Uma vez por mês, a Serve the City Coimbra, integrada na rede de voluntariado internacional, organiza um jantar comunitário na Escola Secundária Jaime Cortesão. 21 de novembro foi a data escolhida para mais um encontro entre convidados e voluntários, num ambiente que exala carinho, aconchego e familiaridade. O próximo jantar vai ocorrer a 12 de dezembro.
De acordo com Manuela Mendonça, coordenadora de operações, a rede pretende mobilizar indivíduos da comunidade para estarem com pessoas com contextos e percursos diferentes dos seus, nomedamente pessoas socialmente fragilizadas, em situação de sem-abrigo, pessoas idosas isoladas, ou em situações de maior vulnerabilidade. “Partilharem amizade, um tempo em que se podem relacionar e também haver, de ambos os lados, compreensão”, sublinha.
A necessidade de voluntários
Com presença em Portugal desde 2007, a Serve the City apenas começou a organizar jantares comunitários em Lisboa no ano de 2011. Desde então, tem-se expandido para outras cidades, até chegar a Coimbra em 2018, com jantares a decorrer bimestralmente. Devido à pandemia de Covid-19, os jantares tiveram de ser interrompidos e apenas recomeçaram em outubro de 2022.

Contudo, desde setembro de 2024, os jantares ocorrem mensalmente. Esta evolução foi possível graças à experiência da equipa nacional, ao envolvimento de empresas nacionais e locais, como a TUU e a VICOMETAL, e à passagem de palavra entre os membros da comunidade.
Segundo Vera Rainho, directora-executiva da Serve the City em Portugal, a maior regularidade dos jantares potencia a proximidade e o sentido de comunidade. Tendo em vista a perspetiva de crescimento que querem alcançar em Coimbra, a Serve the City precisa de voluntários e de diversificar o grupo atual. Nesse sentido, pretendem continuar a divulgar o projeto com os parceiros e entrar em contacto com a Universidade, associações de estudantes e bancos de voluntariado local. Para se tornarem voluntários da Serve the City, podem inscrever-se no site.
Vera Rainho confessa que a sustentabilidade financeira dos jantares é sempre um desafio que tem de ser ultrapassado, porque sem empresas ou grupos que sustentem o projecto, torna-se muito difícil para a Serve the City assegurar esse investimento.
Além disso, Coimbra apenas constituiu um grupo de coordenação composto por voluntários no ano passado. Porém, a atribuição do Prémio Solidário do BPI e da Fundação “la Caixa” vai ajudar a aumentar a autonomia da Serve the City de Coimbra em relação à equipa de Lisboa. Este financiamento vai auxiliar na consolidação do projeto e na abertura da Academia de Mudança na cidade, planeada para fevereiro.

“Esta academia pretende tornar os encontros mensais em encontros mais regulares durante a semana para potenciar a mudança, a transformação, o sentimento de equidade com quem nós trabalhamos”, explica Vera Rainho. “A ideia é sempre dignificar aquela pessoa, é sempre investir nela, é estender um bocadinho mais a rede de pessoas que conhece, de pessoas que são apoiadas, de pessoas que apoiam”, completa Manuela Mendonça.
Sobre o impacto dos jantares na cidade, Vera Rainho considera que o facto de cada vez mais pessoas participarem mostra que conseguiram criar um espaço de segurança e conforto. Ademais, os testemunhos que recebem permitem-lhes perceber que existem mudanças a acontecer. “Pode não ser sair da rua para um contexto de casa, mas é a mudança dos afetos e das relações de proximidade. Pessoas que são, muitas vezes, invisíveis serem escutadas e fazerem parte de uma comunidade”, reforça.
O impacto na vida dos voluntários
Ema Simão, Adriana Figueira e Andreia Espírito Santo são voluntárias da Serve the City. Ema e Andreia conheceram a iniciativa através de Adriana, que já tinha participado em jantares em Lisboa. Pretendem continuar a ir aos jantares porque sentiram-se muito preenchidas com a experiência. “Se puder dar um bocadinho da minha alegria para fazer a noite destas pessoas uma noite de convívio e de amizade, não custa nada”, declara Andreia.
Da sua primeira experiência, Ema retirou que “todos temos histórias e há pessoas que têm um apoio diferente de outras”. Por sua vez, Andreia admite que estava nervosa. Apesar de já ter realizado outras ações de voluntariado, nunca teve um contacto tão próximo. Saiu desta experiência “de coração cheio”, a sentir que ganhou muito mais do que deu.
Adriana, com mais experiência, confessa que os jantares em que já participou a impactaram muito. “Saio sempre daqui (…) a pensar que somos todas pessoas e somos todos iguais, cada um com as suas situações. Mas o importante é estarmos todos unidos para um fim”, reflete.
O voluntariado mostrou a Andreia como definir as suas prioridades. “O dia-a-dia é tão atribulado que é muito fácil dizer que não temos tempo. Quando percebemos que, com pouco esforço, temos um impacto tão grande na vida de outras pessoas, começamos a priorizar de uma forma diferente o nosso tempo”, reforça. Já Ema considera que o voluntariado a ensinou a ser uma pessoa menos egoísta.
Por outro lado, Adriana alerta para a importância de os voluntários cuidarem da sua saúde mental após cada experiência, porque só assim conseguem dar o seu melhor no próximo jantar.

