Estamos em julho, é sexta-feira e faz-se quente, mas não é na praia que esta história se desenrola. É na Quinta da Conraria, entre os corredores da residência da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra (APCC), onde decorreu a mais recente intervenção da Reabilita Coimbra. Uma história sobre mãos que se juntaram, sem se conhecerem, para pintar, como se fosse sua, uma casa que não o é.
Nas duas últimas semanas, cerca de 50 voluntários passaram por aquele centro para renovar as instalações que acolhem semanalmente 15 dos seus utentes. Desde 2021, a Reabilita mobiliza voluntários para transformar casas em lugares mais funcionais e confortáveis. E foi esse o desafio que aceitou abraçar uma vez mais este mês – desta vez em Ceira, e em parceria com a TUU, empresa conimbricense especializada no planeamento de projetos para obras.

Não se trata apenas de reabilitar espaços
“Havia muitos danos interiores, sobretudo nas madeiras”, explica Inês Cunha, da Reabilita. “Muitos resultavam da circulação de cadeiras de rodas”, pelo que o objetivo foi tornar o espaço não só mais agradável, como também mais resistente e adaptado às necessidades locais. Estamos entre a casa e o jardim da quinta, a conversar. À nossa direita, seis voluntários dialogam ao sol, enquanto esperam que as portas – agora brancas – sequem com calma. Atrás deles, uma cabana de madeira e um galinheiro. E no relvado, uma criança a jogar à bola. Todos se deslocaram para fazer parte. Para ajudar uma comunidade que, apesar de ausente naquele momento, está no centro de cada gesto seu. Cada porta pintada e parede alisada carrega ali a expectativa de um quotidiano mais digno para quem lá vive, com mobilidade reduzida, necessidades especiais e uma dependência direta da qualidade do seu meio ambiente.
Não se trata apenas de reabilitar espaços. Trata-se de reabilitar vidas. É o lema que, de acordo com Inês, tem trazido ao terreno cada vez mais participantes. Entre eles, afirma: “muitos têm sido repetentes, o que demonstra que não só gostaram das experiências passadas como estão verdadeiramente interessados em contribuir”.
Uma delas é Ana Rita, enfermeira. Já participou noutras intervenções da Reabilita e, assim que voltou a surgir uma oportunidade, não a deixou passar: agarrou no filho Martim e dirigiu-se até ao centro para voltar a fazer parte. “Felizmente, temos uma série de projetos solidários em Coimbra”, aponta. Aliás, Ana já participou em vários, nomeadamente na área do apoio a famílias carenciadas. “Mas a reabilitação urbana não costuma ser tão comum”, observa. “Temos tendência a focar-nos noutras necessidades básicas, como a alimentação, mas trabalhar para garantir às pessoas condições salubres e dignas de habitação é para mim igualmente fundamental”. Foi o que a levou no fim de semana passado até Ceira. E acrescenta: “Saber que estamos a contribuir para dar a estas pessoas, com as necessidades e dificuldades que sabemos terem, um dia-a-dia mais bonito, enche-me o coração”.

Para além dos habituais, a organização tem visto passar também cada vez mais caras novas no terreno. “As pessoas parecem cada vez mais consciencializadas quanto a este [e outros] tipo de problemas estruturais”, observa Inês. E cada nova adesão representa para ela mais uma prova de que há, cada vez mais, quem queira fazer parte da solução.
Para Simone Nascimento, da TUU, a intervenção representou também uma oportunidade de juntar os colegas num momento de união e diversão. Escolheu, entre muitas outras, essa atividade para o seu encontro de team building. Na TUU, o compromisso com a comunidade é tão importante quanto a competência técnica, pelo que a sua participação nesta ação foi, mais do que simbólica, natural. “É fundamental mostrar empatia por quem não tem as mesmas condições que nós. Não somos superiores nem inferiores, mas é um gesto de consciência”, testemunha o colega Bernardo. “E o propósito não é sermos reconhecidos, mas sim que essas pessoas possam usufruir do que estamos a construir”, assegura.





E se bastasse mesmo só um fim de semana para fazer parte de algo maior? Quando se trata de caridade, não é preciso saber fazer. Entre os voluntários da Reabilita, há enfermeiros, arquitetos, informáticos. Há quem venha pela primeira vez, quem traga os filhos, quem nunca tenha manuseado uma lixa. Uns têm 16 anos, outros 60.
Esta é mais uma, entre muitas, provas de que, com pequenos gestos e grandes intenções, se faz mudança, se constrói cidade. A Reabilita está a preparar a segunda edição da Feira de Voluntariado, prevista para novembro, onde várias associações solidárias da região de Coimbra estarão presentes. Será uma excelente oportunidade para conhecer projetos, partilhar experiências e envolver-se em ações de voluntariado que fazem diferença na comunidade.

