Trocámos terra firme por um caiaque e entrámos no Mondego, mergulhando no silêncio e na calma do rio. Só temos de remar do lado direito, virar a pagaia e remar do lado esquerdo, repetindo o movimento vezes sem conta para deslizar rio acima. «Não é preciso muita força», atira-nos Rui Garcia, presidente do Clube Fluvial de Coimbra (CFC) e praticante da canoagem desde os 13 anos, enquanto rodamos literalmente no rio e nos deixamos levar pela vontade da pequena embarcação, do vento e da quase nula ondulação.
Nada que nos assuste. Rui Garcia, que nos guia nesta viagem, já nos tinha contado que o Mondego e a zona ribeirinha da cidade é considerado uma «das melhores baías para a prática desportiva de canoagem, nomeadamente de competição, da Europa». Porquê? «Pela sua estabilidade ao longo do ano, sempre com água, muito pouco sujeita a afluência de correntes. Pela presença do açude, há uma certa estabilidade, mesmo de ventos. É segura e vigiada».

Partimos do Parque do Choupalinho, onde está sediado o clube, e pagaiamos até à Lapa dos Esteios, embora a prática se estenda até à Portela. «Nunca pensei que este tipo de desporto fosse de lazer. Aqui é mais um passeio, uma espécie de escalada através do rio. Apreciamos a paisagem e às vezes treinamos os braços», resume a estreante Assina, estudante, natural do Cazaquistão, com uma semana de experiência de canoagem quando conversámos. Assina integra o escalão de lazer, convencida pela amiga Aín, da Colômbia, para quem esta é uma forma de «conhecer pessoas e fazer desporto».
Além de actividade física, que confirmámos exigente de braços e de pernas, para o presidente do clube a canoagem dá uma visão diferente sobre a cidade e «permite que as pessoas consigam usufruir, brincar e viver dentro do rio». Desta vivência no Mondego, ficam momentos, partilha, a experiência de parar o caiaque para apanhar figos quando «em terra não conseguem», do baptismo feito a árvores e do «Hotel dos Pássaros», pela quantidade de aves que uma delas acolhe. «É maravilhoso. Não é apenas desporto mas podes desfrutar muito a natureza e os pássaros. É também a força da equipa. Gosto muito», remata Aín.
Canoagem para todos e para todas as idades
Os escalões de lazer são uma das ofertas do CFC, abertos a quem quer fazer canoagem de forma não competitiva. O clube tem ainda os grupos de iniciação, os de competição, o dos veteranos e uma equipa de Kayak Polo, heptacampeã nacional e seis vezes campeã da Taça de Portugal. No total, são 100 os sócios.
«Quero um clube para o desporto, mas quero um clube para a comunidade, mesmo não sócios», atira Garcia, na presidência do clube há seis anos. O grande desafio tem sido manter as pessoas, «nomeadamente os mais pequenos e muitas vezes a parte feminina». A razão prende-se, para o presidente, no facto de a cidade ter muita oferta e as pessoas «quererem experimentar tudo», ao que se junta a popularidade de outras modalidades como o futebol. A natureza do desporto, sempre dentro de água, tende também a afastar pessoas, sobretudo as crianças, mas Rui Garcia desvaloriza: «Não se sente que os meninos ficam mais doentes, antes pelo contrário».

O CFC está também associado ao desporto escolar formal, através do Agrupamento de Escolas Coimbra Oeste, embora tenha as portas abertas a todas as escolas que queriam experimentar a modalidade. O clube dá ainda apoio às aulas da Faculdade de Ciências do Deporto e Educação Física da Universidade de Coimbra, instituição com quem também colabora no âmbito de um programa para funcionários, docentes e discentes. Existem ainda outras parcerias com instituições e empresas que permitem ajudar o clube nos patrocínios, às vezes de forma não monetária. «A comunidade empresarial não é forte», nota Rui Garcia, e «as novas tecnologias deslocam a capacidade de as empresas mostrarem a sua imagem e o seu produto, e não precisam propriamente de uma placa nas costas do clube».
Além da quotização, o clube conta com os apoios institucionais, fundos a que se candidatam e da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) que «tem sido sempre um óptimo parceiro e sempre atenta», diz o presidente.
Maior respeito pelo rio e pelo parque
Com um rio que «tem sido cada vez melhor aproveitado», Rui Garcia aponta o caminho a um maior respeito pelo rio. Na água, os canonistas sentem as espécies invasoras, sobretudo no canal que entra pelo Parque da Canção adentro e que tem sido alvo de várias limpezas por parte da Câmara Municipal de Coimbra, a última em Fevereiro. O espaço é tido como um «óptimo canal de formação» mas «é muitas vezes impraticável», nota Rui Garcia. Outro aspecto prende-se com o alimentar dos patos. «Por incrível que pareça, para nós é péssimo», confessa, dando conta que muitas vezes os atletas acabam picados pelos animais.
Em terra, Rui Garcia gostaria de ver mais civismo por parte do cidadão que «muitas vezes não é de Coimbra», reclamando menos lixo, menos destruição, menos pinturas e ainda um estacionamento menos anárquico. «Não há capacidade de as entidades públicas estarem sempre a arranjar e a renovarem, porque, às vezes, a destruição é tão grande.»

