Ainda não há placas a indicar no exterior, por isso temos a sensação de estar prestes a descobrir um segredo só nosso, mas não. É oficial: o Mercado Municipal D. Pedro V, em Coimbra, ganhou uma nova Praça da Restauração, moderna e desempoeirada, com oferta para vários gostos e carteiras também. No rés-do-chão, os comerciantes celebram. «Já se nota mais movimento, vai ser muito bom para o Mercado», diz Clarinda Fonseca. «Tem uma coisa espectacular que é o facto de ser um espaço enorme, é maravilhoso, e aqui no centro da cidade penso que é muito bom», atira Álvaro Almeida. «Agora só depende do dinamismo de quem está a gerir, têm de saber cativar as pessoas.»

André Santo garante que os sorrisos têm mesmo sido o prato do dia. «Sabemos que esta mudança traz desconforto para quem está cá há tantos anos, às vezes podem parecer mudanças a mais, mas é inacreditável o acolhimento a que fomos sujeitos e isso dá-nos ainda mais vontade de estar aqui e trabalhar com eles», diz o gerente da Praça da Restauração. Toda a parte central do primeiro piso do Mercado D. Pedro V concentra agora serviços de cafetaria, pastelaria, gelataria, um espaço com frutas e sumos, outro com crepes e waffles, um bar com cocktails, taberna de vinhos e petiscos, saladas e sopas, pizzas e pastas, sushi, peixe e marisco, carnes, hambúrgueres e takeaway.

«Queríamos ter oferta suficiente para agradar a todo o tipo de público. A qualidade é imprescindível mas a variedade para nós é fundamental, o facto de termos uma banca de sushi ao lado de uma banca de pizzas e comida mais conotada como comida rápida, logo aí diz que os consumidores têm poder de compra diferente também», continua André Santo. Da nossa mesa, onde provamos uma sopa do dia e esperamos por uma Carbonara de Cogumelos, vemos pessoas que claramente trabalham nas redondezas, funcionários do município e do próprio Mercado Municipal, jovens casais, idosos e grupos de adolescentes. É a tão esperada nova vida do espaço que foi renovado com o objectivo de gerar novas dinâmicas. Um investimento autárquico superior a 1,5 milhões de euros, financiado em mais de 900 mil euros pelo Centro 2020.

«O Renasceia concorreu a dois grandes projectos numa altura em que o mundo estavam virado de pernas para o ar, um nas Doca [no Parque Verde do Mondego] e este no Mercado. Foi em 2020, em plena pandemia, quando acredito que mais ninguém o fizesse», conta André Santo, que se considera mero executor das aspirações do grupo empresarial. «Eu não sou empreendedor, se me perguntarem se quero ter um restaurante meu no futuro provavelmente digo que não, mas o que me atrai sempre nisto é o desafio e o facto de a responsabilidade ser muita e de saber que estou a dar a cara e arcar das responsabilidades não me afasta, tem tendência a atrair-me», continua o conimbricense.
Formado em Educação Física, André confessa que se o desafio representar um pequeno contributo para a economia local, tanto melhor. «Ainda hoje considero que o [ginásio] Fit & Fun, que é uma casa para mim, faz a diferença na vida de algumas pessoas. Pode parecer prepotente auto-intitularmo-nos como percursores da mudança, não somos, pelo menos não de uma mudança radical em toda a cidade de Coimbra, agora se pensarmos que podemos mudar a vida de quem nos visita, mesa a mesa, pedido a pedido, pessoa a pessoa, o privilégio é esse.»

