Às vezes o sonho comanda mesmo a vida, como dizia António Gedeão. Durante mais de duas décadas, Maureen Carreira, 51 anos, foi empresária do ramo da hotelaria, alimentação e bebidas, e turismo. Mas um dia o coração falou mais forte e foi preciso parar, inspirar e recomeçar para fazer a viragem que mudou a sua vida, transformando a da sua cidade. Hoje, Maureen trabalha como consultora e coach de liderança de outros empresários, gestores, fundadores e equipas de diferentes entidades, no sentido de os ajudar a eliminar obstáculos e desenvolver estratégias e ferramentas para alcançarem todo o seu potencial através de mudanças positivas, a longo prazo.
O que é que aconteceu pelo meio? Um sonho, de melhorar a cidade onde vivia, em vez de ficar sentada no sofá a lamentar-se do estado de coisas. Juntamente com o jornalista veterano Larry Platt, criou o The Philadelphia Citizen, uma plataforma de media digital que pratica jornalismo de soluções, na cidade de Filadélfia, Estados Unidos da América (EUA). A residir em Portugal há 6 anos, e de momento a fazer um curso intensivo de cultura portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Maureen contou-nos como foi a aventura de lançar o projecto que ainda hoje faz a diferença à escala local, através da promoção do conhecimento e do envolvimento da própria comunidade.
Maureen, é uma das fundadoras do The Philadelphia Citizen, que é mais do que uma publicação que pratica jornalismo de soluções. O que é?
— O The Philadelphia Citizen é uma organização de media digital, sediada na cidade de Filadélfia, que tem uma dupla missão: a primeira é proporcionar um jornalismo bastante aprofundado, que aponta o foco sobre soluções que podem fazer com que a região progrida, a diferentes níveis. A segunda, é incendiar ou reacender activamente a chama da cidadania. O nosso slogan, que eu penso que resume isso muito bem, é: «O que aconteceu. O que é que significa. O que é que podemos fazer sobre isso».
A fundação do Citizen (como lhe chamam, de forma abreviada) nasceu de um problema que a cidade de Filadélfia apresentava e uma solução que aspiraram proporcionar?
— Não posso dizer que tenha vindo de um problema ou de uma ideia de solução específica. Nós sentimo-nos frustrados pelo sentimento de resignação que sentimos à nossa volta, do «as coisas são assim» e ponto. E a nossa experiência não era excepção. Estávamos rodeados de amigos, colegas e vizinhos que se preocupavam profundamente com a vida na nossa cidade e que tinham a energia e os recursos para a mudarem para melhor. A frustração era sentir que era quase impossível a mudança, porque do outro lado tínhamos uma classe política (o status quo) que não compreendia a inovação, que estava desfasado, e o mais perigoso de tudo: queria impedir a mudança, porque sentia que era uma ameaça ao seu poder.
Podemos voltar a esses primeiros tempos, quem eram vocês, os fundadores, e como se conheceram?
— No início, éramos dois. Eu era empresária, tinha vendido recentemente um grupo empresarial que tinha fundado 12 anos antes e foi uma grande mudança para mim, em termos da minha identidade. Foi, realmente, começar de novo. Estava profundamente ligada à vida da cidade e, depois de trabalhar quase sem parar durante 12 anos, estava à procura de me envolver em projectos que ajudassem a melhorar as coisas e a expandir os meus horizontes, conhecendo novas pessoas e ouvindo novas vozes. O co-fundador, Larry Platt, era um querido amigo e estimado jornalista. Ele tinha sido editor chefe da revista Philadelphia Magazine, a maior revista de cultura e lifestyle da cidade, e o editor chefe do Philadelphia Daily News, um dos dois principais jornais. Ele tinha deixado recentemente o Daily News e a ideia para o Citizen veio de muitas conversas de amigos entre nós, que começavam com algo como: «Não era fixe se pudéssemos dar aos cidadãos as ferramentas de que precisam para construir a mudança? Não seria bom se mais pessoas tivessem um lugar à mesa? Se mais vozes fizessem parte da solução?», e assim por em diante.
Quais foram os pontos mais desafiantes de todo o processo de criação e lançamento do The Philadelphia Citizen?
