Olá, meus pantagruélicos coimbrinhas.
Não podemos andar apenas em tainadas, almoçaradas e jantaradas regadas a álcool, certo?
Devemos também intervalar, ali a meio da manhã ou da tarde, com algo mais frugal, mais propenso para a hora. O chamado brunch. Brunch, que inicialmente se popularizou nos Estados Unidos, como refeição habitualmente tomada ao fim-de-semana a horas mais tardias para os valdevinos da noite precedente e, como o nome indica, algures entre o pequeno-almoço (breakfast) e o almoço (lunch).
Como entrámos agora no mês de todos os meses – o Maião – que se cante Ó Maião, Maião! É Queima das Fitas, Noites do Parque com Ivete Sangalo, Coldplay a rebentar pelas costuras, arranque oficial do Rally de Portugal, Festival de Sopas (entretanto terminado) e Festival das Francesinhas (até dia 14), que melhor ocasião para vos propor o melhor brunch da cidade, meus eternos ébrios?
O Salatina, na Rua do Brasil. Para quem desconhece tão coimbrão termo, por favor esclarecer neste magnífico artigo da Coimbra Coolectiva. Todos os vossos distúrbios, disfunções, moléstias, mazelas, indisposições, mal-estares, adoecimentos, padecimentos, patologias, ataques, achaques e anátemas
encontrarão aqui a sua cura.
Saltámos o segmento Pequenos-almoços e Lanches, que inclui croissants, scones, wraps, Tosta Creme de Abacate e Ovo Escalfado e seguimos diretamente para os não menos ávidos Ovos Benedict. Este é, por excelência e mérito, o chef-d’oeuvre dos primordiais pratos de qualquer boémio instruído. O Big Mac que estudou.
Bolo do caco em dose dupla, servido com quebradiças tiras de bacon, coroado com ovos escalfados que se cobrem de deleitoso e dourado magma de molho holandês, voluptuoso manto real. Só há uma forma de fruir em plenitude da dádiva que Charles Ranhofer concebeu: com a mesma frieza com que o Governo decidiu instalar o novo Tribunal Central Administrativo e Fiscal do Centro em Castelo Branco, fincamos, sem dó nem piedade, a reluzente faca diretamente no coração do ovo, deixando-a tecer o seu orgânico trajeto até à base do prato, rompendo todas as camadas que se lhe deparam e que
serão, entretanto, envolvidas pelo zigótico derrame.
De seguida, com a delicadeza que a peça exige, elevamos vagarosamente, mas sem nunca permitir que os sucos do molho e do ovo escapem por entre os diastemas do garfo, e consentimos, finalmente, que os sabores nos envolvam em tépida paixão gustativa. Depois de consumado o ato, a cerâmica somente com vestígios do que há momentos havia sido o reluzente enlevo, recuperamos, qual Lugrade – com devido apoio governamental que esperamos não seja vã promessa política para cair em saco roto –
para o próximo ascético momento: as panquecas.
Para quem nunca as tentou fazer em casa ou não as consumiu num qualquer estabelecimento, não entenderá jamais a ciência por detrás deste cânone da pastelaria ligeira. O Salatina fá-las comme il faut, esponjosos colchões circulares, quais camas de amor de um qualquer motel, levianamente acolunados, transbordando o translúcido néctar do xarope de ácer, seiva de vida que nos alimenta a alma a cada garfada morosamente digerida.
A leveza de cada disco só tem equivalência à efemeridade do algodão doce em dia de feira. A uniforme moleza destas panquecas constata-se aquando do embate do garfo na dourada massa, fazendo-a deprimir ligeiramente, para, num suave e lânguido pulsar, retomar à sua forma original. Não são panquecas, são panfazeramor.
Não nos despedimos como nos despediremos este sábado, no Sala 8, num concerto de homenagem a Marion Cobretti, mítico vocalista dos Clockwork Boys, sem antes vos atentar para a variedade da cafetaria deste excelso estabelecimento, que conta nas suas fileiras com especialidades tão únicas como Gingerbread Latte, Matcha Latte e Chocolate Quente com Chantilly e Marshmallow.
No final, para desenjoar, caminhem até aos Olivais e deem uma volta nos carrinhos de choque na Feira do Espírito Santo.
Pantagruélicas saudações, meus coimbrinhas.

