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Coimbra, modo de usar: dicas do urbanista Nuno Pinto para uma «qualidade de vida enorme»

Especialista em planeamento urbano e em transportes, Nuno Pinto é dos que acha que «isto não está tudo errado». À boleia pelas obras do metrobus, passeamos pela Baixa e fomos até à diáspora para perceber o potencial da cidade para responder aos desafios.

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Fotografia: Mário Canelas

Nada como um pouco de história para, num segundo, os anos passarem a décadas, sem sairmos do mesmo lugar. Estamos na Baixa, a poucos metros da futura Via Central, que vai ligar a beira-rio ao centro da cidade, através do metrobus. As obras, habituamo-nos a dizer, estão atrasadas, sem ter presente que a demora pode ser contada em mais de 80 anos. «Esta avenida está prevista no plano de urbanização de Coimbra de [Étienne] De Gröer, da década de 1940», indica-nos o urbanista e investigador Nuno Pinto, que entre Manchester, onde dá aulas, e Santa Clara, pensa a cidade sem usar buzzwords  – não por descrédito, mas por concluir que o tecido urbano sempre foi desenhado para ser mais sustentável e integrador – incluindo o de Coimbra.

«Sou muito avesso a essa história das novas cidades, novas formas de planeamento. As cidades do futuro são as de agora. As cidades resultam de evoluções lentas. Smart Cities, Sustainable Cities, Green Cities – tudo isto tende a acontecer historicamente, com mais ou melhor conhecimento, mais ou melhor tecnologia», defende. Voltamos ao exemplo da Baixa, da Via Central e do futuro Sistema de Mobilidade do Mondego. «Quando o metropolitano foi criado, nos anos de 1850, era um túnel por onde passava um comboio, que parava a cada 500 metros e passava a cada seis minutos. Hoje, o conceito é o mesmo. A cidade vai ter um metro que, basicamente, é o mesmo de 1859», compara.

Mudanças à boleia do metro

Os metros transformam os locais por onde passam e têm sido usados como veículos de renovação urbana, promovendo intervenções que tendem a melhorar a qualidade do espaço público e a garantir o acesso das populações a melhores condições de vida. Coimbra está a sair da estação com um atraso de 30 anos, mas ainda pode entrar nos eixos. «O metrobus não cobre toda a cidade, mas vai torná-la mais coesa», antecipa Nuno Pinto, especialista em transportes que, sobre o sistema, só lamenta que não tenha sido logo implementado. «Se tínhamos feito isto nos anos de 1990, mantendo os carris, se calhar hoje a rede já se tinha expandido à Pampilhosa do Botão. Uma coisa que chateia em Portugal é esta necessidade de ter o top dos tops quando o que precisamos é uma coisa que funcione», diz.

A projectar uma rede «ideal» para o metrobus, Nuno Pinto abriria a primeira linha para o Bairro do Ingote. «Tem uma grande massa populacional de pessoas com uma renda mais baixa e que tem uma necessidade maior de transportes acessíveis e eficientes», justifica. Certo que «o presidente de Câmara que fizer promessas para a margem esquerda ganha as eleições», o urbanista levaria também o traçado até Santa Clara. «Não tem infra-estruturas, não tem passeios. Precisa de investimento», sinaliza, de olhos postos numa zona que «tem uma atracção tão grande quanto Coimbra». «É lá que está a Rainha Santa, a peregrinação mais antiga do país, tem três conventos, um centro cultural. Se o Rossio de Santa Clara se encontra desenvolvido, o que está para trás devia ter o mesmo nível», destaca.

Com o actual traçado, a expectativa é que o metrobus seja também agente de mudança na Baixa e que das duas estações previstas para a zona desembarquem mais pessoas para o comércio tradicional. Mas entre obras e prédios devolutos, há outras dinâmicas em construção, trazidas por uma nova e crescente força: os imigrantes.

Imigrantes mudaram a Baixa e «têm de ter uma voz»

Professor na Universidade de Manchester, no Reino Unido, Nuno Pinto formou-se e deu aulas na Universidade de Coimbra, e regressa com frequência: tem uma vida de bairro entre nós. «Aterro aqui às 2h da manhã e às 9h já estou a fazer compras no Mercado [Municipal D. Pedro V]. Adoro a Baixa», diz.

