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A páginas tantas, a leitura é só pretexto na Feira do Livro Dado

Aquela que é uma das principais e mais concorridas iniciativas da Casa da Esquina resulta sempre numa espécie de encontro de amigos com literatura à mistura. Desta vez, aconteceu no florescente Monte Formoso, a convite do próprio bairro e com concerto gratuito de Beatriz Villar.

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Fotografia: Mário Canelas

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Com apenas 13 anos, Janete Pinto já tem planos bem definidos: tornar-se psiquiatra e ir morar em França. Para isso, já há algum tempo dedica-se com afinco ao estudo da língua de Anaïs Nin. Janete também gosta de cozinhar e agora está empenhada em fazer cheesecake. Daí seu enorme contentamento quando encontrou um livro de culinária em francês na Feira do Livro Dado, na tarde de 18 de junho, no Centro Social de Monte Formoso. A jovem estava acompanhada pela irmã mais velha, Alexandra, 15 anos, e irmãos mais novos, Hossana, 7, e Leónidas, 5. «Gostamos muito de ler», diz a futura médica. Opções abundaram para a família.

Ao ver Janete orgulhosamente e com tamanho mostrar o livro foi impossível não lembrar da personagem de Clarice Lispector, em Felicidade Clandestina: não era mais uma menina com seu livro. Era uma mulher com seu amante. Como o nome deixa claro, não há troca de dinheiro nesta Feira do Livro. Chega-se com livros já lidos – ou que jamais o serão –  e sai-se com outros para renovar encantos. Euros e cêntimos são  utilizados apenas para pagar bebidas e petiscos feitos pelos voluntários da Comissão dos Pais da Capela de Nossa Senhora do Monte Formoso, da qual faz parte Joyce Martins, mãe das crianças mencionadas acima, que nos pediu para salvaguardar o rosto das filhas.

Foi a primeira vez que Monte Formoso recebeu a Feira do Livro Dado, numa parceria da Associação Moradores do Monte Formoso com a Casa da Esquina. A associação realiza este mercado livre de troca solidária desde 2016 e nesta edição contou com o apoio da União de Freguesias de Eiras e São Paulo de Frades (UFESPF), cujo presidente, Luís Correia, é morador do bairro.

A feira é uma criação da Casa da Esquina. Ou melhor, a Casa «é mãe da ideia», nas palavras de Ana Costa, «inquilina». E essa ideia é a de liberdade. «Livro dado e liberdade são a mesma coisa. Liberdade de utilizar os livros, num mundo tão capitalista, em que o acesso é difícil». Esta livre circulação de livros é um grande incentivo à leitura, tanto de adultos como de crianças, ressalta Ana, acrescentando que há muitas pessoas a partilhar o que têm.

São tantas estas pessoas que querem compartilhar que a primeira edição da Feira do Livro Dado, que naturalmente foi realizada na Casa da Esquina, pegou as organizadoras de surpresa, como lembra Sandra Alves, fundadora da associação e principal dinamizadora juntamente com a irmã, Filipa Alves. «Desafiamos as pessoas e quando vimos a Casa ficou pequena» para o comparecimento massivo de quem queria trocar livros. A Casa chegou a abrigar mais três edições do mercado livre de livros.

De 2017 a 2020, a Casa da Esquina realizou várias edições e depois passou a ser hospedada na Biblioteca Municipal para «dar hipótese a toda gente», como diz Sandra. Numa edição chegaram a ter 700 participantes, com a média a rondar os 500. Assim como crescia o número de frequentadores, aumentava também o número de parceiros que doam livros como o Graal, o Centro de Estudos Sociais e a Imprensa, ambos da Universidade de Coimbra, além do Centro de Documentação 25 de Abril, que contribuem com suas publicações.

O conceito do mercado livre de livros não poderia ser mais simples: quem tem livros em casa e já não os quer mais, troca-os por outros. É fácil até encontrar pérolas, exemplares de capa dura impressos há 90 anos, como o romance A filha das ruínas de Max Du Veuzit, pseudónimo da escritora francesa Alphonsine Zéphirine Vavasseur, de romances água com açúcar, publicado em 1938 pela Edição Romano Torres.

Quem também encontrou uma obra rara foi João Melo, que não perde uma Feira do Livro Dado e sempre leva mais do que escolhe – foram 12 contra 10. A circulação de saberes de forma democrática, por não estar sujeita ao poder de compra, beneficia também outros seres vivos: as árvores, que não precisam ser cortadas para atender a demanda por livros, diz o empresário da área de argamassas ecológicas.

João diz que participa nas feiras para encontrar amigos, descobrir coisas novas e principalmente deleitar-se com a serendipidade que sempre está presente neste tipo de trocas. Como o livro que o fascinou não apenas pelo título e pelo tema, mas especialmente pelo perfeito estado de conservação, por ser uma obra de 1964. Seu amor pelos livros vem de seu pai.  

Para beneficiar um número ainda maior de pessoas com este modelo de economia solidária de incentivo à leitura, a Casa da Esquina empenha-se agora em realizar edições da Feira em zonas mais afastadas de Coimbra. Primeiro, em 2022, foi em parceria com a Cooperativa Semearrelvinhas, no então recém inaugurado Centro Cultural e Social da Relvinha, resultado de muita luta por parte de Jorge Vilas. A segunda foi a de Monte Formoso, que tem uma população de 2,5 mil pessoas, como informou o presidente da Associação Moradores do Monte Formoso, Paulo Lobo.

Paulo Lobo, presidente da Associação Moradores do Monte Formoso

Ao final da feira que tem em sua essência a democratização do conhecimento e do acesso aos livros houve um concerto com a cantora de fado Beatriz Vilar, realizado graças à parceria com o Jazz ao Centro Clube (JACC), associação que está a levar a cabo o programa Fora dos Eixos: práticas artísticas em contexto de proximidade. A iniciativa, financiada pela DGArtes / Ministério da Cultura e pelo Município de Coimbra, foi desenhado a partir do (re)conhecimento das fortes clivagens – geracionais, territoriais e de detenção de capital cultural – que interferem no acesso às práticas culturais, em Coimbra. 

No biénio 2023/2024, o programa decorre nas freguesias do concelho de Coimbra, indo ao encontro de pessoas normalmente arredadas da frequência dos espaços culturais convencionais. «O contacto direto com as comunidades, através de parcerias com coletividades, juntas de freguesia, escolas e associações de moradores é o critério fundamental» e os espectáculos são sempre de acesso livre e gratuito.

O próximo concerto, dentro da mesma parceria com a Associação de Moradores do Monte Formoso, é da dupla Lívia Nestrovski e Fred Ferreira, dia 22 de Julho. Paulo Lobo quer que seja na Mata do Monte Formoso, mesmo local onde a associação ofereceu aos moradores, no passado dia 16 de junho, um jantar em comemoração ao Dia Internacional do Vizinho (celebrado oficialmente a 27 de maio). E no dia a seguir também houve troca de mudas e de sementes.

Além do jantar de celebração, a Associação Moradores do Monte Formoso também promoveu o Varandas Mais Floridas, uma competição amigável para tornar o bairro mais bonito, aumentar o sentimento de orgulho de seus moradores. O dinheiro dos prémios dos três primeiros colocados só pode ser usado no comércio local.

Monte Formoso mais uma vez a dar uma bela lição de colectividade e de como se constrói uma comunidade coesa e orgulhosa de si mesma.

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