Olá, meus caríssimos coimbrinhas,
Na croniqueta desta semana, exploraremos uma das mais veladas ruas desta pólis. De forma a acautelar a impreparação dos leitores para esta artéria em particular, convém clarificar que a mesma dá pelo nome de Rua Padre Manuel da Nóbrega, mas é invariavelmente apelidada de Rua Machado de Castro.
Falo do troço, sem saída, que se inicia, mais asfalto menos asfalto, na Praça Fausto Correia (que o Google Maps insiste em nomear de Machado de Assis, desconhecendo o historial do saudoso deputado europeu com o Trianon) e termina na Praceta Pe. José Anchieta – não por acaso, tendo sido este colaborador do outro.




A Rua Machado de Castro realmente existe, mas precede este troço até Montes Claros.
Não sei se por conveniência, aquele prolongamento de que falamos hoje, levou (ainda levará?) com o nome do reputado escultor durante muitos anos.
Um Padre transvestido de escultor. Ui, o que diriam no século XVI?! Quem foi então este eclesiástico Manuel da Nóbrega?
Nasceu em Sanfins do Douro, terra de boa pinga – o Favaios – em 1517 e viria a falecer, com muito mais prestígio e outra alcova, no Rio de Janeiro, em 1570.
Tendo sido a Companhia de Jesus fundada em 1534 e aquele ordenado pela mesma em 1544, estamos perante um pioneiríssimo do catecismo e evangelização em terras de Vera Cruz. O número um da beatice, que se bacharelou em Direito Canônico e Filosofia, em Coimbra, em 1541.




Será dele o primeiro texto em prosa escrito no Brasil: Diálogo sobre a conversão do gentio.
Nóbrega, juntamente com os jesuítas que o acompanhavam na armada do primeiro Governador do Brasil, Tomé de Sousa, de onde não mais regressou, foi um dos edificadores da cidade de Salvador da Baía, sede do governo-geral.
É ele ainda, mais 11 jesuítas, que fundará a povoação de São Paulo dos Campos de Piratininga. Aquela que viríamos a conhecer somente por São Paulo.
Foi ele, ainda, o arquiteto espiritual da fundação do colégio jesuíta da Baía e, absolutamente decisivo, no seu compromisso de reforma dos costumes dos colonos, fundamentalmente na antropofagia que grassava entre as tribos rivais. Que falta faz um Manuel da Nóbrega ali para os lados dos Paços do Concelho.
Ainda, nunca será demais ressalvar, a Rua Pe. Manuel da Nóbrega tem em si o Instituto Missionário Sagrado Coração (ou tout court O Seminário), sinónimo de intermináveis tardadas de futebol. Como se darão os dehonianos numa rua jesuíta?
Afrontoso, não, a dicotomia do ênfase atribuído ao Sagrado Coração de Jesus, à reparação, à justiça social e à proximidade às comunidades dada pela confissão dehoniana, face a um maior pendor no discernimento espiritual, na educação, na investigação intelectual e na missão universal da Igreja que é apanágio dos Jesuítas, tudo na mesmíssima rua?
Coimbra, em tempos, albergou entre si homens que cruzaram oceanos numa casca de noz e fundaram as maiores cidades do mundo, hoje celebra a proeza tecnológica que é colocar um autocarro em cima de asfalto. Se dúvidas houvesse que o retrocesso civilizacional existe…
Bem hajam, meus inverosímeis coimbrinhas e até daqui a 15 dias.
Desafiámos os estudantes do TUMO Coimbra a retratar cada crónica do Tatonas — e eles devolveram-nos, através das suas lentes, o que veem e sentem em cada rua escolhida. As imagens são o resultado desta parceria. Participou nesta edição o jovem tumonauta do percurso de Fotografia sob a orientação dos workshop leaders Mário Canelas e Paulo Calhau: Teresa Silva, Constança Alves, Rosenia Chimbuca, Pedro Tavares, Gabriel Nves, Eduardo Santos, Nuno Noronha, Maria Sá e Inês Costa.