A perspetiva dos patrocinadores
Carlos Cordeiro e Paula Santos, do Grupo VICOMETAL, partilharam que foi através da Assembleia de Deus de Coimbra que conheceram a Serve the City e lhes foi proposto patrocinarem um jantar, o que aceitaram prontamente. Para estes patrocinadores, a principal motivação para o investimento foi religiosa: “temos de estar disponíveis para estas causas porque quem precisa de nós são as pessoas, e isto faz-nos sentir mesmo muito bem interiormente”, proclama Carlos Cordeiro. “Jesus deu-nos o exemplo que devemos andar com quem precisa de nós”, completa Paula Santos.
“Não tínhamos a noção desta realidade, mexe connosco. Eu estava emocionado durante o serviço porque é muito gratificante sentir o que podemos fazer com tão pouco e dar alegria às pessoas e sentimos da parte delas, logo à partida, essa retribuição e esse reconhecimento”. (Carlos Cordeiro)
Por sua vez, Paula Santos admite que também desconhecia a realidade e lamenta que os jantares não ocorram com mais frequência. “Estas pessoas precisam de mais apoio, se há empresas que se disponibilizam, acho que poderia fazer-se mais vezes e chegar até outras pessoas”, refere. O que mais marcou Carlos Cordeiro e Paula Santos foi a partilha, a entreajuda e a alegria dos convidados.

O retrato de um jantar “muito simples e muito complexo”
Às 18h45, os portões da escola Jaime Cortesão já estão abertos e a equipa de acolhimento recebe todos os que vão participar. No momento da chegada, a cozinha já está a tratar de todos os preparativos para a refeição e as mesas já estão postas. Enquanto alguns voluntários se familiarizam com o espaço, outros deslocam-se como quem já conhece os cantos à casa. Dividem-se entre a equipa que cozinha, a equipa que serve e a equipa que senta à mesa. Todos se esforçam para que o jantar corra dentro das expectativas.
No pequeno largo junto ao refeitório, pessoas de todas as idades reúnem-se enquanto esperam a chegada de conhecidos e desconhecidos. As pessoas cumprimentam-se com sorrisos calorosos, mesmo sendo a primeira vez que os seus caminhos se cruzam, ou expressam alegria por rever velhos amigos. Para facilitar a criação de conexões, todos têm o nome escrito num pequeno pedaço de fita adesiva colado no peito. O tempo frio e chuvoso daquele fim de tarde era amenizado com o chá servido aos convidados. Nas mesas colocadas no pátio as pessoas aproveitavam o compasso de espera para se conhecerem antes do jantar.
Antes do início do jantar, por volta das 19h40, começou o briefing no pátio. Os voluntários reuniram-se em círculo para ouvir as instruções e palavras de João Pedro e Vera Rainho, da Serve the City. João Pedro explicou que o objetivo do jantar é “muito simples e muito complexo”. Na sua essência, é “estar à mesa com vizinhos que não conhecemos, mas que gostaríamos que estivessem mais perto”. É também quebrar barreiras, compreender que “somos todos muito parecidos” e ser um estímulo para uma decisão de mudança. “São pessoas com vulnerabilidades como nós, a grande diferença é que aquelas pessoas não tiveram uma rede de apoio como nós”, acrescenta Vera Rainho.
Terminado o briefing, todos se dirigem para o refeitório para dar início ao jantar. Primeiro entram os voluntários e só depois os convidados. Numa mesa de quatro existe espaço para um voluntário, enquanto as mesas de oito têm espaço para dois. Os voluntários novos são acompanhados pelos experientes, de modo a que todos se sintam confortáveis. Desta vez, o jantar foi “atípico”, pois contou com 85 convidados e 28 voluntários sentados nas mesas.
Já sentados, as conversas começam a desenrolar-se. A ementa é composta por pão e manteiga, caldo verde, esparguete à bolonhesa, sumo ou água, mousse de chocolate e chá ou café para finalizar. Os voluntários percorrem o espaço num empenho mútuo de chegar a todos.
Ao longo da refeição, a conversa permite que desconhecidos se tornem menos desconhecidos. Memórias são criadas e, com o auxílio de fotografias, eternizadas. O silêncio não tem lugar neste jantar, o ruído vai aumentando à medida que as histórias partilhadas entre todos aprofundam as ligações que estão a ser construídas.
Ao aproximar-se o fim do jantar, foi distribuído um quizz pelos convidados para perceber que interesses gostariam de explorar na Academia da Mudança. Na hora da despedida são trocados abraços e beijos, afetos de quem tem o coração mais quente. Enquanto alguns convidados vão embora após o fim da refeição, outros continuam sentados e criam um ambiente festivo enquanto cantam.
Acabada a refeição, são cantados os parabéns a todos os que fizeram anos desde o último jantar. No final, tudo é arrumado, sem deixar sinal do momento que foi partilhado por dezenas de pessoas. Porém, todos saem com um sentimento de dever cumprido, um estômago aconchegado e o coração mais cheio.