André Santo, gerente Prala da Restauração do Mercado D. Pedro V
«Quando viajo gosto de visitar o mercado municipal porque gosto de entrar em contacto com a cultura local e acho que é isso que significa o estarmos no Mercado»

Apita o pager redondo na mesa. O estabelecimento usa o sistema para avisar os clientes de que podem ir buscar a sua refeição ao balcão. Provavelmente já o conhecem das praças de alimentação de alguns centros comerciais, mas as semelhanças ficam-se por aí mesmo ou pelo menos assim espera a gerência. «Não queremos parecer um shopping. Por exemplo, ao nível das cartas, seria fácil estandardizá-las mas optámos por esta solução das placas, distribuídas por todas as bancas a dar a ideia de mercado, de negócio local, escrito à mão, mudado todos os dias, eventualmente com promoções e a chamar a atenção para alguns produtos», explica André Santo. «Outra coisa engraçada, que esperamos conseguir manter e agilizar, é o facto de as carnes serem a corte e o peixe ao peso, porque acho que isto traz uma liberdade para grupos que é genial. Fazemos a dose de acordo com a fome, os hábitos, a preferência na altura.
Eduardo Gonçalves partilha responsabilidades na execução deste projecto, cúmplice de André também na gestão do ginásio Fit & Fun, Restaurante Ar Puro no Parque de Campismo de Coimbra, Restaurante Piscinas do Mondego e Terraço Bairrada. «Este projecto específico dá-me muita alegria porque o mercado para mim sempre foi um espaço obsoleto. Tenho quase 40 anos e lembro-me de quando era pequeno, a minha mãe vir ao mercado de forma muito pontual», recorda André Santo. «Como estudei cá, passei aqui à porta milhares de vezes mas o mercado não existia para mim. Quando vim cá, há meses, fiquei impressionado pela falta de vida e agora dizem-me que viram aqui ontem e hoje caras que nunca tinham visto no mercado e isso dá-me muito gozo», atira.

A apresentação dos pratos é impecável e o sabor não fica atrás. Pagámos 5,5 € e os preços do restante menu de pastas, que vão desde a Serrana e de Camarão à Tagliatelle de Salmão e Vegetariana. As pizzas custam entre 6 € e 11 €, há Francesinha e os míticos Pão com Chouriço, de Carnes e Alho. As bebidas são vendidas à parte, noutra banca e há muita escolha, do vinho à sangria, passando pela cerveja e os cocktails.
Eduardo Gonçalves admite que o maior desafio nem é a parte da cozinha, mas sim a criação de corredores de serviço para os cerca de 40 funcionários, adaptá-los às pessoas e colocá-las o mais à vontade possível nos postos e responsabilidades que têm. A missão exige um maior acompanhamento e a aposta em profissionais como Paulo Felisberto, mentor das cartas e responsável pela formação do pessoal. A ideia é «colocar o mercado disponível para a cidade e fazer disto não só um sítio para vir comer e beber, mas para desfrutar, como espaço de lazer», explica Eduardo, que adianta que o conceito já não era estranho a nenhum dos responsáveis. Conhecem mercados e fizeram novas visitas de estudo entretanto, sobretudo no Norte do país. «Quando viajo gosto de visitar o mercado municipal porque gosto de entrar em contacto com a cultura local e acho que é isso que significa o estarmos no Mercado», atira André Santo.
«A grande diferença deste em relação aos outros todos é o facto de, apesar de ter a oferta estar repartida por diferentes bancas, a gestão ser feita pelo mesmo grupo. Não sei se o resultado será melhor ou pior mas quisemos ser nós a assumir a responsabilidade por isto tudo, dentro deste contexto de pandemia foi o que nos fez mais sentido», remata Eduardo Gonçalves. Os espaços de restauração, bebidas e afins são explorados pela empresa Renasceia – Hotelaria e Restauração, Lda., que venceu o concurso público, adjudicado em Outubro de 2020, pelo valor anual de 23 400 euros. O direito de exploração tem um prazo de 20 anos, renovável por períodos de um ano e até ao limite de cinco renovações.

O horário de funcionamento do Mercado Municipal D. Pedro V foi prolongado. Os pisos 1 e 2 passam a estar abertos até às 24h, de 2.ª a 4.ª feira e até às 2h de 5.ª a Sábado.

