Já diz Jorge Palma: «Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal / Na terra dos sonhos, toda a gente trata a gente toda por igual / Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar / Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar». Não era o que se ouvia ao subir as escadas do n.º 173 da Rua Simões de Castro, mas não estava longe. Ao chegar ao 1.º andar do Atelier A Fábrica, o cenário e a energia no ar são, sem dúvida, de sonho e possibilidade.
Uma vaca do escultor Lagoa Henriques saúda-nos à entrada e os olhos começam a vadiar pelas traves gigantes de madeira no tecto com pinturas e baloiços pendurados, pela mobília em segunda mão e toda diferente uma da outra e as pessoas, sobretudo as pessoas. Desde idosos a crianças que correm e brincam (há mesas pensadas para isso mesmo), o enorme open space está cheio e ninguém parece ter pressa para se ir embora.

Junto à escultura, Élia Ramalho suspira: «Estou cansada mas muito feliz.» A artista plástica, autora dos espaços Quarto de Van Gogh e Salão da Frida, é uma das fundadoras do novíssimo espaço cultural, que pretende ser de encontro coletivo de artistas e agentes culturais em Coimbra. Com ela nesta empreitada estão Sara Batista, designer da Universidade de Coimbra (UC), Alex Lima, músico, artista visual e doutorando no Colégio das Artes, Natasha Soares, investigadora e organizadora de diversos eventos e dinamizadora do bar ODD, e Fábio Castro, relações públicas e responsável pela programação e organização das actividades desenvolvidas. O grupo deu vida à associação Retalhos Fonéticos e alinhou-se na missão de oferecer uma alternativa cidade, ali entre o Mondego e a Rua da Sofia, no primeiro andar do edifício que faz esquina, junto à Auto Industrial e a rotunda com a escultura da Princesa Cindazunda, da autoria de Pedro Figueiredo.
O primeiro andar foi uma antiga Moagem, depois uma oficina de camisas da marca Alvoeiro e mais tarde loja de candeeiros. «Depois de terem sido abordados no sentido de ocuparmos o espaço para arrendar, os proprietários foram lá ao Salão da Frida e gostaram muito, entenderam bem o conceito do que queríamos fazer aqui, identificaram-se com a proposta», conta Élia Ramalho. «Só me pediram para não pintar as paredes», solta, a rir. Quem conhece o Salão da Frida, na Rua de Montarroio, percebe a adenda.
Porquê criar outro espaço, já tendo aquele? Porque aquilo que começou por ser um espaço de fruição artística, com oficinas artísticas para crianças, por exemplo, «acabou por se tornar um café-concerto», por influência dos músicos que o começaram a frequentar e o contexto pandémico. Tornou-se pequeno e começaram a surgir problemas com o ruído naquela que é uma zona essencialmente residencial.

A artista não esconde que sente que «em Coimbra a pessoa facilmente entra num sítio e sente-se a entrar num clube ao qual não pertence». «Sinto que há pouca abertura e articulação entre espaços culturais e sei que não sou a única», acrescenta, e é nesta vontade de dar resposta à «necessidade da existência de um espaço com uma forte dinâmica social e cultural na Baixa de Coimbra» e também de ser uma espécie de «resistência à pandemia» que, recuperando a memória histórica e colectiva, o atelier foi buscar o nome à tradição fabril coimbrã.
O objectivo é ser uma «fábrica de tudo, de ideias, criação e partilha de afectos». Foi Élia que concebeu a decoração e distribuição do espaço, utilizando essencialmente materiais reciclados e de baixo custo, pretendendo promover a sustentabilidade e ecologia dos materiais. Não faltam cantos para pôr (literalmente) mãos à obra e já estão patentes as primeiras exposições, com obras de Sam Abercromby, pintor australiano a residir em Torres Novas, e uma homenagem ao jornalista e repórter de guerra Max Stall, que tinha uma relação próxima com a UC, integrada na Semana Cultural e Mimesis da Universidade de Coimbra.

Élia Ramalho garante que, desde que começou a revelar a abertura do Atelier, não tem parado de receber solicitações de artistas e que a programação do espaço pretende ser «muito diversificada» e direcionada a diferentes públicos, dando palco a artistas locais e prova disso é o facto de, nesta abertura oficial, se assistirem aos concertos de Luís Travassos, Miguel Cordeiro, Pedro Ribeiro, Mel Costa, Eli McFerry, Luis Rocha e Alex Lima. Estão previstos mais eventos em parceria com a SESLA – Secção de Escrita e Leitura da Associação Académica da Universidade de Coimbra e outras entidades da cidade, como a Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra (APBC), de forma a contribuir para a senda de ter «uma Baixa de Coimbra mais atractiva, segura e com cultura servida porta a porta, integrando todas a comunidade e visitantes».
Podem acompanhar a programação do Atelier A Fábrica na página oficial no Facebook. Além de bebidas, a copa está a trabalhar num menu de refeições. O horário actual do espaço é das 18h às 22h nos dias úteis e das 17h às 4h à 6.ª e ao Sábado.
