A zona do Arnado está a atrair investimento e emprego qualificado mas, além da falta de espaços adequados para a instalação de profissionais na Baixa, como as que existem no Coimbra iParque e no Estádio Municipal de Coimbra, o ambiente exterior dos locais de trabalho é importante e há desafios que continuam sem resposta e estão a condicionar empresas que já instaladas há vários anos.
Recentemente, um grupo de empresários e empresárias a trabalhar na Baixa de Coimbra enviou um email à comunicação social, autoridades, município e outras entidades locais a pedir uma estratégia que resolva o «clima de insegurança e criminalidade que ocorre diariamente» na zona do Largo da Sota, junto à Estação Nova.
O grupo, que opta pelo anonimato por receio de represálias, alega que testemunha «diariamente cenas de tráfico, violência e prostituição», que várias pessoas já foram «ameaçadas verbalmente e com armas brancas à saída do local de trabalho» e que, nos últimos meses, «três empresas decidiram abandonar os seus escritórios na Baixa devido ao clima de insegurança». «Cerca de 150 pessoas», especificam.

A Coimbra Coolectiva pediu mais informações aos autores da mensagem, nomeadamente a identificação dessas empresas, sem sucesso, pelos receios de retaliação. Também pedimos informações às autoridades e ao município. A Câmara Municipal argumenta que a segurança na Baixa é da responsabilidade da Polícia de Segurança Pública e não da Polícia Municipal, não obstante o eventual reforço presencial da última nas ruas. O Comando Distrital de Coimbra respondeu que não é possível apontar números relativos à criminalidade nos termos da Lei do Sistema Estatístico Nacional. A PSP de Coimbra diz que «muito tem feito, tendo em vista garantir o incremento do sentimento de segurança por parte da população, desenvolvendo todos os esforços no sentido de prevenir a criminalidade.»
As autoridades garantem o reforço do policiamento de caráter preventivo e intervenções planeadas na medida do que os recursos humanos possibilitam, mas notam que «não se trata só de um problema policial, mas também de um assunto com uma grande componente social, cuja abordagem de mitigação/solução terá que resultar da intervenção concertada de diversas entidades com competências específicas».
Visitámos e frequentámos a zona específica referida pelos empresários, nas ruas da Sota, das Rãs e do Poço, com muitas lojas vazias e edifícios degradados, mas também hotéis, restaurantes e outros espaços comerciais. Foi lá que realizámos o Programa de Capacitação da Geração Coolectiva, no Nest Collective, ao longo das últimas semanas e onde constatámos o ambiente de insegurança e desconforto, corroborado também por trabalhadores e moradores com quem conversámos.
Pode testemunhar-se a prática de tráfico e consumo de drogas, a qualquer hora do dia, na zona anunciada como potencial pólo de atração de investimento empresarial e turístico. «As pessoas que não são de cá passam aqui uma primeira vez e já não passam mais nenhuma. Às vezes chegam e imediatamente dão meia-volta e vão-se embora», disse-nos Álvaro Cristino, do Restaurante Giro Churrasqueira, apontando uma maior presença policial como solução.
O Município reafirmou que tem em curso um processo para reforçar as câmaras de vigilância na Baixa da cidade. Recordamos que já em 2021 a Câmara Municipal anunciou «videovigilância de Coimbra em fase final de testes» e, segundo o então autarca, Manuel Machado, o Município de Coimbra andava já «há anos a trabalhar com a PSP «para a reinstalação dos sistemas de videovigilância nos sítios adequados face às necessidades da cidade». José Manuel Silva declarou que se trata de um investimento de cerca de 400 mil euros, que «todo o processo é burocraticamente lento» e que o objectivo é: «Darmos uma sensação objetiva de segurança à Baixa, pois fala-se demasiado na insegurança da Baixa de uma forma até que é prejudicial. Esta obsessão de falarmos negativamente da Baixa acaba por prejudicar a Baixa».
Soluções efectivas
O problema da insegurança na Baixa de Coimbra não é um problema novo e a Coimbra Coolectiva sabe que estas não são as primeiras denúncias. Em declarações sobre o tema em 2020, José Manuel Silva constatou a «grave dimensão do problema na Baixa, à vista de todos». Há semanas, ao grupo de empresários, o presidente respondeu por email: «Recebemos a Vossa participação, que é igualmente uma preocupação nossa», apesar de, a 20 de Fevereiro, ter declarado publicamente que «a ideia de um clima de insegurança naquela zona é exagerada». A 8 de Março, partilhou na página pessoal no Facebook uma «visita à Taska do Silva, na Baixa de Coimbra, com toda a tranquilidade», acompanhado por outros elementos do executivo e com imagens apenas o interior do estabelecimento.
Em 2022, a proposta eleitoral do Somos Coimbra, actualmente no executivo municipal, foi de «revitalizar a zona histórica (Alta e Baixa), através de um forte impulso à reabilitação do edificado e revivificação do espaço público. Promover pontos de atração, como praças culturais, zonas temporárias de restauração e de exposições, e apostando na fixação de estudantes e jovens através da criação de uma sala de estudo 24/24h, residências universitárias e habitação a custos controlados, bem como espaços para fixação de empresas.» Na mesma ocasião, publicámos sobre o problemas das rendas altas e falta de qualidade dos espaços, que se mantêm.

Há cerca de uma semana, o presidente da câmara declarou que: «Quando se concretizar a aprovação pelo Tribunal de Contas do segundo lote do pedido de empréstimo, vamos comprar mais três edifícios na Baixa para os reabilitar. Vamos começar ainda este ano a construção de uma residencial de estudantes na Baixa. Portanto, depois de muitos anos de estagnação e declínio, a face da Baixa está a mudar, aceleradamente. Temos de continuar a trabalhar nesse sentido, num espírito de política positiva.»
Ainda em Fevereiro, durante uma reunião de câmara, José Manuel Silva deu também conta de reuniões recentes com as forças de segurança e apontou para a falta de efectivos, considerando a insegurança um problema do governo, responsável pela contratação de profissionais. Sobre o reforço das câmaras de vigilância, o autarca criticou o plano anterior por considerar que a «a preocupação foi que as câmaras se vigiassem umas às outras e não que vigiassem a Baixa», sendo «possível circular tranquilamente sem ser captado».
José Manuel Silva destacou ainda a organização de eventos na zona e sobre os projectos a caminho reiterou que o programa eleitoral que apresentou foi para oito anos.
Até lá, a comunidade continua a aguardar soluções concretas que tornem a Baixa de Coimbra efectivamente confortável, apelativa, com uma sensação de segurança e fértil em negócios e habitação.
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