A concessão inclui uma zona de backoffice destinada à lavagem de loiça, vestiários e arrumos e as novidades não acabaram ainda, vai incluir um Restaurante do Peixe. Fresco, claro está. «Vai ser difícil para esta nossa dimensão utilizarmos só um fornecedor daqui mas temos tentado complementar com bancas dos nossos vizinhos — peixes do mercado, carne, legumes, frutos secos, ervas aromáticas. Tentamos completar aqui com fornecedores que neste momento são nossos vizinhos e acho que pretendem o mesmo que nós, que é revitalizar o mercado.»
Numa nota de imprensa enviada à redacção, o município fez saber que o objectivo é criar novas dinâmicas que atraiam novos públicos que ajudem a dar uma nova vida ao Mercado Municipal e à Baixa de Coimbra. «Penso que esta Praça da Restauração vai cumprir com essa função de dinamização do espaço, pela diversidade de oferta que tem, de qualidade, por poder tornar-se num ponto de visita obrigatório, à semelhança do que acontece noutros mercados existentes em cidades portuguesas e europeias», declara o vereador da Câmara Municipal de Coimbra responsável pela na área dos Mercados Municipais e Feiras, Miguel Fonseca.

O horário de funcionamento do Mercado Municipal D. Pedro V foi prolongado. Os pisos 1 e 2 passam a estar abertos até às 24h, de segunda a quarta-feira, e até às 2h de quinta-feira a sábado. Já o piso 0 passa a estar aberto até às 19h, de segunda-feira a sábado. O Mercado passa, ainda, a funcionar nos feriados de 15 de Abril (Sexta-feira Santa), 10 de Junho (Dia de Portugal), 1 de Dezembro (Restauração da Independência) e 8 de dezembro (Imaculada Conceição).
Além da Praça da Restauração, há espaço para pequenas feiras temáticas e eventos de animação. Os locais de venda ainda vagos no Mercado Municipal D. Pedro V acabam de ser sujeitos a um concurso de atribuição por hasta pública, com novos valores-padrão mais reduzidos ou inexistentes, de modo a tentar cativar potenciais interessados. Dos 78 espaços por ocupar, foram concessionados 21 (12 lojas e 9 bancas). Os restantes 57 espaços vão ser alvo de um novo procedimento, em data e hora a divulgar pelo município. «Para nós seria ideal que estivesse tudo aberto. Quanto mais dinâmica tiver o mercado melhor para todos», comenta Eduardo Gonçalves.

A partir das 7h, a cafetaria, pastelaria e gelataria estão abertas. A partir das 12h já se pode almoçar. E a noite, vai passar por aqui? «Espero que sim», responde André Santo. Na calha, está dinamização cultural e neste departamento a equipa está aberta a sugestões, contactos e parcerias. O site com todas estas informações deve ficar disponível em abrir. «Podemos fazer a diferença a cada cliente que nos visita e depois, com um pouco de sorte, muito trabalho, capacidade de aprendizagem e de ajuste daquilo que vamos fazendo ao longo do tempo, podemos almejar em fazer a diferença na cidade», atira André Santo. E remata: «Faço aqui um apelo a todos que nos visitem, não só pelas nossas bancas, mas para levarem coisas boas para casa e alimentarem estas pessoas que precisam da cidade, precisam de nós. Eu próprio estou a tentar fazer essa mudança, levar mais coisas frescas para casa, e só passando pelas bancas é que percebemos o valor dos produtos e o valor humano, não só porque soa bem mas porque faz sentido.»
Quem o viu e quem o vê
Clarinda Fonseca tinha 16 anos quando começou a trabalhar no Mercado Municipal D. Pedro V. Primeiro num talho, depois por conta própria, a vender as verduras que produz. Conheceu várias fases do Mercado Municipal D. Pedro V e garante que as novidades no primeiro piso dão «outra dinâmica, outra alegria ao mercado». A comerciante diz que já notou mais movimento e ela própria já é cliente dos novos inquilinos. «Ainda agora vim de lá tomar café, há uma boa relação e já me vieram pedir hortelã só que eu não tinha», diz a vendedora que pelas 15h já é a única de serviço e com a banca descoberta. Algumas lojas também, com roupas, acessórios e brinquedos de crianças.

