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Movimento Humanizar a Saúde em Coimbra

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Sala cheia num serão sobre palavras e gestos que «salvam vidas»

Continua a conquistar apoiantes o movimento Humanizar a Saúde em Coimbra, que ganhou impulso na Geração Coolectiva, está a ir às escolas e já tem agenda para 2024.

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Fotografia: Filipa Queiroz

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Breathe, cantam os Coimbra Gospel Choir. Respira. Podia ser uma sessão de mindfulness ou uma missa do padre Nuno Santos, mas é um encontro de tempo e espaço para aprender através da voz da experiência como focar no momento, no eu e em quem precisa. Durante cerca de uma hora e meia, o grupo musical alternou com alguns temas do seu repertório os testemunhos de profissionais de saúde, um assistente social e uma doente oncológica em mais uma sessão do ciclo Humanizar com Arte, do movimento Humanizar a Saúde em Coimbra. Depois da Deficiência, com a actuação dos Ligados às Máquinas, o palco foi dado às experiências relacionadas com a Espiritualidade e a Saúde.

«Com esta música, com o gospel, temos a capacidade de tocar o outro, que é, muitas vezes, apenas estar disponível, escutar. Às vezes, poucas palavras salvam vidas», disse Paulo Pereira. O membro do coro e diretor do Centro Porta Amiga AMI de Coimbra foi o primeiro orador do serão. Contou que quando as pessoas dizem que gostam de ouvir o coro, o grupo «sabe que tem a ver com o tocar». «Naquelas duas horas não pensaram e não sentiram coisas que não estão bem na vida delas. É este o poder da arte. Esta força, esta partilha é a espiritualidade.»

Paulo Pereira, assistente social e intérprete do Coimbra Gospel Choir

Paulo contou que trabalha com as pessoas mais desfavorecidas que possamos imaginar, com a exclusão social extrema e que, apesar de a tendência poder ser normalizar, depois de tantos anos a assistir a cenários semelhantes, «é preciso manter a humanização». No seu caso, afirma, fá-lo mantendo sempre muito presentes valores como a fraternidade. «Quando conseguimos ser fraternos, lidamos com o outro como alguém como nós e temos perfeita consciência da nossa vulnerabilidade, de que de um momento para o outro posso estar na mesma situação daquelas pessoas».

Depois de 23 anos de serviço, contactando com milhares de pessoas em situação de grande vulnerabilidade, entre eles migrantes, idosos, toxicodependentes e pessoas em situação de sem-abrigo, Paulo contou o quanto aprendeu e como constatou que as pessoas não são tratadas de forma igual. Alertou para o facto de em Portugal, apesar de tudo, «estarmos anos luz melhor» em termos de cuidados de saúde do que muitos cidadãos que chegam de alguns países e a conversa foi também para outra população «invisível»: «Coimbra tem pelo menos oito mil idosos que vivem sozinhos. Com que cuidados? Conseguem passear? Conseguem sentir-se felizes e seguros? Vivem em casas confortáveis?».

«A desumanização tem a ver com a pressa», continuou o assistente social, perante meia centena de olhares atentos, numa das capelas do Seminário Maior de Coimbra cedida para esta acção de sensibilização da comunidade. «A pressa com que andamos todos os dias e as dificuldades com que lidamos no trabalho. Por exemplo, nunca se falou tanto das dificuldades dos profissionais de saúde, que são reais e são legítimas.»

Ana Rocha, enfermeira numa unidade de cuidados paliativos, falou a seguir e começou por contar que se esforça por estar realmente com cada doente e que a sua postura é de «acompanhar em primeiro lugar a vida», explicando depois quais são para si as várias dimensões da espiritualidade. «Somos pouco hospitaleiros no hospital», atira Ana. «A espiritualidade começa em sair de nós e na atenção aos meus problemas e estar para o outro; estamos todos preocupados com a funcionalidade da vida e esquecemo-nos do que é essencial para o outro. Às vezes, o outro não quer um banho, o outro precisa de ser ouvido. Dar ao outro é sair da nossa agenda. Estar efectivamente com o outro é espiritualidade. Às vezes passei horas a cuidar dele, mas não estive com ele. E esta espiritualidade exige-nos hospitalidade», continuou a profissional, que também destacou que pequenos gestos contam, como bater à porta quando se visita uma pessoa doente.

Ana Rocha observou que a religiosidade é apenas uma das formas, «talvez a mais fácil», de viver a espiritualidade. No seu depoimento exemplificou que um utente lhe ensinou a ouvir a 5.ª Sinfonia de Beethoven enquanto ela lhe dava banho, outra mostrou-lhe a importância que pode ter acender todos os dias uma vela «à sua Nossa Senhora» e frisou que espiritualidade «é sentir-se reconhecido como pessoa a ser escutado naquilo que lhe faz sentido.»

O serão continuou com mais temas interpretados pelo Coimbra Gospel Choir, como o célebre tema Amazing Grace, e os testemunhos de Maria José, doente oncológica, e Sílvia Monteiro, médica, que confessou que começou a carreira mais focada na excelência técnico-científica e a espiritualidade a «ajudou muito a conseguir o equilíbrio emocional» – lembrando o cenário actual em que, de acordo com as estatísticas, mais de 50% dos colegas cardiologistas em cuidados intensivos estão em burn out -, bem como na relação que estabelece com os doentes.

Como afirmou Paulo Pereira, não é preciso ir muito longe para ajudarmos e tornarmo-nos voluntários em acções nas quais acreditamos ou causas que defendemos. «Quando me perguntam como fazer, costumo responder: na tua rua, fica atento, se calhar há alguém que precisa. Ouve-a. Escuta-a.»

A cada sessão as acções do Humanizar a Saúde em Coimbra vão ganhando mais apoiantes, estiveram cerca de cem pessoas no Seminário Maior e o movimento tem uma comunidade no Whatsapp que já conta com 400 contactos. O impulsionador, João Pedroso Lima, médico aposentado, também está fazer uma digressão por vários estabelecimentos de ensino onde acredita que «é fundamental levar esta mensagem sobre a outra metade da Medicina, que tem a ver com o cuidar e não tanto com o tratar». Afinal, serão eles os profissionais de saúde e utentes no futuro. 

O próximo encontro do ciclo Humanizar com Arte está previsto para Fevereiro de 2024 e não será musical, mas teatral. Como o título A importância da Compaixão em Saúde, a proposta que será dinâmica e interactiva está a ser desenvolvida pelas investigadoras Marcela Matos e Margarida Pedroso Lima, da Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra. Ainda sem data, a sessão seguinte será Literatura e Saúde.

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