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Comemorações do 25 de Abril 2023

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Centro de Documentação 25 de Abril

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Ateneu de Coimbra

25 de Abril: comemorar e lembrar a «tradição que Coimbra tem de resistência»

Quase cinco décadas depois da Revolução dos Cravos, a cidade que o historiador Rui Bebiano sublinha que «esteve na linha da frente do progresso» organiza-se para celebrar a democracia, colocar em debate o que a ameaça e como se pode garantir o seu futuro.

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Fotografia: Mário Canelas

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Há 49 anos que o 25 de Abril em Portugal é assim: nunca são demais os festejos para a data mais importante da história portuguesa moderna. Por estes dias as atividades intensificam-se. Em Coimbra, na espinha dorsal da agenda de comemorações está o Ateneu que há dez anos criou uma agenda colaborativa que reúne seis dezenas de organizações.

João Pinto Ângelo é sócio do Ateneu desde o dia do nascimento. Foi o avô, Adelino Pinto Ângelo, que tratou de tudo. Hoje cuida da feitura desta agenda colaborativa e das redes sociais da associação: «Faz todo o sentido que se envolva o maior número de organizações possível, não só porque faz sentido envolver as pessoas, mas porque foi no 25 de Abril que se deu a grande onda do movimento associativo e da ideia genuína de participar, fazer e construir. Eu sou só um obreiro das comemorações e tenho a responsabilidade de fazê-las chegar a todos os lados. Não queremos falar somente às pessoas que sabem o que foi o 25 de Abril, é muito importante envolver aquelas que não sabem e mostrar que os valores da Revolução dos Cravos ainda estão muito atuais», explica João.

A bafejar no meu pescoço

«No próprio dia 25 de Abril a democracia já estava ameaçada, nós estávamos a sair do fascismo e ele já estava a intimidar-nos», reforça Beatriz Rosa, que se fez sócia do Ateneu de Coimbra no dia 24 de abril de 1974, sem imaginar o que iria acontecer no dia seguinte. Hoje é membro da direção.

O Ateneu é uma associação que nasceu como cultural, criada por operários e pequenos comerciantes, à qual depois se juntaram os estudantes da Universidade de Coimbra (UC), grandes impulsionadores do que é atualmente conhecido como baluarte conimbricense de resistência ao fascismo por diversíssimas formas: desde o campismo, onde se discutia política à volta da fogueira, através de espetáculos com fantoches e interação com as crianças, até ao teatro, transmitindo mensagens e fugindo à censura.

«Sempre fomos vigiados e perseguidos pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado – PIDE e soubemos disso através dos relatórios que tivemos acesso. Muitos sócios foram presos, dirigentes torturados. Quando veio a Revolução, o Ateneu virou uma espécie de quartel general do que estava a acontecer e de apoio ao movimento. O 25 de Abril tem para nós um significado comovente, de modo que na noite de 24 para 25 nos reunimos na Sé Velha e ‘queimamos o facho’, dando as boas-vindas ao Dia da Liberdade. Em 2013, pensamos em chamar outras organizações e hoje somos cerca de 60 os que se juntam num programa colaborativo de atividades que vão desde os finais de março até princípios de maio», conta Beatriz Rosa.

A queima do facho consiste no ritual de, à meia-noite do dia 24 e ao som da Grândola Vila Morena de José Afonso, queimar um boneco que representa no fundo o poder ditatorial no Largo da Sé Velha, perante a multidão.

No Ateneu convivem aqueles que viveram o 25 de abril e os que já nasceram na democracia. São criadas pontes entre as duas gerações onde o fio condutor são princípios que a Revolução defendeu: «Ainda temos muito por realizar, sabemos dos retrocessos e é também por isso que comemoramos. No próprio dia 25 de Abril a democracia já estava ameaçada, nós estávamos a acabar de sair do fascismo e ele já estava a intimidar-nos, a vigilância precisa ser constante», avisa Beatriz.

Ouvir outras vozes

Preservar a voz daqueles que transformaram verdadeiramente a vida dos outros pode ser o resumo frásico do Centro de Documentação 25 de Abril – Cd25A e é Natércia Coimbra quem o diz: «Nascemos da constatação e da reflexão conjunta de que todas as vozes devem ser ouvidas também nas instituições que preservam a memória, é este o nosso ponto de partida, todas as vozes devem ser importantes para o investigador, é preciso analisar e combinar memórias para que a ciência não ecoe apenas as vozes do topo, a voz de quem manda, de quem decidiu.»