— O mais óbvio é o financiamento. Sentimos que era importante que o Citizen fosse uma organização sem fins lucrativos, o que significava que o financiamento teria de vir de doadores individuais e organizações solidárias. Agora, claro, obter financiamento de indivíduos significava encontrar aqueles que estavam dispostos a contribuir sem um retorno financeiro do investimento, e que compreendiam que a sua contribuição não implicava que tivessem interferência nas decisões editoriais. Não foi fácil. Além disso, muitas das pessoas que tinham os meios para nos apoiar não tinham interesse em ver a cidade mudar e arriscavam-se a perder poder. Falámos com tantas pessoas naqueles primeiros tempos, a fim de encontrar financiadores que também acreditavam no valor da disrupção e que queriam ser construtores da mudança.
Quais são as maiores questões sociais para a comunidade de Filadélfia?
— Filadélfia tem todos os problemas das grandes cidades americanas: pobreza, crime, desemprego, desigualdade na educação, desigualdade de rendimentos, toxicodependência, sem-abrigo, gentrificação. Tem também uma história muito rica, enquanto local de nascimento da América. Foi a primeira capital do país e o sítio onde a Declaração da Independência foi escrita. Tem mais universidades do que qualquer outra cidade americana, depois de Nova Iorque e Los Angeles, algumas delas entre as melhores do mundo. É o lar do maior parque urbano do país e tem uma cena gastronómica vibrante, além da artística e cultural. É uma cidade rica em diversidade, lar de muitas populações imigrantes. A cidade tem um espírito único, é muito polida mas também muitas arestas bem ásperas a chocarem umas contra as outras.
Lembra-se do momento em que sentiu pela primeira vez que o projecto estava a funcionar, que estavam a conseguir que as pessoas se envolvessem, a ter resultados?
— Sim. Quando o nosso primeiro grande financiador firmou o seu apoio, cheio de entusiasmo, realmente apaixonado pelo nosso conceito. Ele estava disposto a abrir a carteira e a agenda de contactos para nos ajudar. Soubemos então que a ideia tinha pernas para andar. Quando começámos, houve tantas pessoas que nos disseram todas as razões pelas quais nunca iria funcionar. Ainda me lembro de todas essas razões (e dos indivíduos que as disseram. Ah!) Ainda não sabíamos se teríamos êxito, mas sabíamos que algumas pessoas muito inteligentes compreendiam e gostavam da ideia, e estavam dispostas a ir ao encontro das necessidades para nos ajudar. Depois, assim que tivemos financiamento suficiente para começar, a geração mais jovem (recém-licenciados e jovens profissionais) apareceu. O que lhes faltava em recursos financeiros, eles davam a dobrar em termos de equidade e entusiasmo. Foi aí que as coisas começaram a tornar-se realmente divertidas.
De que forma pensa que o jornalismo de soluções pode fazer a diferença, em comparação com o jornalismo tradicional?
— Há o velho adágio: ou fazes parte do problema ou és parte da solução. O jornalismo de soluções relata como os problemas estão a ser resolvidos, o que está a funcionar, quem está a fazer o trabalho importante (pista: normalmente não é o governo). Ao relatar a solução, em oposição ao ângulo tradicional de relatar apenas o problema, as cidades, comunidades e cidadãos empenhados de todo o mundo, que enfrentam problemas semelhantes, podem partilhar informação e aprender com os sucessos e fracassos uns dos outros. O The Philadelphia Citizen dá o passo em frente e proporciona um caminho para que as pessoas se envolvam e façam parte da solução.
Vive em Portugal há algum tempo, pode dizer-nos porque decidiu vir e como tem sido viver aqui?
— Sim, é a grande história de amor da minha vida! Durante o período em que estávamos a trabalhar pela primeira vez no conceito do Citizen, conheci o meu marido, João, um belo português que vivia e trabalhava entre Nova Iorque e Filadélfia. Após alguns anos a vivermos felizes nos EUA, decidimos mudar-nos para Portugal. Estamos aqui há seis anos. Durante os primeiros quatro anos, vivemos em Lisboa. Adorávamos Lisboa, a luz, a água, a arquitectura e a história. Durante a pandemia de covid-19, mudámo-nos para a nossa quinta no Alentejo e decidimos ficar por lá. Por vezes rio-me de como a minha vida é diferente hoje em dia. Há tanto para amar em Portugal e nas nossas vidas aqui. Sinto-me grata todos os dias pelo meu lar tão pacífico, bonito e acolhedor.
