A cultura pop tem sido o ingrediente cada vez menos secreto da Coreia do Sul para exportar influência pelo mundo, está a cair no gosto dos portugueses e no último ano apimentou a Baixa de Coimbra, já com três restaurantes a trazer kimchi (couve fermentada) para a mesa todos dos dias. Mas este artigo também podia começar por dizer que Portugal é um crescente gabinete de curiosidades que conquista pelo clima e sossego, onde o futebol é o grande agente informal das relações externas. Nas duas versões desta história, o protagonista é o mesmo: Bruce (Sung Gu Heo), o dono dos primeiros restaurantes coreanos a abrir na cidade, que alimenta «o sonho» de profissionalizar Os Marialvas, o clube de Cantanhede. Mas dá-se o caso de Bruce não querer ser o centro das atenções por estar absolutamente convencido de que se casou com «a melhor chef do mundo»: Julia (Mi Jung Kim). A única forma de fazermos esta reportagem foi sentar os dois à mesa.

Ao bom estilo asiático, a mesa é redonda e ao centro fica a porta mágica para um universo idealmente bem condimentado: um grelhador eléctrico, de momento coberto e desligado, mas à volta do qual outros antes de nós já cozinharam carnes, legumes e camarões, ao mesmo tempo que conversavam e comiam, tratando todos os pratos com pinças – estamos, afinal, num barbecue coreano («autêntico», sublinha Julia). Aberto há três meses, na Praça do Comércio, o Gangnam Korean BBQ está a fazer com que mais portugueses troquem os talheres pelos pauzinhos e arrisquem alguma pimenta na língua. «Está a correr bem. Nos fins-de-semana temos tido muita procura», diz Bruce, a mediar uma conversa temperada a três línguas (inglês, português e coreano).
A ideia do espaço e do menu é de Julia, que na Coreia do Sul era formadora na rede de padarias Paris Baguette. Em Portugal há quatro anos, o nome dos ingredientes que mais leva ao fogão já sai em português, embora muitos continuem a ser de longo alcance. «Neste restaurante quero servir os pratos principais da cozinha coreana. O grande desafio é fazer com que sejam 100% coreanos porque é difícil encontrar os ingredientes certos aqui. Tenho de ir a Lisboa ou ao Porto», salienta.
A procura pelos melhores produtos é só mais um encargo na demorada tarefa de preparar uma refeição típica e caseira – só o Kimchi, presença obrigatória à mesa, com centenas de variedades, combina pelo menos uma dezena de ingredientes, demora «um dia a preparar», mais dez em fermentação. Mas também as carnes são marinadas «com um molho secreto» e, no barbecue, sujeitas a fino corte. «Como a picanha no churrasco brasileiro», ilustra Bruce, ainda a fazer a ponte entre culturas.
No Gangnam há também hotpot, com o bulgogi (carne de vaca fatiada) como cartão de visita, embora o favorito de Bruce seja o dakgalbi, que ao picante do frango junta mozzarella. O familiar bibimbap (arroz branco com legumes e/ou carne, ovo ao centro e uma colher para misturar tudo, sem remorsos) continua a ser o grande embaixador da cozinha coreana – ainda que o casal tenha começado por conquistar os estômagos de Coimbra com uma opção mais modesta: frango frito.
Pontapé de saída
O Gangnam Korean BB é o terceiro restaurante de Julia e Bruce na cidade. O primeiro, aberto em 2020, «uma semana antes da pandemia» de COVID-19, foi o Seoul Chicken, um espaço de takeaway e entregas ao domicílio, no centro comercial GiraSolum, especializado em frango frito coreano. «Acredito que a minha mulher é a melhor chef do mundo e sugeri-lhe que começasse um negócio porque, hoje em dia, tudo o que está relacionado com a Coreia é popular: k-pop, k-movie, k-drama. Não queríamos investir muito no primeiro negócio porque não conhecíamos o mercado. Mas logo vimos que as pessoas gostavam», conta Bruce.
Na procura por uma receita para o sucesso, Julia cortou «um pouco» no picante «porque os portugueses não gostam muito» e um ano depois abria outro Seoul Chicken, na Praça do Comércio e já virado para a comida de rua coreana. «A baixa é o melhor sítio para ter um negócio em Coimbra. É o centro da cidade. Há muito movimento», destaca.
A abertura de um terceiro espaço é a prova de que o plano de Bruce para convencer Julia de que «Portugal era um bom sítio para viver» funcionou. Ligado à indústria do futebol, Bruce conta que trabalhou com vários clubes na Coreia do Sul e que, há cerca de dez anos, começou a andar entre cá e lá com jogadores. O empresário ainda investiu em equipas de Aveiro, mas a procura por uma escola internacional para os três filhos desviou a família para Coimbra. «Queríamos que as nossas crianças fossem felizes na escola. Na Coreia, o sistema é muito competitivo. Portugal tem bom tempo, uma vida calma e, sobretudo, boa educação», destaca. Mudaram-se em 2019, depois de Julia ter passado umas férias cá e saído sem saber «quão devagar as coisas andam em Portugal». «Escondi essa parte porque queria que ela viesse», partilha, entre risos.
O próximo passo é expandir o negócio a outras cidades do país e mais além: «Espanha. Toda a gente gosta de frango», antecipa Julia.
«A baixa é o melhor sítio para ter um negócio em Coimbra. É o centro da cidade. Há muito movimento.»
Bruce (Sung Gu Heo), proprietário dos restaurantes Gangnam e Seoul Chicken
Umas tostas bem mistas
A Oriente, a combinação de um coelho, com a lua e o sol remete para uma lenda que leva milhares de pessoas a contemplar o céu no Festival de Outono; em Coimbra, é a síntese do mais recente restaurante coreano a abrir portas na Visconde da Luz. O Tokki (coelho, em coreano) é o convite que Taro Moon e a mulher, Sun, fazem à cidade para «conhecer a cultura coreana» – e tem também uma pitada de Bruce, que desafiou o casal a visitar Portugal.

«Queríamos sair da Coreia. Estava farto da vida de cidade», afirma Taro, ao dar por fechado um capítulo que passa por investimentos em diferentes áreas, desde empresas de distribuição à produção de eventos. Antes de Coimbra, o casal e o filho ainda passaram por Okinawa, Hawaii, Guam e Los Angeles, mas a vontade de fixar residência estabeleceu Portugal como destino.
Inaugurado em Maio, o Tokki deve ler-se como uma sigla: Taste of Korea, Kop, Inc. Além da comida, com um menu especializado em tostas coreanas, o restaurante também serve oficinas de língua e cultura coreana: há workshops de artesanato maedeup (nós), encontros de cosplay e festas de aniversário em que se cantam os parabéns aos BTS, a banda estrela da música pop coreana.
O menu é simples e colorido, com vários petiscos de rua, como as espetadas de frango, mas quem ocupa o primeiro lugar são as tostas coreanas. «Pensámos nisto porque, além de serem famosas na Coreia, os portugueses adoram pão», refere Taro. A Topokki, um hambúrguer de vaca em pão de forma «da Bimbo» e com «molho especial da casa», é das mais populares, tal como a Bulgogi, que arrisca mais nos temperos. Mas a recomendação do chef, garante, passa «sempre pelo Kimchi», aqui também disponível em pizza. «Não conseguimos encontrar a nossa couve, o alho francês também é diferente. Temos de adaptar. É a nossa versão de Kimchi; uma versão portuguesa», brinca.
Nos próximos dois anos, o Tokki espera dar a conhecer-se também por Lisboa e Porto, mas a toca fica em Coimbra.

















