Quem está no mercado de segunda mão fala de estigma social mas nota mudanças nas mentalidades. «Acho óptimo reaproveitar e reutilizar roupas», diz Susete Dias, cliente habitual de uma loja de produtos em segunda mão em Coimbra, dedicada a crianças. Cruzamo-nos quando traz produtos para vender. «Identifico-me com a missão da loja, de o que já não serve a uma criança pode servir a outra.» Este é o mote da Kid to Kid, situada à entrada da cidade, que compra e vende artigos de crianças até aos 12 anos. Em regime de franchising, está aberta desde Março de 2008.
«A minha loja foi a quarta do país, neste momento somos vinte e uma», recorda Conceição Assis, que entrou neste mercado quase por acaso. Na altura, foi informada de que o laboratório onde trabalhava podia ser vendido e pensou que se devia lançar num negócio ligado à sua área. Mas durante uma visita a uma feira no Norte do país, a empresária ficou com uma pulga atrás da orelha depois de ver roupa de criança marcada a dois e três euros. «No fim de falar com o master do franchising, fiquei fascinada. “Realmente”, pensei: “Isto tem toda a lógica: as crianças deixam a roupa nova, crescem e os pais gastam realmente muito dinheiro”».

O tipo de negócio resume-se à compra de produtos em bom estado a particulares, para depois serem revendidos. Uma lógica seguida por Isabel Santos, que gere A Casa Torta, de portas abertas desde 2013. Isabel cresceu numa família que já trocava a roupa desnecessária, apenas por acharem interessante. A comerciante também viveu um ano em Paris onde, recorda, este tipo de negócio é normal e, muitas vezes, surge em zonas de venda de produtos de luxo: «Não havia problema nenhum». Por cá, admite que a receptividade foi melhor do que aquilo que imaginava, mas, ainda assim, reconhece que nos primeiros anos as pessoas não estavam habituadas e achavam que o conceito da segunda mão era o de feira, acrescenta.
Da necessidade às preocupações ambientais

Há duas lojas na Baixa de Coimbra onde os produtos chegam por doação. Há de tudo um pouco na Partilha Constante – Associação: electrodomésticos, móveis, roupa ou utilidades para casa. A associação sem fins lucrativos tem como missão a implementação de programas para erradicar a pobreza. Segundo Vítor Pinto, presidente da direcção, as pessoas recorrem à associação, que faz a recolha dos bens, quando se querem desfazer de coisas que têm em casa e ajudar uma instituição de solidariedade social.
Com presença a nível nacional, e em Coimbra há mais de 20 anos, estas lojas acabam por ter uma procura diversificada. Vítor Pinto nota que a maioria das pessoas tem menos possibilidades económicas, dada a natureza do trabalho que desenvolvem. «São lojas que proporcionam a compra de artigos que de outra forma seria mais complicado obter», salienta. Os preços dos produtos para venda são simbólicos, segundo o responsável. Mas Vítor Pinto nota outro tipo de clientes por estas lojas, como sejam artistas, companhias de teatro e mesmo clientes que procuram curiosidades e artigos até com uma certa raridade. «Comprar em segunda mão é também um bocado moda», considera Isabel Santos que tem sentido algumas mudanças no mercado, hoje mais procurado.
Uma segunda razão prende-se, segundo a empresária, com o facto de as pessoas começarem a ver que a roupa tem alguma qualidade. Ainda assim, recorda a relutância dos clientes nos primeiros anos de negócio: «As pessoas achavam que iam comprar as roupas das amigas, da pessoa que trabalhava ao pé dela». Conceição Assis partilha outras histórias de desconfiança na compra em segunda mão, mas sublinha que tem havido uma evolução e que as pessoas foram mudando a mentalidade. A empresária aponta o dedo ao facto de a sociedade estar hoje mais atenta a questões ligadas à economia circular e à reciclagem.

Para Isabel Santos o grande pulo no negócio foi sentido há cerca de três anos, coincidindo com a chegada de mais cidadãos brasileiros à cidade. «Estão muito habituados aos “brechós” e aos bazares, para eles é perfeitamente natural», observa. Entre os clientes, a empresária destaca ainda jovens universitários e do secundário, porque encontram coisas de marca. No verão, os turistas acabam por dar uma grande ajuda ao negócio.
Na diferença também se procuram novos clientes, como acontece com o espaço Relíquias de um Passado, na Rua Pedro Olaio, que à venda de bens em segunda mão como móveis, louça, livros ou artigos de decoração, junta agora o café-concerto Relíquias Bar. «Há pessoas que vêm beber um café e depois acabam por ir ver os livros», exemplifica Bruno Almeida, sócio-gerente da empresa que abriu o terceiro espaço da marca em plena pandemia.
O caminho da resiliência

