Quem, quando, onde, como e porquê – é esta a linha de perguntas do inquérito que está neste momento disponível online para conhecer os hábitos e percepções de quem frequenta espaços de recreação nocturna na cidade, promovido pela Associação Existências. O grupo intervém na prevenção e redução de danos associados ao consumo de substâncias psicoactivas e a meta agora é estender o raio de acção a bares, cafés, discotecas e festas académicas. A pouca qualidade dos espaços, o consumo de álcool em excesso e a falta de segurança estão já sinalizados como os principais problemas da noite de Coimbra.
As primeiras 100 respostas ao questionário indicam que mais de 90% das pessoas consomem bebidas alcoólicas quando saem à noite, sendo que 40% bebe shots, adianta Paulo Anjos, assistente social e presidente da AE. Os dados devem ser lidos como um alerta para um cenário de alcoolização rápida e pouco controlada. «Os jovens têm pouca noção dos riscos. Não sabem consumir: consomem grandes quantidades e num curto espaço de tempo. Em relação às mulheres, não há consciência suficiente de que ficam mais intoxicadas do que os homens com a mesma quantidade de álcool e isso faz com que estejam vulneráveis perante um conjunto de factores, como violência, incluindo sexual, ou entrem em coma alcoólico mais facilmente», destaca.
As grandes razões dadas para o consumo de álcool e outras drogas «são a diversão e o relaxar», com a Associação Existências a assumir como missão «aumentar o conhecimento sobre como consumir substâncias de forma mais adequada» para reduzir os danos associados às saídas à noite.
Em resposta ao inquérito, mais de metade das pessoas indica beber pelo menos cinco copos numa noite, um valor acima do que a Organização Mundial de Saúde classifica como consumo moderado: três unidades (30 g), no caso dos homens; duas (20 g), para as mulheres. Em relação uso de outras drogas, os dados recolhidos até ao momento mantêm a nicotina e a canábis no topo da tabela das substâncias mais consumidas. A cocaína, o ecstasy e as anfetaminas parecem estar pouco presentes na noite de Coimbra, mas os resultados preliminares, ressalva Paulo Anjos, podem ainda ser pouco representativos e sofrer alterações com a participação de mais pessoas no inquérito.

Seguranças «demasiado violentos»
Os episódios de agressão fazem também parte a noite de Coimbra, com cerca de 28% das pessoas a referirem ter já sofrido algum tipo de violência – física, de género, emocional e sexual. Há também queixas em relação aos seguranças de alguns espaços nocturnos por serem «demasiado violentos e preconceituosos», «sobretudo contra pessoas da comunidade LBGTIQ», havendo também registo de casos de racismo e homofobia.
«Há necessidade de trabalhar com os responsáveis por estes espaços para os consciencializar das medidas que podem tomar», reforça Paulo Anjos, ao sublinhar que «a recreação nocturna é muito importante para as comunidades, para o convívio e para o bem-estar social dos jovens». Mas, do outro lado da moeda, há «riscos que queremos evitar e mitigar, como o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e de outras drogas, a condução perigosa ou comportamentos sexuais de risco», resume.

Além da sensibilização e da distribuição de panfletos e materiais preventivos como preservativos, a associação pode fazer testes de alcoolemia nos espaços ou eventos de recreação nocturna, como chegou a fazer em algumas edições da Queima das Fitas. O rastreio de infecções por VIH, hepatites víricas e sífilis em contextos de festa ou diversão é também uma possibilidade.
Em Viseu, a Existências tem já em curso o «Be Safe», de intervenção em espaços de lazer nocturnos para reduzir os riscos e danos associados à sexualidade e ao consumo de drogas, disponibilizando materiais e informação, de forma gratuita. É feito em parceria com o Instituto Piaget e foi lançado em 2020.
Sem financiamento em Coimbra para replicar o projecto, a associação organiza a 15 de Janeiro um encontro com responsáveis da Câmara Municipal de Coimbra e do Centro de Respostas Integradas, dedicado ao tratamento, prevenção e redução de danos associados à toxicodependência e alcoolismo, para «poder ter uma intervenção mais efectiva nos espaços de recreação nocturna». A base da reunião são os dados do questionário, feito em colaboração com o Instituto Europeu para o Estudo dos Factores de Risco em Crianças e Adolescentes.
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