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Às terças-feiras há Café com música no Convento

Curto, Duplo, conhecido ou uma completa novidade, o ciclo semanal de mini concertos e residências artísticas já é uma referência em Coimbra. A organização acredita que além de montra para artistas, emergentes e não só, também cria importantes raízes na cidade.

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Fotografia: Filipe Furtado (capa), Tiago Cerveira, Blue House

Ana Deus, Luca Argel, Vânia Couto, Surma, Martim Seabra, Francisco Fontes, Janine Mathias, foram já várias dezenas de nomes a embalar os finais de tarde no Café Concerto do Convento São Francisco. A Blue House transformou o espaço num ponto de encontro semanal obrigatório para melómanos e artistas, de Coimbra e não só. Dezenas já acompanham habitualmente os 30 ou 60 minutos de showcases, Café Curto e Café Duplo, no palco que tem uma das melhores vistas de Coimbra.

João Silva, coordenador da Blue House, diz que «o importante é que as pessoas desfrutem do que a cidade tem para oferecer e do que as pessoas tentam fazer para proporcionar estes momentos diferentes de descontração, momentos culturais onde possam vir descobrir música nova». Desde Outubro de 2020, a produtora e agência musical, com o apoio da Câmara Municipal, convida o público a sentar-se à mesa com a música, todas as terças, às 19h30. Já foram servidas mais de 100 actuações de 30 e 60 minutos, mantendo a aposta em jovens artistas e projetos emergentes.

Na última sessão de cada mês, os «cafés» são duplos com o resultado de sinergias e co-criação entre artistas locais e nacionais, com temas próprios e conjuntos desenvolvidas em residência prévia, no estúdio da Blue House. «[Tem sido] uma bela surpresa, pois fomos constantemente surpreendidos pela generosidade, profissionalismo e criatividade de todos os artistas a quem lançamos o desafio», afirma a Blue House.

Este ano, está prevista a continuidade da extensão ao Teatro Municipal de Bragança, começada em Setembro do ano passado, e o convite a artistas visuais para criarem uma imagem que ilustre o tema que sai de cada residência. Lisa Teles, Claudia Guerreira e Bruno Lucas são os três primeiros artistas convidados. Dos encontros já surgiram criações de Luís Figueiredo & Maree Lawn, Helder Bruno & Rui Maia, Diogo Alexandre & Ana Deus, João Mortágua HOLI & St James Park, Filipe Furtado Trio & Cabrita, Pedro Branco & José Valente, Mara Simpson & Diogo Mendes, Luca Argel & Vânia Couto e April Marmara & help!.

Pop, folk, world, electrónica, jazz e até literária – como o Caminho dos Cravos em celebração do 25 de Abril, no ano passado -, segundo o programador Ricardo Jerónimo a aposta da programação é a diversidade. «Seja no género ou nas influências musicais, no tipo de formação ou na origem geográfica, a nossa visão de curadoria tem-se baseado na qualidade das propostas, às quais o público vem respondendo com uma consistente adesão. A informalidade inerente a um espaço de café-concerto tem sido igualmente considerada aquando da definição das actuações a programar, com um resultado coerente entre proximidade e valorização da apresentação artística.»

MIC – Música Independente de Coimbra

O Café Curto integra uma vertente de formação artística e profissional com a convocatória MIC, em que os/as artistas selecionados/as têm a oportunidade de apresentar o trabalho no Café Concerto. Beatriz Bandeirinha, natural da Figueira da Foz, candidatou-se com três projectos e não só teve a oportunidade de cantar no palco do Café Concerto como fazer o primeiro videoclipe – Duna – com a assinatura do realizador Tiago Cerveira. «Foi super importante para mim as perguntas que me fizeram, puxaram por mim, desafiaram-me a procurar a minha voz. E foi importante ter um espaço para falar sobre sustentabilidade e o meio ambiente numa plataforma artística.» O vídeo foi gravado numa praia figuereirense com problemas de erosão.