No caminho até 2022, Conceição Assis considera que uma das maiores dificuldades foi desmistificar a compra de roupa em segunda mão, referindo que há cuidados que se têm de ter como a lavagem. «Não foi só a pessoa que a vestiu», assinala. Outro obstáculo está em encontrar um espaço acessível. «Nesta cidade é muito caro», admite Conceição que durante nove anos conciliou a sua profissão com a loja. Embora hoje lhe seja possível viver só deste negócio, não deixa de lembrar que tem os custos normais de outro qualquer tipo de loja.
A gestão da roupa é, para Isabel Santos, uma dificuldade acrescida pelo facto de estar sozinha na loja. O acumular de peças não vendidas acaba por ser outro ponto. N’A Casa Torta, de todas as peças entregues, o cliente recebe uma percentagem e se a peça não for escoada é devolvida. «Há pessoas que não vêm [recolher a roupa] ou porque se esquecem, ou porque mudam de sítio, ou porque vinham apenas depositar a roupa e isso complica-nos a tarefa». Caso não sejam recolhidas as peças são doadas. A qualidade das peças é também fundamental para quem está neste mercado de segunda mão. Não só porque a qualidade do produto dita o valor final, mas igualmente porque as pelas devem chegar o mais cuidadas possíveis. No caso da roupa, as exigências passam por estar lavadas, com todos os botões e sem nódoas.

No caso dos bens recolhidos pela Partilha Constante, Vítor Pinto destaca a dificuldade que têm de, por vezes, lidar com doações que são uma tentativa de limpar a casa a custo zero. «Para nós é extremamente doloroso», lamenta. A pandemia tem também afectado estes negócios e o impacto tem sido sentido na diminuição de produtos para venda e no consumo. «Tínhamos uma boa facturação, mas, depois da pandemia, reduziu bastante», constata Bruno Almeida. Na procura de soluções, Conceição Assis apostou na venda nas redes sociais – «Foi uma forma de vender e não estar parado». Já para Isabel Santos a questão centrou-se sobretudo na reacção dos clientes depois do encerramento. Mas o resultado foi positivo: «No primeiro dia em que abri tive logo pessoas que viram que a já estava aberta e vieram espreitar».
Já para Vítor Pinto, as plataformas online são um obstáculo à actividade da associação. Segundo o responsável da associação, pela ausência de recursos de algumas famílias, muitas tentam, em primeira instância, adquirir algum valor. Dos que há uma década recorriam à associação, hoje uma percentagem tenta conseguir algum dividendo, continua. Bruno Almeida também sente o impacto das novas plataformas. O empresário verifica contactos quando a venda online é mal sucedida. «Depois já é material visto e já não interessa», conclui.
O mal de uns, o sucesso de outros

A internet tem sido a casa da Loop Co., startup nascida em Coimbra em 2016. Lançaram-se inicialmente no segmento dos manuais escolares e, em 2019, começaram a apostar na revenda de produtos de puericultura e na venda de decoração e brinquedos sustentáveis. «A Baby Loop nasceu de uma ideia de Carolina Patrocínio, mãe de três crianças em apenas 4 anos», conta Gustavo Alves, co-fundador da Loop Co., «que sentiu necessidade de arranjar uma solução sustentável para esses equipamentos, que servisse não só os seus propósitos como os de todos os pais.»
Segundo Gustavo Alves, a aceitação tem sido positiva e os números retratam a actividade dos últimos três anos: a nossa plataforma online de revenda de puericultura já poupou às famílias mais de 120 mil euros. A par com a Book in Loop, a empresa contabiliza mais de 900 mil produtos de mercado em re-circulação. Seja por questões ambientais ou pela poupança significativa que podem fazer, as famílias estão cada vez mais dispostas a comprarem produtos em segunda mão, constata Gustavo Alves.

Vender na internet pode ser mais acessível e cómodo, mas o estigma continua lá. Gustavo Alves considera que ainda existe o preconceito que vê a compra em segunda mão como a compra de um produto sem qualidade, embora assegure um processo rigoroso de avaliação a cada produto disponível. O certo é que a internet parece ter vindo para ficar. Gustavo Alves associa a mais-valia do meio ao facto de as pessoas terem menos tempo para se deslocarem aos locais necessários para fazer as suas compras, não esquecendo as consequências da pandemia que vivemos. «Penso que poucas são as pessoas que querem estar em lojas cheias de pessoas e esperar horas em filas em pé, nomeadamente com uma máscara», marca o co-fundador da Loop Co. «A crescente emergência plataformas de e-commerce que agregam várias marcas do mesmo sector», continua, «são também uma realidade, facilitando toda a experiência de utilizador.»
