Fernando Castelo Branco pensou no projecto ao pormenor. Depois de uma primeira aventura no Quebra Costas, com a gelataria Così, em 2019, decidiu «passar a pasta» e abrir um novo espaço não só com gelados, a sua grande paixão, mas também cafetaria e, sobretudo, bom ambiente e um espírito capaz de dinamizar a Baixa de Coimbra.

A Doppo fica naquela que o engenheiro e professor considera a mais bela praça da cidade, a Praça do Comércio. E nasce numa altura em que a revitalização da zona tem feito correr tinta, desde a discussão de vias de futuro entre comerciantes e autarquia, à promoção de eventos como o Rua Zero – (Re)Imagindo Coimbra e instalação de novos espaços como o COL.ECO e a Loop Co.. O espaço da gelataria e cafetaria, desenhada pelo arquitecto premiado João Mendes Ribeiro, «foi pensado com muito amor», já por isso, o empresário escolheu um profissional da área que admira.

«Olhámos com uma perspectiva da utilidade e já a pensar numa próxima pandemia, por isso, incluímos um balcão de venda ao postigo», explica Castelo Branco. Há uma esplanada na praça, onde até as cadeiras cor-de-laranja convidam ao sabor, e uma sala num piso inferior onde «as pessoas podem encontrar conforto nos dias mais nublados». Aí, as paredes já são todas creme e verde água e, foi sentados numa das mesas, que o proprietário nos contou a importância que tem para ele o facto de o espaço ser convidativo, colorido e onde todas e todos se possam sentir bem.
Por exemplo: «Quando temos clientes estrangeiros, gostamos de responder-lhes nos seus respectivos idiomas. Para mim, é muito importante envolver os clientes, ter uma boa comunicação para eles se sentirem acolhidos e quererem voltar. Costumamos dar os gelados a provar para poderem escolher o sabor que preferem».

Saberes e sabores
A atenção ao pormenor, também passa pela escolha e compra de ingredientes para a confecção dos gelados. «As laranjas e os limões, por exemplo, sempre que possível, vamos buscar à quinta dos avós do [funcionário] Nuno. Se não conseguirmos, tentamos comprar o mais perto possível», explica Fernando Castelo Branco. «Alguns produtos temos mesmo de ir buscar fora, como a pasta de avelã. Não temos capacidade e material para fazer pasta, então vamos buscá-la a Itália».

O gelado de requeijão e figo, caramelizado pelo próprio chef gelateiro, é uma especialidade da casa, também inspirada numa receita italiana. Mas há muitas combinações no menu que, logo à entrada, nos deixam com água na boca. Vão desde os sabores mais comuns, como o chocolate e a baunilha, aos mais exóticos, como o ananás e manjericão, abacate e lima, banana laranja e hortelã. Os elogios são muitos, conta Fernando, orgulhoso por usar « equipamentos de altíssima qualidade que são encontrados em algumas das melhores gelatarias artesanais italianas – e o equipamento, de facto, faz diferença».

A Doppo abriu em Junho e as filas já são prato do dia. O formato é alargado ao serviço de cafetaria, onde se encontra, por exemplo, o tradicional affogato, que é gelado artesanal mergulhado em café espresso. «E ainda pretendo investir mais. Gostava de alargar até à pastelaria, pelo menos na altura do Inverno. Vender bolo à fatia para acompanhar o nosso menu de café, por exemplo». Café também escolhido a dedo, com um blend originário do Brasil, Indonésia e Índia. Menos torrado, é mais aromático e mais ácido, moído no momento de ser servido e tirado na menina dos olhos de Fernando: a máquina de café La Marzocco.

Diversidade, sustentabilidade e inclusão
O amor pelos gelados, que existe desde que Fernando se lembra mas há quatro anos se transformou em ofício, levou-o até à cidade italiana de Bolonha para fazer formação individualizada e personalizada com o mestre gelateiro Giacomo Schiavone. Teve a oportunidade de aprender métodos tradicionais italianos e segredos que lhe permitem confecionar os gelados e criar os melhores sabores, de forma a assegurar a qualidade da oferta.
A inclusão foi, desde sempre, uma preocupação, como dar a possibilidade a pessoas diabéticas, com intolerâncias e restrições alimentares (veganismo, glúten e lactose) de comer os seus produtos. Para isso, a formação que fez na área da confecção de gelados sem adição de açúcares foi essencial. No caso dos diabéticos, o açúcar é substituído por adoçantes naturais tais como o eritritol e o xilitol, que, para além de adoçar de uma forma menos calórica, permitem atingir a consistência dos gelados açucarados.

A venda de cones sem glúten, a troca de espátula aquando da raspagem do gelado e o aviso aos clientes dos riscos, são os principais cuidados que o proprietário afirma ter no caso dos clientes intolerantes ao glúten, apesar de não poder garantir que não há contaminação.
Perguntámos ao mestre gelateiro se a sustentabilidade também era uma preocupação. «Sim, o nosso negócio funciona muito com o descartável, copos, colheres, guardanapos e, por isso, não podíamos ficar indiferentes à ecologia. Os copos são de papel e as colheres e embalagens de take-away são compostáveis, de modo a reduzir o impacto ambiental. As pessoas podem e devem reutilizar as embalagens, desde que as tragam higienizadas».
Saímos (com dificuldade) entre picolés artesanais, mais conhecidos por «gelados de pauzinho», sanduíches de gelado de nata mergulhadas em chocolate negro e tantos cones e copos coloridos. Pelo menos, um dos objectivos de Fernando cumprido: ficámos com vontade de voltar.