Já fala português, que ideia tem dos meios de comunicação social do país?
— Bem, dizer que falo português é ser muito generosa. Eu desenrasco-me, mas actualmente estou a fazer um curso intensivo de três semanas em português, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra! A minha impressão dos meios de comunicação social portugueses limita-se à imprensa escrita (não temos televisão). Acho que há muito bons colunistas e aprecio o facto de parecer haver menos ódio e divisão no ambiente mediático aqui do que nos EUA, bem como mais capacidade de falar abertamente sobre questões sensíveis. De um modo geral, parece-me equilibrado do meu ponto de vista, embora não necessariamente muito fresco. Não vejo jornalismo de soluções nos media tradicionais portugueses mas tenho a sensação muito boa de que isso está prestes a mudar!
A família do seu marido é de Coimbra, o que pensa da nossa terra?
— A família do meu marido é daqui e de Mortágua, embora ele tenha crescido em Évora. Ele estudou na UC e co-fundou a empresa dele aqui (Critical Software), há quase 25 anos, por isso, passamos muito tempo cá e temos muitos amigos! É um lugar bonito e fico sempre feliz por aqui estar. Para mim, Coimbra tem um verdadeiro sentido do lugar. É única, ao contrário de qualquer outro lugar do mundo em que tenha estado. A comida e o vinho são algumas das melhores coisas de Portugal, com certeza, e, no caso de Coimbra, a Baixa da cidade tem muito potencial. Pergunto-me muitas vezes: qual seria a solução para levar mais vida de volta a essa zona? Talvez pudesse ser interessante explorarem a ideia de uma zona empresarial que incentive uma nova geração de comerciantes.
Um dos problemas mais apontados em Coimbra é a falta de comunicação e de ter a sua população unida e a trabalhar, em conjunto, no sentido de responder aos desafios da localidade. O que acha que poderia ajudar?
— Essa é uma pergunta difícil para mim porque olho para os problemas do ponto de vista de uma estrangeira mas, em jeito de resposta, deixem-me partilhar convosco uma pequena história. Temos um amigo que é um excelente enólogo. É português mas a propriedade onde faz os vinhos é de uma família americana. Essa família enviou o nosso amigo a todo o mundo, para aprender com outras grandes regiões vinícolas e vinicultores (sim, elas existem). Quando voltou, pediram-lhe que retribuísse a generosidade que os outros enólogos lhe tinham demonstrado, criando um grupo de enólogos portugueses para provar cegamente os vinhos uns dos outros, darem feedback, apoiarem-se mutuamente, colaborarem em questões ambientais, etc. Apesar de ter tentado muitas vezes, foi recebido com suspeição, desconfiança e o confronto com a questão: por que razão é que concorrentes iriam alguma vez criar comunidade, partilhar informações e apoiar-se mutuamente? Para realmente atingir o sermos bem sucedidos, temos todos de seguir a luz com abertura, confiança e boa vontade. Temos de criar uma cultura onde acreditamos que somos mais fortes juntos e que o que é bom para o todo, será bom para os indivíduos e entidades. Eu desafiaria os vossos leitores a não esperar que alguém o faça primeiro, mas a serem os primeiros a dar esse passo. O que é que farão? Como o farão?
Já não está a trabalhar no Citizen mas ainda está ligada a ele de alguma forma? O que sente ao olhar para ele neste momento?
— Quando nos mudámos para Portugal, deixei de trabalhar activamente para o Citizen mas o João e eu continuamos a ser grandes fãs e apoiantes. As nossas amizades continuam fortes. Dois dos principais membros da equipa do Citizen já nos visitaram aqui em Portugal.
Há algo que gostasse de acrescentar?
— Que estou muito entusiasmada com o vosso projecto e a torcer por vocês e pelo vosso sucesso!
