Após três edições e 22 contratações, o Programa de Neurodiversidade segue com a 4ª edição, com a pretensão de construir um mundo equitativo com a diversidade como pilar para uma sociedade mais justa. O Programa é promovido pela Critical Software (CSW), empresa de Coimbra, e ainda pela Critical TechWorks e Specialisterne, com a NOS como novo parceiro. Segundo a Organização Mundial de Saúde, há cerca de 1% da população mundial com transtorno do espectro do autismo (TEA). Mas o que é neurodiversidade? No contexto deste Programa, é a expectativa de alcançar a diversidade de pessoas com autismo na sociedade. Além do estigma associado e dos desafios colocados por uma sociedade regrada e imediata, as pessoas com autismo lidam com o problema da empregabilidade, com o desemprego a rondar os 75%, segundo a responsável do Programa. Daí a importância da neuroinclusão e neurodiversidade – leiam também o Glossário na lateral.
Voz neuroatípica
Miguel Nunes tem 52 anos e entrou na CSW pelo Programa de Neurodiversidade. No primeiro ano do curso de Engenharia Electrotécnica ainda fez as cadeiras todas, mas a sua performance começou a decair. Passou a ter apoio psicológico, que ainda mantém. Sem terminar o curso, teve vários trabalhos, deu aulas e formação, e retomou o curso, o que lhe custou muito, «foram anos duros. Na altura não se falava de autismo, era algo que não existia». Tentou reentrar no mercado de trabalho, mas durante ano e meio foi difícil, foi a entrevistas, mas nunca era aceite.

«Recordei-me de um filme que vi quando era pequeno, Rain Man. Reconhecia-me, não com aquela intensidade. Autodiagnostiquei-me e tive a confirmação». Tem uma perturbação do espectro do autismo (PEA), que tem consequências diferentes em cada indivíduo, com intensidade variável. «No meu caso», conta, «o autismo não impedia o trabalho lógico, que era programação». Miguel candidatou-se ao Programa de Neurodiversidade, passou as várias fases e começou a trabalhar na CSW em Novembro de 2023. «Confesso que estava com medo. Será que tenho competências técnicas? Será que me vou habituar à equipa? Como é que as pessoas me vão tratar?».
Programa de Neurodiversidade
Catarina Fonseca é a coordenadora do Programa. A CSW já cumpriu um quarto de século e desde o início que os sócios fundadores, Gonçalo Quadros (co-fundador da Coimbra Coolectiva) e João Carreira, partilha, «tiveram a preocupação pela diversidade nas equipas, não têm todos de ser engenheiros informáticos de olhos castanhos a pensar da mesma maneira, formados na Universidade de Coimbra». Esta diversidade manifesta-se nas diversas nacionalidades, etnias e pessoas com cursos superiores de outras áreas presentes na CSW. «Hoje temos mais de 80 colegas que vieram de percursos completamente diferentes, e trazem perspectivas muito valiosas. Foi nesta linha de pensamento que se [decidiu] trazer outros estilos cognitivos para a equipa, não podemos ser todos neurotípicos, temos que adicionar neurodiversidade. Trazer talento e diversidade para a equipa, representando a sociedade».

A selecção para esta 4ª edição começou em Maio, mas ainda podem concorrer até Julho – ver o marcador azul em cima. Têm tido cerca de 70 a 80 candidatos por edição, sendo que desde 2021 já integraram mais de 20 pessoas, estando 16 a colaborar na CSW e as restantes distribuídas por outras empresas que se têm juntado ao Programa. «Neste Programa, o que é promovido é a empatia», destaca Catarina, «e queremos uma integração bem-sucedida, a longo prazo». O processo de selecção é adaptado para ser inclusivo e arranca com uma primeira fase de formação. Primeiro é o conhecimento técnico, depois as competências sociais e comunicacionais, que sejam compatíveis com o contexto de trabalho. Os candidatos têm que saber trabalhar em equipa e ter ritmo de trabalho. O grupo vai reduzindo, até que chegam 14 à fase prévia à integração. Esse é o número máximo de pessoas, já que contam com acompanhamento individualizado por parte de psicólogos.
Este Programa é pioneiro em Portugal numa entidade privada, mas já houve alguns programas de empregabilidade promovidos por associações que cuidam de pessoas autistas. O Programa foi recentemente reconhecido em Londres, pela promoção da equidade, diversidade e inclusão no Global Thriving at Work (TAW) Awards 2024.
Na neurodiversidade está a força
Miguel, que teve problemas de bullying noutros trabalhos e que vê que a cidade mantém preconceitos, vê que «a entrada de neuroatípicos na CSW acaba por estar integrada na cultura da empresa, a diversidade de ideias. Uma coisa que os neurotípicos aprenderam com os autistas é que é bom registar as decisões que se tomam nas reuniões. Temos alguma dificuldade com linguagem não verbal. Às vezes não percebemos o que se está a passar. Outra coisa é a inovação. Gosto imenso de inovar, talvez seja essa a minha melhor contribuição para a empresa. Como a perspectiva é diferente, estamos a olhar para a mesma pirâmide, mas estamos a ver ângulos diferentes».

Catarina confirma os benefícios e as mais-valias ao criar uma equipa que recrie a representatividade da sociedade, para gerar a diferença: «Eles são muito inovadores na forma como olham para um problema, persistentes e leais. Trazem para os projectos contributo directo, porque fazem muito bem o trabalho que têm de fazer, e trazem outro benefício que é toda a empatia e diversidade de relacionamento, que faz com que as equipas que têm colegas autistas são mais maduras, coesas e felizes». Miguel sente-se confortável. «É como se tivesse um projecto de vida. Encontrei aqui um espaço de afirmação em que não sou julgado por ser autista. As empresas têm que perceber que têm vantagens, [porque temos] tendência a ver coisas que as outras pessoas não vêm. Na tecnologia a inovação vem das bordas e nós somos as bordas. Os problemas são iguais, a perspectiva é que é diferente».
Deixar obra feita
Catarina identifica aqui uma jornada que nunca está terminada e espera que exista uma quinta e sexta edição. «Partimos de uma base de desconhecimento, em que tínhamos pressão enorme para que corresse bem e tem sido uma aprendizagem todos os dias. De edição para edição houve evolução». A CSW relaciona-se em proximidade com quem, a nível nacional, trabalha com pessoas autistas. Associações como a Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra (APCC) e a Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo de Coimbra (APPDA), bem como a Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger (APSA) em Lisboa, e também com escolas e universidades, como a TUMO em Coimbra, e a 42Lisboa e 42Porto.

Estão à procura de mais empresas que possam manter o Programa e querem levar o conceito para o Reino Unido e Alemanha, onde a CSW tem escritório. «Se integrarmos 10 pessoas e outro ao lado integrar mais 10, temos mais impacto, porque a taxa de desemprego é vergonhosamente alta. Que bonito seria termos pessoas autistas a trabalhar no atendimento ao público, a desmistificar que as pessoas autistas não podem. Nestas questões de inclusão trabalhamos para um momento em que já não é preciso falar de um programa específico para incluir pessoas autistas. Ainda estamos longe, temos que falar muito sobre o tema até chegarmos lá».
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