Olá, meus pantagruélicos coimbrinhas.
Aquando do texto acerca do Spaghetti Notte nesta mesma rubrica, referi que havia somente dois restaurantes italianos na cidade dignos desse nome. Sendo um o atrás referido, abro-vos hoje a porta ao segundo.
Inaugurado no exato dealbar da pandemia, este pequeno estabelecimento manteve-se estóico e resistiu inabalavelmente para nos providenciar o que de melhor tem a gastronomia transalpina. Num espaço exíguo, onde antes plantada uma mercearia, reside agora um casal que torna esta meia-dúzia de metros quadrados numa típica trattoria à italiana. Entretanto, face ao sucesso anunciado, alargaram recentemente o espaço, rompido por uma rua.

Além das famigeradas iguarias italianas que pululam em todo e qualquer boteco desta cidade, é refrescante ver um estabelecimento a servir Arancini, que só havia visto em terras de Garibaldi e finalmente Canoli, tão insensivelmente retirados da carta do Tapas nas Costas, como então aqui fiz questão de referir.
Este pitoresco recanto que tem como cenário de fundo o vértice nordeste da Sé Velha dá pelo nome de Italianino e foi uma lufada de ar fresco na conservadora cidade, tão afoita a derrubar árvores e a negligenciar o seu secular património.
De início, podia falar da Burrata, salada agraciada com o cremoso queijo pugliese, ou da Polenta Frita com Molho Gorgonzola. Mas sendo estes pratos já mais usuais nas mesas da restauração nacional, a minha inclinação recai sempre sobre o Arancini que, pela sua forma e cor, fazem lembrar o cítrico fruto.
Podemos equivalê-los à Coxinha de Galinha, mas aqui de carne, arroz e queijo, temperados de forma sublime, numa fusão de intensos sabores que vos abrirá o paladar para, quiçá, pedalarem pelos mais de 200km de ciclovias que o Município pretende instalar nos próximos dez anos. Velocidade semelhante à que se plantam árvores.
Para refeição propriamente dita temos duas vias. Ou enveredamos pelas Pizzas, que podem ser as tradicionais ou então especialidades, mas sempre vera pizza. Aqui não entra ananás. Ou enveredamos pelas Pastas, onde se incluem Lasagna e Ravioli.
Eu, um clássico coimbrinha, deixo-me enlear pelo perfume do manjericão esmagado em pinhão e escolho a conservadora Pasta al Pesto. Têm-na com ou sem Burrata. Não é preciso inovar muito, que para isso cá teremos a IBM, com o seu Centro de Inovação para 2024. Coimbra, cidade do futuro. Está tudo a acontecer, mas é só lá mais à frente. Cidade adiada, portanto.
Ainda no Pesto, foi-nos permitido escolher qual o tipo de massa que preferíamos. O que atesta bem da amabilidade e acolhimento caseiro que este estabelecimento promove.
Para trancar a refeição não podia faltar o Tiramisú e a Panna Cotta, mas desenganem-se, caríssimos. Se leram com atenção o início do texto sabem, desde já, que os meus olhos verteram sofregamente sobre o Cannoli.
E sobre ele, nada vou escrever. Tão somente transcrever o que nos diz o menu, e se depois disto não o quiserem provar, bem-aventurados os pobres de espírito: Cannoli Siciliani Artigianali com Interno al Cioccolato Fondente e Creme de Pistachio. Como assevera Peter Clemenza no Padrinho: Leave the gun, take the cannoli.
Ah, o facto de se poder ver e ouvir o proprietário Felice («feliz» em português e quão apropriado), a deambular pelo espaço, cantando, assobiando e comunicando com as mesas é, por si só, um
espetáculo digno de visita. Sempre com reserva, que esta casa já joga na primeira liga.
Pantagruélicas saudações, meus coimbrinhas.

