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Canil de Coimbra: Não é só ele que precisa de uma nova casa

Visitámos o espaço municipal de acolhimento de cães e gatos, que apesar de ter sofrido algumas obras de requalificação, precisa é de um edifício criado de raiz e longe da Estação de Tratamento de Águas Residuais.

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Fotografia: Mário Canelas

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Quando o telefone toca, Elisabete Serra diz que soa logo o alarme: deve ser mais um resgate. Por muito que ela e os colegas no Canil/Gatil Municipal de Coimbra tenham vontade de ajudar e acolher os animais que precisam, a sobrelotação é um problema antigo. As chamadas boxes ou canis, espalhadas por todo o recinto estão cheias de cães vadios, errantes e abandonados. Passando o portão da entrada, vemos cerca de uma dezena à direita e mais uma dezena ao fundo. Há sensivelmente três cães por cubículo, com chão de cimento e despido de brinquedos ou outros objectos. Parece que nos saúdam com latidos, mas percebemos que também estão agitados. «Hoje é quinta-feira, é dia de recolha de cadáveres e eles sentem», explica Elisabete Serra.

Elisabete é formada na área da engenharia agropecuária. Nunca pensou trabalhar largos anos da sua vida com cães e gatos. É funcionária do canil há 20 anos. «Aqui não há dias iguais, por mais anos [a trabalhar] nisto, todos os dias sou surpreendida. Encontro de tudo, o bom e o mau», afirma num tom e expressão tristes. Conta que é comum as pessoas aparecerem com animais para acolhimento, à espera de os deixarem ali e irem embora. «Temos de garantir alguma responsabilização pelo cão ou gato e, por isso, quando alguém aparece cá com um animal, deve preencher uma folha de adopção condicionada de forma a sinalizá-lo». 

Em Portugal, cerca de 30 mil animais de companhia entram em centros oficiais de recolha e apenas 35% voltam a ser acolhidos por uma família. Neste momento, o antigo canil/gatil alberga 132 animais, 90 cães e 42 gatos. A capacidade é para 100. Por norma, o resgate de animais nas ruas não é imediato. É sempre enviada uma pessoa para avaliar se a situação do animal é prioritária. «Claro que são sempre situações urgentes mas, uma vez que não temos espaço, temos de definir prioridades. A nossa prioridade são os animais acidentados, animais tendencialmente agressivos e cadelas e gatas com ninhadas».

Em 2021, a Câmara Municipal de Coimbra requalificou o Canil Municipal de Coimbra com uma empreitada de substituição integral da cobertura de fibrocimento, por uma nova com isolamento térmico e inclusão de janelas claraboias para iluminação e ventilação dos espaços. Mas não foi suficiente. A falta de condições continua a levar à suspensão do serviço de resgate, como é o caso do dia da nossa visita. «Não temos espaço para acolher mais cães. Não com as condições que temos actualmente. Não é por falta de vontade, é mesmo porque para conseguir garantir o bem estar deles precisamos de melhor», diz Elisabete Serra.

Primeiros passos do acolhimento

Continuamos a nossa visita. Passamos para o interior do canil/gatil, onde há corredores pouco iluminados cheios de boxes, caixas de transporte, trelas, mangueiras e janelas com grades. À chegada, todos os animais são examinados para verificação do microchip, o mecanismo que serve para identificar e notificar o donos, actualmente obrigatório em todos os gatos, cães e furões de estimação. «Se 10% dos cães que aqui recebemos têm microchip, já é muito – é um número se calhar até menor», confessa Elisabete Serra. «Se não tiverem chip, é feita a resenha do cão ou gato, onde colocamos em que rua foi encontrado e dados da pessoa que o sinalizou.» 

O passo seguinte é a desparasitação e o isolamento de 14 dias. Todos os animais que dão entrada no canil/gatil fazem isolamento, período em que são avaliados e vigiados para se conseguir garantir não só a segurança sanitária (podem ser portadores de doenças infecciosas), mas também o cuidado social. Depois de feitas a esterilização e a vacinação, os animais são inseridos no grupo que os funcionários entendem que será o ambiente social mais adequado à sua personalidade.

Todos os animais têm uma identidade, uma personalidade, e muitas vezes os nomes são escolhidos em função disso ou da rua onde foram encontrados. Entramos na ala dos felinos, onde Inês Peralta e Raquel Barata tratam do Tetris. «Tem este nome porque tivemos de lhe amputar dedos de uma das patas de trás», conta a auxiliar veterinária. «Também temos o Lego, que estava com muitas fracturas e achámos que seria engraçado dar-lhe esse nome». No caso dos cães, eles são passeados todos os dias, até para evitar confrontos agressivos entre eles. Correm, brincam e tentam ser felizes, apesar dos condicionalismos. 

Recursos e condições

São 14 as pessoas que trabalham diariamente no cuidado animal municipal e que asseguram que os animais acolhidos são bem tratados. Contudo, para garantir a higiene do espaço, são necessárias mais e melhores condições. Elisabete explica que não são poucos os problemas das instalações, visivelmente degradadas, apesar de algumas obras recentes. «São tantos os problemas. Não conseguimos receber mais animais porque não temos fossa compatível e não temos sistema eléctrico com boa capacidade, por exemplo. No Inverno, a electricidade está constantemente a falhar. Nós usamos lâmpadas de aquecimento para os canis e, por isso, estamos sempre com falhas de electricidade».

