À volta de um fogão e de uma grande mesa, quatro estudantes descascam batatas, cenouras, fervem água e cortam cebolas entre conversas, olhares cúmplices e risos descontraídos.
Esta cena, que se passou ao fim de uma tarde de quinta-feira à Rua de São Salvador nº 6, é a rotina diária de centenas de estudantes que compõem uma imagem típica da cidade de Coimbra: a preparação coletiva do jantar numa república estudantil, gesto raríssimo nos dias de hoje em que o fastfood e a individualidade dão as regras do jogo.
A descrição desta cena, embora tenha sido presenciada especificamente na Real República Bota-Abaixo, pode ser estendida às vinte repúblicas espalhadas por Coimbra. São as Repúblicas as responsáveis por, contrariamente ao crescimento notável do individualismo dos tempos pós-modernos, oferecerem não apenas um quarto para viver, mas sobretudo um convívio cultural e político de partilha e solidariedade entre jovens vindos dos mais variados lugares do globo.
A realidade de duas dessas repúblicas, a Real República Rápo-Táxo e a República dos Fantasmas, entretanto, corre grande risco de desaparecimento por um facto também concreto: a dificuldade de aquisição do imóvel que abriga, desde 1969, as duas repúblicas situadas à rua Castro Matoso nos números 13 e 15 respectivamente, ao pé das Escadas Monumentais.
Riscos e incertezas
Com a proximidade do fim de contrato de arrendamento surgem as incertezas quanto à permanência de, pelo menos, 16 estudantes que ocupam ambas as residências, sem contar aqueles que, sob o estatuto de comensais, frequentam as casas diariamente e compartilham dos jantares e das atividades culturais.
São dois os principais riscos que podem interromper a continuidade dos Fantasmas e da Rápo-Táxo, repúblicas ocupantes do imóvel em questão desde 1969. O primeiro risco está relacionado à real possibilidade de aumento da renda ao fim do contrato, ação permitida pelo novo Regime de Arrendamento Urbano (RAU) que, anteriormente, protegia-as neste quesito. Um aumento da renda significaria um custo alto aos estudantes que optam pela moradia estudantil justamente pela questão económica.
O segundo risco é o de venda do imóvel por parte do senhorio para um empreendimento imobiliário inteiramente alheio aos anseios estudantis, o que significaria o fim de cinquenta e quatro anos de história de duas repúblicas reconhecidas como Património Mundial da Humanidade desde 2013.
Para Catarina Serra, moradora da Rápo-Táxo há dois anos, a situação é já conhecida e alarmante: «Historicamente, há outras casas que já fecharam, não resistiram à especulação imobiliária, à pressão dos senhorios. E o problema é esse, não dá para meia dúzia de pessoas que viveram e vivem numa República salvar um edifício deste tamanho».
O contexto tornou-se mais preocupante há dois anos, quando Catarina estava recém-chegada à Rápo-Táxo. Na ocasião, houve uma tentativa de destacamento dos quintais de ambas as casas para a venda em separado sem que houvesse nenhum aviso prévio aos moradores.
«Nós tivemos a imobiliária a entrar nos quintais para tirar fotografias e não tivemos sequer um aviso. Só depois de tentarmos de todas as formas ter conhecimento do projeto é que percebemos o que se passava no nosso quintal. Depois disso passamos a nos mobilizar para resolver a questão».
A situação só não chegou às vias de facto, como explica-nos Pedro Rodolfo, morador da Rápo-Táxo, «porque, na altura, conseguimos obter para ambas as repúblicas o estatuto de Património Cultural de modo que o senhorio foi impedido de fazer o destacamento e alargou o contrato de arrendamento».
Este período, entretanto, está a chegar ao fim, o que significa uma crescente ausência de certezas em relação à permanência no imóvel e uma preocupação latente.
A corrida contra o tempo
A solução encontrada por antigos e atuais moradores da República Rápo-Táxo e da República dos Fantasmas foi a de negociar, conjuntamente, a compra do imóvel. Após idas e vindas de propostas entre as repúblicas e a representação do senhorio, um acordo foi obtido por ambas as partes. Chegou-se ao valor de 475 mil euros para a compra do imóvel, como relatam os repúblicos – termo utilizado para designar os estudantes moradores das Repúblicas.
«É muito triste, mas chegamos à conclusão de que, por mais que as pessoas a nossa volta apoiem e gostem da casa, está acima de nós poder arcar com tanto dinheiro. É triste porque não somos apenas Repúblicas, somos um lugar onde a porta está sempre aberta, quem passa aqui e precisa comer, come e não paga nada. Temos essa parte da ajuda estudantil. Somos um museu vivo».