Álvaro Almeida também já subiu ao primeiro piso, provou, comprou e garante: é tudo muito bom. Não tem dúvidas de que a nova Praça da Restauração vai levar pessoas novas ao Mercado, sobretudo estudantes e turistas. «Vamos pela positiva!», atira o talhante que deu literalmente os primeiros passos neste mesmo espaço, há mais de cinquenta anos.
«Eu passei por aqui uma data de épocas. Quando aqui cheguei era muito mau. Não havia condições nenhumas, os tempos eram outros, as pessoas eram diferentes. Havia mais necessidade, vinha muita gente vender as suas coisas. A gente vinha aqui à Baixa e era mercearias por todo o lado. Não havia bacalhau de supermercado, era só peixe fresco. Houve uma época em que estivemos muito melhor, logo depois do 25 de Abril e até abrir o primeiro [supermercado] Inô. Isto era um mundo, a gente começava às 5h e acabava às 15h porque já não havia nada», lembra.

O talhante garante que foi a abertura do colossal Fórum Coimbra a grande responsável pelo esvaziamento comercial e humano do Mercado Municipal e de toda a Baixa da cidade — «Foram à vida, mexeu muito com esta parte» —, no entanto, não é a nostalgia que move o sexagenário, que acredita que «este Mercado está no centro da cidade e se as pessoas quiserem fazer dele uma grande casa fazem com facilidade, assim o queiram». Álvaro Almeida sugere que haja dinamismo por parte dos próprios operadores do rés-do-chão do mercado e que talvez a nova Praça possa servir de motivação para melhorar esteticamente e alargar os horários de trabalho para atrair movimento.
«A Câmara devia encontrar uma forma de educar as pessoas, elucidá-las e ensinar-lhes a fazer montras e essas coisas. Arranjar uma forma de dizer que assim seria melhor e elas ganhariam muito mais», aponta o comerciante. «Se aquilo lá em cima tiver muito sucesso, e eu espero que sim, isto em baixo terá de ter outra forma. Eu conto com isso. Se lá em cima houver dinamismo, esta parte vai atrás. Gosto muito do mercado. Nasci aqui, fui aqui criado, vim para aqui com poucos anos de vida. Já vi este Mercado ser uma coisa espectacular e ser uma decadência terrível, mas não quero acreditar que acabe dessa forma porque é um sítio muito bom. Devia haver um núcleo de pessoas na Câmara com uma ideia de que isto terá de avançar para o bonito, para o bem receber, uma bela sala de visitas para Coimbra.»
«Este Mercado está no centro da cidade e se as pessoas quiserem fazer dele uma grande casa fazem com facilidade, assim o queiram.»
Álvaro Almeida, talhante

Localizado na zona originalmente conhecida como Horta de Santa Cruz, a construção do Mercado D. Pedro V, como tantas outras, não foi pacífica. Aconteceu em meados do século XIX, época em que vendedores serviam a população em condições precárias pelas ruas e praças. Foi criado o edifício de raiz para o abastecimento de bens alimentares à população, mas inicialmente era em grande parte ao ar livre e só mais tarde, no arranque do actual milénio, é que assumiu a forma actual.
Durante mais de um século terá sido o principal local de compra e venda de hortícolas, peixe, carne e ovos em Coimbra. Os modernos mini, super e hipermercados e centros comerciais superaram a oferta, mas talvez devido ao ambiente único, qualidade dos produtos e actuais tendências alimentares o certo é que o velho Mercado resiste e cabe à comunidade perpetuá-lo, (re)descobrindo-lhe o valor ou descobrindo-lhe novos interesses.
Na página do Mercado na internet, encontram toda a história contada ao pormenor por Carlos Santarém Andrade. Está patente no rés-do-chão do edifício uma pequena mostra fotográfica onde podem ver como era o espaço antes das obras de requalificação.