A Câmara Municipal de Coimbra paga anualmente 12 mil euros em ração e 35 mil euros em medicamentos no Canil, que recebe donativos de mantas e brinquedos, inclusive de empresas locais. Outros são feitos pelos próprios funcionários, com recursos à reutilização de garrafas e outros objectos. Também existe um protocolo entre a autarquia e a Ordem dos Veterinários no valor de 20 mil euros, que permite ao canil recorrer a um hospital ou clínica parceira com um cheque veterinário para tratamento de animais que o espaço não consiga assegurar.

Elisabete Serra admite que insiste constantemente junto às autoridades que é urgente um canil novo, moderno e feito de raiz, além de melhores condições de trabalho para o próprio pessoal, obrigado a trabalhar paredes meias com a Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR). «Temos alturas em que há mosquitos por todo o lado e em que estamos em condições de trabalho muito complicadas», conta Elisabete. Neste momento, o canil conta com três médicas veterinárias, auxiliares veterinárias (com formação específica na área) e tratadores. Na sua génese, o canil é um espaço de acolhimento, e por isso, aceitaram um funcionário em trabalho comunitário. 

A importância da formação

O Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos Veterinários e o Serviço Médico Veterinário e Segurança Alimentar da Câmara Municipal de Coimbra organizaram recentemente um Fórum de Medicina Veterinária de Abrigos, realizado a 20 de Maio, e um workshop, nos dias 21 e 22 de Junho,  para Tratadores de Animais e Colaboradores de Canis Municipais. 

Elisabete conta que foi muito participado e o objectivo alcançado: a partilha de experiências entre colegas e profissionais da área de diferentes zonas do país, discussão de temas actuais como o bem estar animal, a polícia criminal, os parques de matilhas, planos de evacuação, primeiros socorros, design de centros de recolha oficiais e gestão de equipas. A engenheira aponta como «bom exemplo do que deve ser feito em Coimbra» as instalações e o trabalho desenvolvido no Centro de Recolha Oficial de Animais do Porto.

Em funcionamento desde Abril de 2020, o novo centro portuense é moderno e tem todas as condições para o acolhimento, promoção do bem-estar e adopção de animais de companhia. Duplicou a capacidade de acolhimento de animais, dispõe de um bloco cirúrgico para esterilização de cães e gatos, sala de enfermagem independente para tratamento e acompanhamento clínico dos animais alojados e zonas de exercício e sociabilização e uma área de tosquia e higienização. Além disso, tem um website e há uma página que permite que quem tiver um animal desaparecido possa procurá-lo entre aqueles que foram encontrados e alojados, através de uma caixa de pesquisa onde é colocado o número do chip.

Mais adopção menos abandono

Saímos do edifício e visitamos dois espaços anexos, com zona interior e exterior, um para cães de maior porte e outro recheado de pequenos gatos bebés, prontos a serem adoptados. No canil, a cadela Flora aguarda um novo dono desde 2016. É a mais antiga. Todos ladram muito, saltam e lambem-nos os dedos.

O Canil/Gatil Municipal de Coimbra tem investido nas redes sociais para conseguir motivar e sensibilizar as pessoas para a adopção. Adoptantes que não se têm limitado ao concelho, nem mesmo ao distrito de Coimbra, mas Inês Peralta conta que «ainda há muito preconceito com os animais de canil. Continua a haver muito abandono, que não compensa com o número de adopções». A veterinária verifica os cartões dos animais e apresenta-nos até a famílias, como mães e filhas. É comum, depois de adoptarem um animal, algumas pessoas voltarem para adoptar um segundo para fazer companhia ao primeiro.


Para que a adaptação a novos adoptantes seja a melhor possível, aceita voluntários que ficam responsáveis por passear os cães no Choupal durante meio ano. O número é limitado a cerca de uma dezena de pessoas, que têm de passar por uma formação. Pode parecer insignificante e uma actividade meramente de lazer, contudo, as funcionárias explicam que os passeios são muito importantes para os animais aprenderem a não fugirem dos donos e promover uma boa sociabilidade entre animais e os seres humanos. 

Quem estiver interessado em adoptar um animal, só tem de enviar um email para o canil/gatil e marcar uma visita. É feita uma entrevista, para perceber as intenções do adoptante e para compreender se os animais se vão adequar ao ambiente. «É sempre importante fazer uma triagem da pessoa que está interessada em adoptar», atira Inês Peralta. «E o adoptante nunca leva o animal consigo na primeira visita, para evitar adopções impulsivas», completa Elisabete Serra. À excepção do Open Day, promovido mensalmente, dias em que há isenção do pagamento da taxa de adopção – 14€ os gatos e 33€ os cães – , e os animais são entregues já esterilizados, desparasitados, vacinados, identificados, registados e com Boletim Sanitário emitido. No mais recente, em Junho, registaram-se 19 adopções de 11 gatos e oito cães. No entanto, no dia seguinte, deram entrada 10 animais no canil. 

De volta ao portão, com a placa onde se lê que o canil foi inaugurado a 5 de Julho de 1997, despedimo-nos de Elisabete Serra com o coração cheio e a funcionária a admitir que, apesar de tudo, vê hoje um canil que conseguiu ajudar muitos animais e dar-lhes uma família e uma vida melhor. Vida essa que, assegura, sem ajuda não conseguiriam ter.

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