Contribuir small-arrow
Voltar à home
Visitem

Loja do Estabelecimento Prisional de Coimbra

Contratem

Serviços do Estabelecimento Prisional de Coimbra

Voluntariem-se

Estabelecimento Prisional

Tomámos a liberdade de entrar na Penitenciária de Coimbra

Das formas das queijadas de Tentúgal à mobília, sapatos e equipamento de conhecidas marcas de café e cerveja, falamos de quem entra e do que sai do secular Estabelecimento Prisional de alta segurança, cujo futuro no impressionante local de origem, no centro da cidade, é incerto.

Partilha

Fotografia: Mário Canelas, Filipa Queiroz

Visitem

Loja do Estabelecimento Prisional de Coimbra

Contratem

Serviços do Estabelecimento Prisional de Coimbra

Voluntariem-se

Estabelecimento Prisional


De quinze em quinze minutos a Torre da Universidade de Coimbra diz as horas para a cidade e o som do famoso relógio conhecido como a «Cabra» atravessa os muros do Estabelecimento Prisional da cidade, levando aos reclusos as famosas batidas que regulam a vida ritual académica. Estudantes também ouvem quando os altifalantes do Estabelecimento Prisional de Coimbra chamam, pelos números, os homens ali detidos, dando conta da rotina numa cadeia. Esta ponte sonora faz parte da interação que a cidade mantém desde 1889 com a prisão que nasceu junto ao Convento de Santa Ana, então fora do perímetro urbano.


Já tínhamos contado a história das cadeias na cidade e agora mergulhamos naquela onde cabe uma imensa história de 133 anos de relacionamento entre a prisão e a malha urbana envolvente, que foi crescendo para junto dos altos muros – sem que a prisão pedisse e sem que a cidade se apercebesse. Aconteceu. Assim como Coimbra, Paris também convive com uma penitenciária intramuros: a Prisión de La Santé está localizada no famoso bairro de Montparnasse e de vários pontos da cidade é possível ver a construção em Sistema Panóptico de Bentham, que permite a um único vigilante observar todos os prisioneiros. Coimbra também tem esta torre (em Portugal só existem duas) que há muito suscita curiosidade por quem passa.


Um quarteirão inteiro alberga toda a estrutura desta penitenciária que se estende por oito alas e guarda uma População Prisional constituída por homens em cumprimento de penas de longa duração, uma média de 15 anos. O mais velho dos 550 reclusos tem 81 anos e o mais novo está com 18. Existem cerca de 12 nacionalidades representadas nos presos divididos por regime de execução da pena: os de regime aberto e os de regime comum. Durante as 24 horas dos sete dias da semana, 140 guardas se revezam na segurança de todo o sistema.


Finos, cafés, queijadas e cadeiras

Quando sai um café tirado de uma máquina Delta, saibam que muito provavelmente o equipamento foi tratado por um recluso de Coimbra. O mesmo vale para uma cerveja de pressão da Super Bock, pois todas as máquinas da empresa recebem manutenção na oficina que funciona dentro da prisão. Também muitas forminhas das queijadas de Tentúgal nascem na serralheria deste estabelecimento prisional, mais especificamente nas mãos de Manuel Soares que há 33 anos ensina a arte aos reclusos: “Aqui também foram feitos os candeeiros de ferro forjado que estão no Jardim da Sereia”, revela.


O Estabelecimento Prisional de Coimbra é uma das prisões portuguesas que oferece mais oficinas de trabalho a quem cumpre pena privativa de liberdade. Os detentos podem trabalhar em atividades como marcenaria, carpintaria, serração, estofaria, encadernação, empalhadores, entalhadores, mecânica, polidores, sapataria e serralharia. É o único setor oficial de estabelecimentos prisionais de Portugal que funciona ininterruptamente há mais de 100 anos e atualmente é comandado por duas mulheres: Ana Paula Martins dos Santos Sobral e Cristina Maria Saraiva Faria Falcão.


A Cadeia começou a receber presos em 1901 e as oficinas foram construídas em 1915, pois o objetivo da pena passou a ser o de reabilitar pelo trabalho: «Hoje temos quase 90 detentos a trabalhar aqui. Há alguns anos, estas oficinas eram responsáveis por quase toda a alfaiataria e sapataria para a população de Coimbra. É um mundo que ninguém suspeita… aqui restauramos e construímos os móveis do Tribunal da Relação, do Museu Machado de Castro, da Universidade de Coimbra, do Museu de Conímbriga, da Cervejaria Práxis, do espaço Coola Boola», enumera Paula Sobral, que coordena os recursos humanos, a área económica e financeira e os contratos com as empresas (vejam nos marcadores acima).


Junto com Cristina Falcão, Paula Sobral cuida de todos os reclusos a partir do momento em que estes se tornam trabalhadores, a pedido dos próprios. Um conselho técnico do estabelecimento avalia e adequa o pedido às necessidades formativas, de aprendizado e até económicas para que o ofício já aproxime o preso para um emprego quando já estiver em liberdade.