O lamento extravasa as barreiras da canoagem. «Custa-me muito quando vejo estragar», desabafa Dulce Maria, que explora, com o marido, o café/ rulote instalado na margem esquerda. Há 14 anos nesta localização, dá-nos conta de comportamentos que vai observando, como pessoas que acendem fogareiros em cima das mesas, ou que vão vergastar os limoeiros mas aponta lixo no chão e o facto de as pessoas não recolherem os dejectos dos animais. «Ainda há dias vimos um carro a passar por cima da ponte pedonal. Toda a gente ficou de boca aberta», acrescenta Dulce Maria.
Apesar destes comportamentos, a forma como o rio é aproveitado merece o reparo positivo de Aín, uma que vez que «não é apenas decoração», diz. Uma realidade bem distante do que acontece no Cazaquistão. «A única forma como usamos o nosso rio é … nada! Há um pouco de pesca, mas geralmente os pescadores estão mais longe da cidade», reconhece Assina.

Na relação com o rio, Rui Garcia defende um contacto mais directo com a água, na margem esquerda. Na sua opinião podia haver «uma esplanada aberta, sem barreiras» que permitisse às pessoas «chegar ao rio sem dificuldades e se descalçar para molhar os pés». «Quem aproveita mais este tipo de comportamentos de vir aqui quase fazer praia são os estudantes estrangeiros, nomeadamente europeus», observa.
De caiaque pelo rio abaixo
Os encantos do Mondego estendem-se para lá dos limites da cidade de Coimbra, onde o rio continua a poder ser explorado num caiaque. Falamos da vertente mais turística da modalidade e das descida do rio, oferecidas por diversas empresas. Com as opções diurna e nocturna, as descidas começam em Penacova. Estes programas acontecem maioritariamente entre Março e Novembro «por questões de procura», conta-nos Luís Maricato, da Caminhos de Água. Ainda assim, podem acontecer em qualquer altura do ano «desde que haja condições de segurança, em termos de caudal do rio».
«O requisito é apenas saber nadar», lança Paulo Silva sobre a descida do rio. Para o representante da Transerrano, o Mondego «é um dos melhores rios para a pratica de canoagem de turismo, visto que todos os dias tem uma descarga de água na barragem a montante (Barragem da Raiva)», um fenómeno considerado fundamental para esta actividade. «O principal desafio para este ano tem a ver com a situação de seca, vamos ver se continuamos a ter essa descarga que nos facilita, a nós e aos clientes, a descida», observa Luís Maricato.

Para quem vive do rio Mondego, entre as dificuldades estão obstáculos como «os açudes, criados pelo homem, as árvores caídas e o lixo nas margens do rio – fruto de falta de limpeza do rio», elenca-nos Jonas Van Vossole, representante d’ O Pioneiro do Mondego. Luís Maricato acrescenta a falta de condições de acesso ao rio e de balneários e casas de banho. «O Mondego podia ter muito melhores condições de trabalho para as empresas e para associações que quisessem promover a descida e dessa forma trazer muito mais gente aqui à região», admite.
Na promoção do Mondego, Jonas Van Vossole fala de um interesse «restrito das autoridades locais, autárquicas e regionais». Considera ser importante uma maior divulgação do rio «como um conceito/marca geral de turismo, para atrair turistas a nível nacional e internacional». Depois da quebra sentida durante a pandemia, Luís Maricato, com clientes de todo o país, receia o impacto do aumento dos preços dos combustíveis «que pode fazer com que alguns pessoas deixem de encarar esta actividade como sendo exequível face àquilo que é o orçamento familiar».

Onde anda o Basófias?
Na vertente turística do rio, falar do Mondego é falar de Basófias. As obras de requalificação do Parque Dr. Manuel Braga obrigaram à suspensão a actividade do Basófias, no rio desde 1993, e a data de regresso é ainda incerta. «As obras eram para estar prontas no início deste ano, depois passaram para Abril e agora falam-nos em Julho», lamenta João Madeira. O presidente da Odabarca receia «que seja mais uma data para depois ser prolongada». A falta de um cais provisório durante estas obras tem sido o principal entrave para a continuação dos passeios, segundo o responsável.
O Basófias convida a uma descoberta da cidade, a partir do rio, entre o açude e a Lapa dos Esteios, num percurso de cerca de 50 minutos. A época de maior procura é entre Abril e Setembro, representando «90 por cento da actividade do barco», remata João Madeira.