Natércia Coimbra começou a vida profissional como bibliotecária da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, nos idos de 1981, e está no Centro desde a sua fundação, em 1986, como coordenadora técnica. Conta que a razão pela qual se mantém há tanto tempo ali é o privilégio de fazer parte de um projeto inédito em Portugal, uma espécie de corporação híbrida entre arquivo, biblioteca, centro de documentação, centro de informação, com uma filosofia arquivística onde instituições públicas também podem e devem preservar arquivos privados desde que eles tenham interesse público.

Em Coimbra, esta ideia de organização sistemática e profissional de documentação privada começa a se desenvolver na década de 80, quando um conjunto de professores da UC entende que guardar as vozes ativas na sociedade portuguesa era muito importante. Já se encontravam, em leilões norte-americanos, documentos portugueses da Revolução dos Cravos. O Cd25A é pioneiro – e são poucos como ele no mundo: «Existe um em Haia, outro em Amsterdão e mais um em França, que também são dedicados a este tipo de documentação: volátil, efémera, que corresponda a um determinado período histórico, que tenha ajudado a tomadas de decisão e que reflita a movimentação social em defesa de causas e princípios, porque normalmente a voz dos cidadãos fica esquecida, estas vozes alternativas dos militantes de base que estiveram na formação dos movimentos sociais e que transformaram efetivamente a vida uns dos outros, pessoas que se envolveram verdadeiramente nas transformações de seus países», explica Natércia.

A responsável chama a atenção para o maior drama do Centro neste momento: o desinvestimento traduzido num corpo de trabalhadores minguado que deveria ser o dobro – como já foi. O Cd25A tem tido um crescimento exponencial de documentação, passaram de um caixote com 70 livros, há 40 anos, para 3 milhões e meio de documentos e hoje fazem a gestão deste material com quatro pessoas. Eram 12.

Na direção do Centro de Documentação 25 de Abril, desde 2011, está Rui Bebiano, historiador, investigador e professor de História Contemporânea. Reforça na entrevista que é importante diluir uma ideia errada que muitas pessoas têm do centro: «De que nós somos uma espécie de associação cívica com vínculo político e isso muitas vezes leva a que alguns setores tenham alguma desconfiança em relação ao nosso trabalho, como se andássemos aqui com um bandeirinha a gritar viva o 25 de Abril, obviamente que não. É evidente que existe uma marca cívica e assumo que é a marca da memória da nossa democracia e que é importante preservar e defender, mas nós somos um arquivo histórico à disposição de quem quer estudar, conhecer e não temos qualquer espécie de vínculo partidário.»

Bebiano acrescenta que o Centro guarda a memória da democracia portuguesa e deveria ter um conhecimento público melhor: «Seria muito melhor se andássemos na boca do mundo, sabe por quê? Porque Coimbra tem um peso terrível sobre as costas que se chama tradição, tradição ligada a nostalgia, ao passado, rituais. Sobre a tradição que Coimbra tem de resistência e procura de novidade, dos protestos desde o tempo das lutas liberais, com gerações de pessoas que lutaram por uma sociedade diferente, isso pouco consta nesta Coimbra da tradição que tantos assimilam como sendo a essência da cidade. Este lugar esteve na linha da frente do progresso e temos aqui documentação que prova mesmo isso, estas ideias progressistas» convida Bebiano.

A cada momento comemorativo ganha espessura a ideia do que realmente foi conquistado em 1974, quando um grupo de portugueses com muito valor se levantou, seguido depois por muitos outros homens e mulheres. Esse levante militar derrubou, em mais ou menos 18 horas, os 48 anos da mais antiga ditadura fascista no mundo do século XX. Hoje sabemos que o fascismo pode ser derrotado; entretanto, fez mossa e deixou marcas fundas. Mas há sempre quem lhe faça frente. Nesta segunda-feira muitos levarão cravos vermelhos para a Sé Velha, a concentração está marcada para a meia-noite, vai-se cantar Grândola Vila Morena outra vez, porque é isso que devemos fazer com a história: refletir sobre ela e, a partir dessa reflexão, ampliar a noção do que é um mundo melhor.

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