Ouro sobre azul

João Rosa está preso há 12 anos e trabalha como sapateiro. Guarda centenas de moldes de uma sapataria que já foi referência na cidade: «Também fazíamos chapéus mas isso já não se usa. Aqui, nestas estantes, tenho centenas de moldes de pés. Já estive a contá-los e são quinhentos e picos. Como quase ninguém vem mais pedir sapatos à medida, eu trabalho apenas para os meus colegas reclusos. Já não tenho aprendizes, até tive um mas ele não gostava de fazer nada e eu disse que para fazer pouco estou cá eu! Além de sapateiro, aprendi a fazer tapetes de Arraiolos e peças em estanho”, conta João.

Na oficina de encadernação Rui Carvalho parece um alfaiate de livros, está concentrado em pintar uma lombada e segura numa pinça uma finíssima folha de ouro. Passa boa parte do dia a dar uma nova vida para as obras literárias que entram ali em péssimo estado. Com métodos artesanais e sem fórmulas padronizadas, encaderna, costura e restaura volumes de todas as épocas.


Jorge Costa trabalha na oficina de equipamentos da Super Bock: «Prefiro estar aqui que dentro da cela, o trabalho da oficina me liberta. Aqui ninguém é mestre, patrão ou empregado, somos todos iguais. Estou a limpar estas cabeças de extração que tiram a cerveja de dentro do barril, depois vou afinar as serpentinas que gelam os finos dos portugueses, tenho que ter atenção senão a cerveja sairá morna. Assim como esses equipamentos rotos eu também tive uma falha no meu percurso e tento aqui afinar minha vida para tentar voltar melhor para o mundo lá fora», desabafa Jorge.

Tão longe, tão perto

O atual presidente da Câmara de Coimbra, José Manuel Silva, fez da retirada do Estabelecimento Prisional de Coimbra do centro da cidade uma das suas bandeiras de campanha e sempre vincou a necessidade de subtrair a prisão para aumentar a zona verde na cidade e considera esta penitenciária «um ponto de interrupção e descontinuidade da malha urbana». Para esta reportagem, o autarca confirmou que pretende transferi-la para a periferia «e lançar um concurso de ideias para definir a utilização daquele espaço nobre da cidade, garantindo sempre um corredor verde de ligação do Jardim Botânico e ao Parque de Santa Cruz» e que a «não transferência da Penitenciária para a periferia traz prejuízo para o centro urbano».

Para o Diretor do Estabelecimento Prisional, Orlando Carvalho, a saída do centro da cidade é uma decisão da tutela e por isso política. Está no cargo desde 2013 e começou a trabalhar no Tribunal de Menores, passando ainda pelo Estabelecimento Prisional de Aveiro e Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus. Habituado com ambientes de tensão, Orlando Carvalho explica que a grande particularidade da sua função é a consciência de cuidar de pessoas que estão na pior fase da vida e que todas as suas decisões influenciam estas pessoas: «Mas o objetivo maior é reinserir os que cá estão e garantir tranquilidade à sociedade, uma equação muito difícil de gerir.

O sistema prisional tem que se abrir à sociedade e esta precisa descobrir que não é pelo fato de uma pessoa estar hoje reclusa que amanhã não possa se tornar um bom cidadão e ser um bom vizinho ou colega de trabalho. Sei que há quem pense que esta prisão estaria melhor longe do centro de Coimbra, se calhar uma parte da sociedade ficaria mais descansada se visse a prisão a muitos quilómetros de distância, mas, em termos efetivos não faria diferença, pelo contrário, ouvir a vida acontecendo ali tão perto ajuda e facilita pensar e sentir um possível futuro lá fora”.

Mais Histórias

Filipe Duarte resiste no mercado sem frescos pelo comércio vivo de Coimbra

O fecho do Mercado D. Pedro V, após derrocada na Cerca de Santo Agostinho,
prejudica Filipe Duarte e outros comerciantes, já a remar contra tempestades, cheias e obras do Metrobus há dois anos.
A ponte de frescos locais para mesas de Coimbra resiste – fomos saber como.

quote-icon
Ler mais small-arrow

Tempestade deixou muitas pessoas surdas no escuro informativo. Este movimento quer que a mensagem lhes chegue

O Movimento Surdo de Coimbra faz apelo urgente: após a tempestade, pessoas surdas estão há uma semana sem acesso a informação essencial. Escutamos Beatriz Romano e Jéssica Ferreira para passar a palavra.

quote-icon
Ler mais small-arrow

Coimbra em alerta para cheias: reunimos o que precisa saber para ajudar e proteger-se

Com previsão de chuva intensa nas próximas horas e risco elevado nas zonas ribeirinhas do Mondego, voltamos a estar em alerta máximo.

quote-icon
Ler mais small-arrow
Contribuir small-arrow

Discover more from Coimbra Coolectiva

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading