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Há seca em Coimbra?

A garantia é de que a água não nos vai faltar mas, ainda assim, há agricultores apreensivos e a ideia é de que é preciso pensar no futuro e ter uma estratégia para mitigar fenómenos como o que está a acontecer este ano.

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Fotografia: Mário Canelas, Unsplash

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Com o país a atravessar um período de seca, que chega a ser extrema nalgumas zonas do país, procurámos perceber qual a situação do concelho de Coimbra. Dezembro foi o quarto mais quente dos últimos 90 anos e bateu-se o recorde da estação: 26.4 °C de temperatura máxima. Janeiro foi o sexto mais seco desde 1931 e a 15 de Fevereiro, 91% do território estava nas classes de seca severa e extrema. Temos vivido um Inverno atípico, com situações de seca extrema sobretudo no Sul do país e com aldeias submersas desde os anos de 1950 a ficarem descobertas. E Coimbra?

Embora longe do cenário vivido noutras zonas do país, o concelho sente também os efeitos da falta de chuva e atravessa um período de seca meteorológica, na designação dos especialistas, tendo como base os valores médios dos últimos 30 anos. Neste ano hidrológico (entre 1 de Outubro e 30 de Setembro) «a precipitação foi inferior a 50% ao considerado normal», explica Manuel Nunes, professor da Escola Superior Agrária (ESAC). Se olharmos apenas para Janeiro e Fevereiro,«passou a ser cerca de 10 a 12%». Embora houvesse uma precipitação «significativa no início do Outono», continua, isso não bastou, uma vez que a precipitação de Novembro e Dezembro foi abaixo do normal. Ou seja, se no Outono tivesse havido meses com muita chuva «não se falava agora de seca com a mesma severidade», diz o docente. 

Embora seja esta a conjuntura, a falta de água não parece ser um problema para o concelho de Coimbra, que não estará em situação de seca hidrológica. Alfeu Sá Marques, presidente das Águas de Coimbra, diz que em boa parte isso se deve às características do rio Mondego e à barragem da Agueira – «um importante regularizador de afluência de caudais à cidade». A Aguieira tinha reservas de cerca de 67% em finais de Fevereiro, e a média costuma ser de 74,2%, segundo a informação do Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos. 

«Coimbra não tem problemas de falta de água. Não tem problemas de seca. Os cidadãos de Coimbra podem estar razoavelmente sossegados que não vão ter racionamento de água, como parece começar a acontecer em alguns locais do país», garante o responsável da empresa municipal responsável pelo abastecimento de água na cidade. «No curto prazo, o cenário não é preocupante», desvaloriza também Manuel Nunes, lembrando que, neste fim de Inverno e no início da Primavera, «ainda pode haver uma precipitação significativa». 

O papel da agricultura 


Menos optimistas com a falta de chuva estão, para já, os agricultores. «O menos grave da situação do Mondego reside no facto de, no vale central, ainda não termos culturas», admite Pedro Pimenta. O presidente da Cooperativa Agrícola de Coimbra explica que as culturas do arroz e do milho, características da zona do Mondego, só serão instaladas a partir de Abril e Maio. «Não estamos ainda numa situação tão grave, mas não consigo adivinhar quando vai chover», lamenta o engenheiro que alerta que a situação se pode complicar se não chover em Março e Abril, considerados «meses essenciais».

«O vale do Mondego, com 12 mil hectares de agricultura, onde existe o milho, o arroz, as hortícolas, viveiros e alguma pecuária. Eu pergunto: será que vai ser agricultado?», questiona Pedro Pimenta. O engenheiro considera que uma das formas do Governo ajudar estes agricultores é através uma comparticipação nacional. Em cenários futuros incertos, o docente Manuel Nunes considera que a seca meteorológica que se está a sentir pode ser, no entanto, mais penosa para quem cultiva fora do aluvião do Baixo Mondego, com recurso a água de poços, minas ou nascentes. Para os do vale do Mondego «já se sabe que têm o problema mais facilitado pois a água de rega é garantida pela Agueira, além de os solos serem naturalmente mais húmidos ao beneficiarem do aquífero do Mondego», acrescenta.

Ainda assim, Pedro Pimenta alerta que as consequências podem ser sentidas pelas agricultores noutras frentes. Nomeadamente na questão da alimentação pecuniária, com as commodities alimentares como a soja e o milho a «preços completamente proibitivos», uma situação que acaba por ter efeitos nos preços das rações. «Não há capacidade económica nos agricultores pecuários para estarem a sustentar os seus efectivos só a rações porque as forragens, dada a situação climática, não vão crescer, ou já desapareceram e não há forma de as fazer chegar aos animais», atira. Para o presidente da Cooperativa Agrícola de Coimbra uma forma do Governo ajudar estes agricultores é através de uma comparticipação nacional.

Como grande utilizador de água, o sector da agricultura é instado a contribuir também para um melhor controlo deste recurso. Para Alfeu Sá Marques, enquanto país «devemos cada vez mais reutilizar a água residual depois de tratada». «Se eu quantificar o volume de água que uso na agricultura e no ciclo urbano da água, este representa 7 a 10%, enquanto a utilização agrícola é de 80 a 90%», observa. Para o também especialista em hidráulica, é preciso convencer e ajudar os agricultores a serem mais eficientes na utilização dessas água. 

