lembra que a vontade de conhecer a actividade desportiva veio na sequência de uma queda. «Na altura eu fui a uma festa de aniversário e um amigo meu caiu. Mas como ele tinha treino de parkour, não se magoou. Eu fiquei curioso e pedi à minha mãe para mostrar vídeos de parkour. Achei interessante. Depois encontramos este sítio que é perto da minha casa e faço parkour desde sempre».

Afonso, de 18 anos, é o aluno mais antigo. Está na turma há quatro. «Já fazia na rua, com os primos. Um dia vimos na internet e achamos que seria divertido estarmos praticando, no quintal». Ele admite que os pais têm um «bocadinho de medo, mas acham que aqui, como é um espaço fechado, tem colchões, é melhor do que estar a fazer na rua». Já os pais de Alexandre, 17, incentivaram-no. «Sempre fui uma pessoa energética e sempre me chamaram macaco porque estava sempre a escalar as árvores e a correr e saltar por todo lado. Então, os meus pais acharam que era boa ideia eu vir para o parkour, para gastar energias. Eles influenciaram-me porque sou hiperativo em casa e assim eu ando mais calmo por lá. Eu estou no limite da hiperatividade e então preciso de gastar energias. É assim que as gasto, duas vezes por semana.»

No outro extremo do tempo de treino e da idade está Elisio de Sousa, 30 anos. Com menos de um mês de aulas, o mais recente aluno da equipe que treina no Estádio Municipal garante que o parkour é uma forma divertida de fazer exercício. «Troquei o ginásio pelo parkour e é muito mais divertido. Queria uma forma de ganhar core e o ginásio era um bocado indiferente. Sentia vontade de me movimentar um pouco, dar uns saltos, tinha saudades de voltar a esse tempo e decidi experimentar. Acho que o meu maior receio é das alturas – mas gosto imenso disso, porque é alto e queria superar. Acabamos por descobrir que o nosso corpo tem menos limites do que pensávamos. O parkour ajuda-nos a conhecer melhor o nosso corpo e a nossa coordenação. Passamos a perceber mais o potencial que o nosso corpo tem. E descobrimos que há limites que só existem na nossa cabeça».

JAM Nacional em Coimbra

O trabalho de Bernardo e a motivação dos alunos tornou possível a realização de uma JAM Nacional de parkour em Coimbra, nos últimos dias 24 e 25 de junho. Apesar de acontecer em Portugal há pelo menos 20 anos, foi a primeira vez na cidade dos estudantes. «Coimbra é uma cidade muito fixe para fazer parkour. Os spots mais interessantes são a zona da Universidade, o bairro Norton de Matos e o Vale das Flores», lista o professor, que reuniu cerca de 60 atletas no primeiro dia da JAM Nacional no edifício do Departamento de Química, no Polo I da Universidade de Coimbra, para uma sequência frenética de wall run, double kong, reverse, lazy, precisão e outros movimentos clássicos (ou vaults) da modalidade.

Estavam praticantes de parkour de todas as zonas do País e atletas de países como Inglaterra e Argentina. Também Monica Rebelo, mãe de David, 11 anos, e o irmão mais novo, com sete. Vieram de Lisboa, cidade onde David tem aulas de parkour desde o início deste ano letivo. «Ele estava sempre a andar aos saltos e gostava de aprender. Veio a oportunidade de ter aulas na escola. Eu pensei: “bem, mal por mal vão aprender como deve ser”», conta Monica, já adiantando a vontade do mais novo em seguir os passos (e saltos) do irmão. Até já pediu que o parkour fosse tema da festa de aniversário. «Fez um circuito muito engraçado para os amigos aprenderem a subir, descer, saltar, dar a cambalhota ao cair de tal maneira que ele agora sobe e desce os muros com mais segurança. Eu até fico mais descansada que ele ande aos saltos sabendo o que está a fazer, do que andar a fazer isso e não saber nada. Acho que o risco é maior».

De Lisboa a Coimbra, com destino à JAM Nacional, também veio Cleberson. Mas não foi na capital portuguesa que ele fez os primeiros movimentos do parkour, mas sim no longínquo estado brasileiro do Acre, na fronteira com o Peru e a Bolívia. «Comecei a aprender aos 11 anos, quando conheci um artista de circo que praticava. Fiquei impressionado e decidi aprender. Mas lá no Acre não tem a estrutura que tem aqui. Faziamos o que chamamos “parkour de meio-fio”», relembra Cleberson, bem-humorado. «Em Coimbra, há 12 ou 13 anos, havia muita gente praticando parkour. Depois parou por completo. Depois comecei a treinar com o meu irmão e veio a ideia de dar as minhas aulas. Hoje, com isso, além de trazer o parkour de volta para a cidade também tenho mais malta com quem treinar, o que é muito fixe», comemora Bernardo.

Perspetivas para o parkour e seus atletas

Divulgar e ampliar a visibilidade do parkour em Coimbra é uma espécie de missão para Bernardo Marques. Tentou convencer a Câmara Municipal para construir junto ao skate park um parque outdoor de parkour como há na Mealhada, segue esperançoso. «Era muito fixe ter um parque desses em Coimbra», diz. E se o parkour for além de um treino para os alunos que queiram se profissionalizar, ele aponta caminhos: «Quanto a viver do parkour, a parte mais segura e que dê para o maior número de anos é realmente poder dar aulas. Também é possível fazer trabalhos profissionais por grandes marcas como Redbull, GoPro, que pagam bem aos atletas. Também tem a parte das redes sociais, conseguir ter muitos seguidores, além trabalhos a parte como espetáculos, trabalhos para marcas – ainda não tantas como o skate ou o surf, mas, aos poucos, chegamos lá. Trabalhar como duplo também é outra forma de se profissionalizar».

Para os atuais alunos, por enquanto, as expetativas e sonhos são outros – e alguns têm até data para acontecer. Anunciada pela Direção da AAC para setembro de 2024, a inédita realização da Taça do Mundo de Parkour em Coimbra responde ao desejo de Vasco, que gostava de ver os atletas de parkour reconhecidos. «O que eu espero é que, para o futuro, o parkour comece a ganhar mais modalidade, e espero ver os atletas a ganhar medalhas, como acontece na ginástica». Já Alexandre conta que o que o faz continuar a treinar é o olhar para a rua e «ver um sistema de parkour, começo a ter uma outra visão. Fiz parkour na rua, mas leves movimentos aqui e ali. Estou satisfeito». Elísio de Sousa coloca amor na perspetiva da modalidade praticada maioritariamente por rapazes. «Tenho uma namorada e quando lhe disse que estava a fazer parkour ela própria ficou com vontade de experimentar e disse : “Olha, é um desporto para meter um filho, quando a gente tiver”».

Rodrigo quer ser astronauta e, quem sabe, «fazer parkour no espaço». Volta ao final do treino para contar algo muito importante: «Antes eu não conseguia fazer o salto mortal. Mas hoje, senti confiança, porque pensei na frase que tinha dito antes – temos que vencer o nosso medo. Então, consegui fazer e fiquei muito feliz. Foi o primeiro salto mortal da minha vida».

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