Beatriz prepara-se para gravar o primeiro EP e «tentar fazer mais música com significado sobre assuntos que [acredita que] não estão suficientemente na agenda das pessoas». Diz que «aqui em Coimbra precisamos de uma nova escola de música de intervenção» e que «muitas vezes, apesar de até haver espaços mais informais de criação como o Ateliê A Fábrica e o Liquidâmbar, aqui [no Café Concerto] há uma dignidade que não existe noutros sítios» e garante que «as pessoas que vêm [assistir aos concertos] também são uma grande inspiração».

Criado em 2022, o MIC já selecionou 12 artistas, com os quais trabalhou em estúdio, gravou um tema e preparou a estreia em palco. Em 2024, o território estende-se a toda a zona centro, com o intuito de alargar o espectro de artistas que se podem candidatar e fazendo parcerias com entidades que trabalham o apoio à criação nos territórios, como é o caso da Associação APURA, em Coimbra.

Mauro Ribeiro, professor no Curso Profissional do Conservatório de Música de Coimbra, frequentava regularmente o Café Curto quando a conversa com João Silva levou a uma parceria óbvia. De dois em dois meses, o palco é dos temas originais dos combos de jazz de alunos do Conservatório. João Silva afirma que «é importante que haja essa ligação à criação e que se estimule os alunos para criaram, para comporem, não simplesmente para interpretar» e Mauro não tem dúvidas de que o ciclo «já é referência na cidade e é um trabalho mais sério do que o que se faz nos bares».

Luca Argel e Vânia Couto em residência artística na Blue House

Numa das mesas do Café Concerto, Tiago Cerveira diz: «Aqui é onde eu brinco às ficções». Autor de dezenas de videoclipes de artistas ligados à Blue House e dos vídeos dos showcases, residências artísticas e participantes do MIC – que este ano prevê selecionar mais oito projetos -, afirma que no universo do ciclo «cruzam-se motivações, têm-se discussões saudáveis sobre a cultura, sobre o estado da cultura, sobre o estado da arte e é espectacular nesse sentido». «A Blue House manda a pedrada no charco. Temos aqui uma grande casa e, parece que se esquecem sempre dos pequenos grupos por a casa ser grande mas não, a casa é grande então consegue ter divisões para todos. E para esta malta emergente parece que havia falta desse espaço», remata.

Mais do que na mera produção, Jorri acredita na criação e colaboração. Para o produtor, o MIC é uma oportunidade para os artistas locais, nomeadamente os mais jovens, mostrarem o que valem e depois terem uma equipa de profissionais a ajudá-los a «terem a liberdade e o sonho deles, terem as ferramentas certas para que o sonho se possa tornar realidade.» «Estas ligações, para mim, são importantes porque é fixe que eles fiquem com raízes em Coimbra. Não sabemos o que lhes vai acontecer. Estávamos a falar de um miúdo que se a vida dele correr bem ele nunca mais volta a Coimbra. Está muito acima da média. Mas se eles tiverem alguma raiz aqui, eles vão voltar.»

No dia 14 de Maio será o 150.º Café Curto 150. A programação vai sendo toda disponibilizada no site do Convento de São Francisco e no site da Bluehouse. Em 2024, o ciclo conta ter novos parceiros, alguns fora da Região de Coimbra, para que os artistas «possam circular e mostrar o seu trabalho a outros públicos e continuarem o seu trabalho enquanto músicos e criadores«. Os próximos Café Curtos e Duplos são: Capital da Bulgária (5 Março), Malva (19 Mar), Nuno Melo, Lisa Sereno, FeMa., Duques do Precariado, A Sul, Sallim, Paulo Vicente + Bia Maria (26 de Março), Krake + Cachupa Psicadélica, Flak + Hugo Gambóias, Gabriel Ferrandini + Ondness.

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