Rodolfo Pedro, repúblico
Diante deste avanço, um desafio ainda maior se apresentou: como angariar um valor como este em tão pouco tempo? Foi neste contexto que ambas as repúblicas deram início a uma corrida contra o tempo para a arrecadação de fundos que permita a compra do imóvel. Paulo Peixoto, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (UC), pesquisador do Centro de Estudos Sociais – integrando a linha temática «Culturas urbanas, sociabilidades e participação» – e pró-reitor das repúblicas desde março deste ano, afirma se tratar de uma política já estabelecida pela universidade, embora reconheça as limitações da oferta em relação ao montante necessário. «Há mais de sete anos a UC tem definido a regra de coparticipar com 10% do valor da aquisição das repúblicas que tiverem o interesse de comprar os imóveis. O problema de algumas repúblicas, como essa em concreto, é que este valor pode ser muito pouco para o que o imóvel custa».
Para Rodolfo Pedro, a proposta de elaboração deste Regulamento, quando realmente efetivado, é um avanço e pode beneficiar todas as repúblicas futuramente, mas não há, até o momento, informações a respeito do conteúdo deste documento.
Crowdfunding e o apelo ao apoio colectivo
Diante dos desafios, uma outra forma de angariar recursos está em curso. Trata-se do crowdfunding (angariação pública de fundos) organizado pela República dos Fantasmas tendo por meta o montante de 250 mil euros. Até o momento, porém, foram obtidos pouco mais de 1000€, o que significa serem desafios ainda imensos.
Também o Festival Luna Fest, que decorreu em Coimbra no mês de agosto, colaborou com a acção. Os organizadores disponibilizaram a ambas as Repúblicas bilhetes para venda, com o valor a reverter para as casas.

O propósito, segundo Rodolfo Pedro, é o de arrecadar pelo menos €300 000 através de diversos meios para que seja possível obter um empréstimo do valor restante. Apenas assim, a permanência das Repúblicas torna-se um facto. Angariar todo esse montante, porém, é um desafio imenso e a preocupação mostra-se latente. «É muito triste, mas chegamos à conclusão de que, por mais que as pessoas a nossa volta apoiem e gostem da casa, está acima de nós poder arcar com tanto dinheiro. É triste porque não somos apenas Repúblicas, somos um lugar onde a porta está sempre aberta, quem passa aqui e precisa comer, come e não paga nada. Temos essa parte da ajuda estudantil. Somos um museu vivo».
Numericamente, as repúblicas estudantis têm sofrido quedas frequentes, embora seja difícil quantificar esse dado, tendo em vista que o nascimento e o fim das Repúblicas seja um movimento frequente, conforme afirma César Sousa, residente da República Bota-Abaixo.
E depois da compra do imóvel?
É válido ressaltar que mesmo a compra do imóvel não garante uma vida tranquila aos Repúblicos. Fundada em 1949, a República Bota-Abaixo – cuja janela de um dos quartos estampa a capa do primeiro disco de Zeca Afonso – é proprietária do imóvel na rua São Salvador desde 2002. Vencido esse primeiro desafio, outros tantos se manifestam, como aponta Olga Perez, residente há três anos da Bota-Abaixo. O mais difícil deles é, «sem dúvidas, a manutenção da casa, que é muito antiga e tem problemas estruturais, tem problemas no telhado, infiltrações», menciona a estudante de Antropologia.
Neste caso, em que já há uma propriedade em posse da república, a UC, segundo o pró-reitor das repúblicas, não dispõe de legalidade para direcionar qualquer tipo de verba capaz de ajudar na manutenção estrutural dos prédios. «Não temos como justificar o uso de dinheiro público para a manutenção de um imóvel particular», justifica Peixoto. No entanto, João Oliveira, comensal da Bota-Abaixo, alega ter já a república recebido esse tipo de apoio em décadas anteriores. Neste contexto, fica claro a existência de realidades tão distintas quanto vastas no reino das repúblicas e que, certamente, é necessário que a comunidade preste atenção aos desafios destas que são, sem dúvida, a alma pulsante de uma cidade universitária.
Gostaram do que leram?
E repararam que não temos publicidade?
Para fazermos este trabalho e o disponibilizarmos de forma gratuita as leituras e partilhas são importantes e motivantes, mas o vosso apoio financeiro é essencial. Da mesma forma que compram um lanche ou um bilhete para um espectáculo, contribuam regularmente. Só assim conseguimos alcançar a nossa sustentabilidade financeira. Vejam aqui como fazer e ajudem-nos a continuar a fazer as perguntas necessárias, descobrir as histórias que interessam e dar-vos a informação útil que afine o olhar sobre Coimbra e envolva nos assuntos da comunidade.
Contamos convosco.

































