Na Rua Dr. António José de Almeida, há moradores que abrem a porta e dão «um bolinho ou tostãozinho», na noite de 31 de Outubro. «Se uma criança me pede, tenho que dar!», diz Nadia Laezza, que se lembra-se de, quando era criança, adorar mascarar-se e «ir aos Bolinhos e Bolinhós» com a melhor amiga no seu bairro. «Era uma felicidade abrirem-nos a porta, receberem-nos com o sorriso, elogiarem o disfarce e receber bolinhos e tostõezinhos. Ficava triste quando ninguém abria ou recebia mal-encarados… notava-se uma grande diferença entre o bairro dela de Santa Apolónia em Eiras – muitas portas abertas – e o meu bairro da Solum».
Hoje com 33 anos, Nadia quer contribuir com «pequenos momentos de alegria às crianças», por isso, garante que está sempre preparada na véspera do Dia de Todos os Santos. Tem uma bebé pequena e espera que quando ela crescer se possam disfarçar e «ir juntas» celebrar o também conhecido como Pão por Deus noutras localidades da região Centro de Portugal. As crianças saem à rua em pequenos bandos para tocar à porta dos vizinhos e pedir guloseimas ou dinheiro, tradicionalmente com uma caixa de sapatos ou cereais iluminada com uma vela que, actualmente, é por vezes substituída por uma abóbora sem recheio e uma luz LED.

Francisco Portugal diz que os Bolinhos e Bolinhós são bem-vindos na Rua Dr. António José de Almeida. Considera uma «excelente iniciativa recuperar antigas tradições». Conta que celebra a tradição desde que se lembra, cresceu no Bairro Norton de Matos e sempre se juntou aos primos e outros amigos que «embarcavam nesta aventura». Ainda hoje recordam esses tempos com «imensa saudade», até porque no bairro de Celas, onde mora há 3 anos, nunca viu acontecer. «É pena, comento todos os anos em casa que é uma tradição única que se perde. Tenho a certeza que é uma celebração que contribui para fortalecer laços de comunidade. Aqui em casa terão sempre uma porta a que bater.»
Inês Brites de Sá Alves garante que na Rua D. Fernando I está sempre pronta para receber as crianças e «Buuuuuuu!», como Sónia Mamede que lhe junta um «Feliz Halloween!», na Praça da Índia Portuguesa. Fomos ao Bairro Norton de Matos e confirmámos que lá ainda se leva a sério a celebração que actualmente se mistura com o estilo norte-americano, mas que, na realidade, remonta há 2000 anos e é original deste lado do Atlântico.

História do Halloween
Os celtas celebravam o ano novo nesta altura, com cerimónias lideradas pelos druidas que faziam de uma espécie de médium entre as pessoas e os antepassados que eles acreditavam que voltavam para fazer uma visita. O fogo, presente em velas e fogueiras, servia para os afastar. Como tantas outras, a celebração foi aproveitada pela religião cristã. No século XV e XVI, por causa da Peste Negra, ter-se-ão juntado as máscaras, porque a doença vitimou tanta gente que em França que terão começado a fazer festas burlescas com decorações relacionadas com o tema da morte.
Na Idade Média o souling (soul significa alma em inglês), que é o nosso Pão por Deus, terá aparecido no Reino Unido. Era o ritual de crianças e pobres fazerem um peditório pelo bolo das almas, porta a porta, em troca de orações pelos familiares falecidos de quem lhes dava bolo. Caso não dessem, os miúdos ameaçavam fazer uma travessura (trick or treat, doce ou travessura). Do século XVIII em diante as tradições de colonos ingleses encontraram-se com as de imigrantes irlandeses na América et voilà: nasceu o Halloween. Hallow quer dizer santo e All Hallows’ Eve quer dizer véspera do Dia de Todos-os-Santos.
Quem não cantou os Bolinhos e Bolinhós este ano, tem sempre o próximo e pode ir começando a treinar a canção:
Bolinhos e bolinhós
Para mim e para vós
Para dar aos finados
Que estão mortos enterrados,
À porta bela cruz,
Truz! Truz!
A senhora que está lá dentro
Sentada num banquinho
Faça favor de vir cá fora
P’ra nos dar um tostãozinho ou um bolinho
Se as pessoas derem doces, esta é a segunda parte, de agradecimento (ou não):
Esta casa cheira a broa,
Aqui mora gente boa.
Esta casa cheira a vinho
Aqui mora um santinho.
Esta casa cheira a alho
Aqui mora um espantalho
Esta casa cheira a unto
Aqui mora algum defunto.
No 1 de Novembro, Dia de Todos os Santos, também pode haver peditório, mas tem o nome de Pão-por-Deus. Está associado às práticas relacionadas com as refeições cerimoniais do Dia dos Finados (2 de Novembro), era o dia em que se repartia pão cozido pelos pobres e há crianças que saem à rua e juntam-se em pequenos bandos para pedir de porta em porta.
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