Olá, meus caríssimos coimbrinhas,
Ao escrever estas crónicas vou-me deparando com algumas surpresas. Elas são propícias a isso, devido à sua natureza, pois tenho como base somente escrever sobre aqueles que dificilmente conhecemos.
Pedro Monteiro é um desses. Aliás, Pedro Monteiro é um quase perfeito desconhecido, o que mais peso acrescenta à minha ideia de que muitos dos nomes das ruas são nomes de circunstância, de conjeturas, de fogos-fátuos.
De entre as várias pesquisas que alimentei para chegar a algo que se assemelhasse a uma pequena biografia de Pedro Monteiro, cheguei ao nome de Pedro Augusto Monteiro Castello Branco.
Primeiro, caso haja alguém que não saiba, a Pedro Monteiro é familiar aos conimbricenses por albergar a Casa da Cultura e a Biblioteca Municipal, ambas no mesmo edifício, decrépito e ultrapassado, como a cidade que o alberga, qual matrioska de obsolescências.
O que muitos não saberão é que ela, a rua, se inicia junto ao Largo Santana, paredes meias com a Penitenciária. Para o amante de um bom burpee e dum agachamento, a Pedro Monteiro começa no Elements Gym e finaliza mui cerca do Atenas, um pouco antes. Quanta ironia. Entre a virtude e o pecado distam sensivelmente 600m.




A placa toponímica afirma que o seu constituinte foi professor de Direito e que terá vivido entre 1822 e 1901. No entanto, na incessante busca deste vosso escriba pela verdade, só é dado a conhecer, com algum papel minimamente relevante na cidade, o nome daquele Castello Branco, que assumimos ser o mesmo.
Lente catedrático de Direito, nascido em Lagares, freguesia de Oliveira do Hospital, em 1822 e tendo falecido em 1903. Lecionou disciplinas como História do Direito Pátrio, das Cantrigas…
Tem as suas aulas registadas, confirmando a sua importância enquanto divulgador de conhecimento das Leis e podendo ainda hoje serem consultadas na Biblioteca Digital da Faculdade de Direito.
Foi decano e Diretor da Faculdade de Direito e há menções de ter sido Presidente da Junta Geral do Distrito de Coimbra. Portanto, ele é alguém habilitado a estacionar em segunda fila em qualquer artéria da cidade atualmente.
A 26 de Setembro de 1878, «O Dr. Pedro Augusto Monteiro Castello Branco pede o aumento do seu ordenado de Lente Cathedratico da Faculdade de Direito na Universidade em Coimbra».Um doutor sindicalista. Fosse aos dias de hoje e estaria à espera de fundos europeus para financiar o seu Tesla.
Parece ainda que terá trocado correspondência com Bernardino Machado, em certa conspiração política e intelectual. Obviamente, alguém bem relacionado e com acesso às esferas do poder.




De toda a biografia possível de alcançar, depois de hercúleo esforço nesse sentido, é justo dizer que Pedro Monteiro, a ser este e não há razões para não o ser, aliás há bem mais no sentido contrário, foi um homem relevante na cidade, com influência e habituado às grandes lides.
O que mais salta à vista de tudo isto é: como poderá alguém, na cidade das aparências, ter abdicado do seu pomposo Castello-Branco para um tão parcimonioso Monteiro? Ou terá sido esta uma maldade de quem lhe aplicou aquela placa naquela rua? Ou, pior, este de que aqui falamos nada tem que ver com o anónimo Pedro Monteiro?
Nunca o saberemos.
Bem hajam, meus inverosímeis coimbrinhas e até daqui a 15 dias.
Desafiámos os estudantes do TUMO Coimbra a retratar cada crónica do Tatonas — e eles devolveram-nos, através das suas lentes, o que veem e sentem em cada rua escolhida. As imagens são o resultado desta parceria. Participaram nesta edição os jovens do percurso de Fotografia sob a orientação dos workshop leaders Mário Canelas e Paulo Calhau: Beatriz Henriques, Ester Silva, Inês Carneiro, João Tinoco e Madalena Nunes.