No vai-e-vem, começou a cruzar-se com mais «meninos e meninas a ir pela mão dos pais até à escola do Arco da Almedina». «São quase todos de origem não portuguesa. Além do turismo, veio a imigração e a Baixa está com muito mais vida do que há 20 anos», compara.

No puzzle da revitalização da Baixa, há, no entanto, peças que não podem ser tiradas (como o tribunal, que «não deve sair de onde está») e outras por encaixar. «As comunidades estrangeiras têm de ter uma voz: estão a ter um papel fundamental na renovação na baixa, não só das infra-estruturas [com o investimento em restaurantes e lojas], mas também socialmente. O que vamos fazer com tudo isto? Para garantir que a Baixa se torne num sítio mais atractivo, mais inclusivo, mais usado, convinha falar. As pessoas têm de falar», defende.

Os modelos de participação nas políticas públicas entram nas áreas de interesse de Nuno Pinto. No Brasil, trabalha com a Frente Nacional de Prefeitos, a associação de municípios, melhorar o processo de tomada de decisão. Do Reino Unido, tira notas sobre o envolvimento das comunidades no desenho das cidades. «Há muitas estratégias de planeamento que nascem de decisões de bairro que têm mérito e são escaladas como opções para intervenções naquela zona», destaca. Coimbra, entende, tem tudo para fazer um «plano de comunidade com uma comunidade». «Há muita gente que não vai à Baixa há anos. Isso é uma boa indicação de que a cidade é grande, tem bairros com identidade, tem vários centros, várias populações e massa crítica com capacidade para se engajar».

O que falta, então? «Coimbra tem forças vivas fortes e deve procurar novas perspectivas de pensamento, não pode entregar as coisas sempre aos mesmos e tem de ter um pé internacional».

O potencial da diáspora

Além de chamar as comunidades estrangeiras residentes para a mesa, a cidade, acrescenta Nuno Pinto, tem também de olhar para quem saiu. «Devia haver uma maior integração das comunidades emigradas. Coimbra tem um montão de gente a trabalhar em vários países. Lá fora, fazemos as coisas tão bem como os outros, mas temos vivências e experiências que podem melhorar bastante o que se passa numa cidade».

Na diáspora, multiplica-se também o sentimento de pertença. Nuno Pinto, nascido no Porto, veste a camisola de Coimbra desde a primeira visita e conta reformar-se cá. «Tem uma qualidade de vida enorme. Vou a todos os bairros e uso toda a cidade. Há festivais de cinema, teatro, música, uma programação cultural que não temos tempo para atender a todos os eventos». «Sou dos que acha que isto não está tudo errado», reforça.

Outra ideia feita que «não cola» no pensamento de Nuno Pinto é a de que a cidade «está toda mal planeada». «Coimbra funciona: as pessoas têm acessos aos serviços, a centros de saúde, há uma rede pública de escolas e de transportes – pouca frequência, é certo, mas com grande captação».

Os problemas, desenvolve, resultam antes do desfasamento entre a reflexão sobre a cidade, o planeamento e a disponibilidade de capital para ter obra feita. «Hoje, em qualquer parte do mundo, os técnicos municipais vivem ciclos muito curtos de candidaturas a fundos do Estado ou da União Europeia – se conseguem, andam para a frente e têm um projecto; caso contrário, não. Esta fragmentação da capacidade de pensamento leva a menos capacidade de estratégia» e a uma cidade mais segregada.

É «relativamente simples» dar a volta

Além do financiamento, a burocracia e o quadro legislativo são outros dos entraves na gestão urbana, com os técnicos da câmara a dar conta de casos em que são obrigados a deixar passar boas soluções por não cumprirem todas as regras.

Inspirado no sistema britânico, mais discricionário, Nuno Pinto aponta para um modelo híbrido que permita pensar no «mérito das soluções» e dar margem para quem decide poder dizer: «”Há dez anos era bom ter aqui uma zona comercial, mas veio uma pandemia, a economia colapsou, e precisamos antes de uma zona desportiva ou residencial”». Nuno Pinto acredita que é possível fazer mudanças de «de forma relativamente simples», mexendo no uso dos terrenos por interesse público – assim a cidade, concertanto agendas e formando um colectivo, «decida nesse sentido». A base para convergir, sublinha, é grande: «A coligação no poder deve ser a maior da história deste país».

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