Ainda assim, Manuel Nunes considera que hoje «se rega melhor do há 20 anos» e a mentalidade dos agricultores tem vindo a mudar. «O agricultor também já percebeu que se rega de forma ineficiente, ao aplicar excesso de água também vai ter prejuízo», explica, apontando que o caminho passa igualmente pelo investimento em equipamento e tecnologia. Mas um factor importante passa pela valorização da água no vale do Mondego. Segundo o docente da ESAC «no Alentejo o custo da água do Alqueva anda na ordem dos 0,4€ por metro cúbico para distribuição em baixa pressão», mas por cá «o respectivo valor médio anda abaixo de 0,1€». Mas há mais: por cá, pratica-se no regadio colectivo o pagamento anual de uma taxa pelo uso de água unicamente de acordo com a área de cultivo. «Se cultivar um hectare e gastar 5 mil metros cúbicos paga exactamente o mesmo que se cultivar um hectare e gastar 7, 8 ou 10 metros cúbicos. Que estimulo é que há?», questiona o docente.

Que soluções para mitigar estes cenários de seca?


Com os efeitos das alterações climáticas mais visíveis e as probabilidades de fenómenos como o de seca serem cada vez mais frequentes, esta é a hora de agir. E que políticas seguir? Do ponto de vista do presidente da Cooperativa Agrícola de Coimbra é preciso uma estratégia. Na sua opinião, deveriam ser criadas reservas de água no Mondego, também conhecido por «Basófias». «É um rio nosso. É um rio que não está dependente das convenções de Albufeira, não está dependente dos caudais ecológicos de Espanha», defende Pedro Pimenta. O engenheiro acredita que as reservas podiam «dar mais pulmão para poder gerir as águas da bacia hidrográfica do vale Mondego» mas também «evitar algumas cheias».

A construção de mais barragens é, na visão do presidente das Águas de Coimbra, o caminho que pode permitir dobrar a actual capacidade de armazenamento de água. «No Mondego, temos uma capacidade de armazenamento que é de aproximadamente 320/330 hectómetros cúbicos. É possível, com a construção de uma barragem – que ando a defender há muito tempo, a de Girabolhos – passar para praticamente o dobro da capacidade de armazenamento. Girabolhos terá uma capacidade de armazenamento útil, de 240 hectómetros cúbicos», argumenta. A barragem de Girabolhos integrava um conjunto de 10 novas barragens do Programa Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroeclétrico, ainda durante o Governo de José Sócrates, mas a construção concessionada à Endesa foi cancelada em 2016.

«Nós podemos quase triplicar a capacidade de armazenamento no Mondego e isso, obviamente, é o nosso seguro de vida, em minha opinião, para uma adaptação e uma mitigação às alterações climáticas», remata o também especialista em hidráulica. Na incerteza dos fenómenos futuros e da possibilidade de escassez de água, Manuel Nunes defende que os agricultores devem também estar preparados porque, afinal, «pode-se fazer o mesmo e produzir o mesmo com menos água». O docente da ESAC aponta, no entanto, para baterias a boas práticas de rega que têm sido promovidas, embora sem que exista uma norma geral. Ainda assim, admite que não há sistemas 100% eficientes. «Quando, em sistema de rega por gravidade, que é o que aqui se pratica, se conseguir na parcela uma eficiência da ordem dos 70%, já ficaria muito contente. Com rega da aspersão, facilmente se atinge os 80%», explica Manuel Nunes.

Neste momento o que parece certo é que fenómenos de seca, e mesmo de cheias, sejam uma realidade frequente no futuro. E não será de estranhar que sejam mais severas. Manuel Nunes alerta que a precipitação acumulada nestes dois meses de Inverno (Janeiro e Fevereiro) foi de cerca de 30mm, quando o normal é ser acima de 200mm. Esta situação de escassez seria muito infrequente há 50 anos. «Porém, actualmente deixou de o ser porque nos últimos 20 anos ocorreram valores semelhantes por 3 vezes (2005, 2012 e no actual 2022) e há estudos que indicam que tal se pode repetir com maior frequência no futuro».

«Mesmo nas situações, como é o caso da nossa região, em que no presente ainda existem reservas hídricas nas albufeiras para garantir um consumo “normal”, há que ter a preocupação em não as esgotar em demasia», sublinha o docente. Uma situação que ganha maior importância pois não há certeza que as reservas venham a ser rapidamente repostas no ano seguinte.

Por um uso mais racional

Na utilização da água o apelo é que seja usada em quantidade necessária e suficiente e, segundo Alfeu Sá Marques, sempre com bom-senso e de uma forma sustentada por parte dos cidadãos. Do lado municipal, há também trabalho a ser feito para uma redução de perdas e fugas de água na cidade, contando também com a contribuição da população para informar onde ocorrem estas situações. «O objectivo nacional é ter uma média de 20% de fugas e perdas. Nós já tivemos anos de cerca de 21%. Infelizmente, com a questão do Covid-19, temos 24 a 26% de fugas e perdas», observa o presidente das Águas de Coimbra.

No cargo desde Novembro do ano passado, Alfeu Sá Marques tem ainda como objectivo para os próximos quatro anos de mandato não aumentar as tarifas. A última actualização foi aprovada em Dezembro, com um aumento a rondar os 9,9% somente na taxa variável do tratamento das águas residuais. Em causa está o prejuízo de dois milhões de euros da empresa municipal. Ainda assim, nada é garantido. O aumento das tarifas era feito com base num cenário de equilíbrio das contas, prevendo um resultado operacional positivo de 740 mil euros este ano. As estimativas podem estar em risco. Durante a pandemia da Covid-19 e com impossibilidade de cortar o abastecimento a quem não paga, aumentaram as dívidas dos clientes: no final de 2019, ascendiam a 59 mil euros e, só no ano passado, foram de 432 mil euros. 

Estão em marcha várias medidas que visam um uso eficiente da água em Coimbra, caminhando-se também para uma cidade esponja. Alfeu Sá Marques fala dos projectos dos novos loteamentos, com impacto na drenagem pluvial, que têm de passar pela empresa: «todos têm de ter medidas de contenção na origem, isto é, reservatórios, de maneira a que não acrescentem cheias às cheias».

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